Capítulo 2
Eu escolhi um cachecol rosa e o sol também não tava afim de brincar hoje. Fui de carro para um dos poucos restaurantes que vendiam sopa de galinha em Stable. Stable era uma cidade pequena, mas parecia que tava crescendo todo dia. Um novo Starbucks abriu do outro lado da cidade e também ia ter um cinema novo. Pelo menos tinha mais coisa pra fazer por aqui.
Eu não cresci aqui. Eu morava no Brooklyn com a minha Mãe. Só me mudei pra cá depois da faculdade pra começar o meu negócio com a ajuda do Ben. Comprei a minha casa depois do terceiro ano de empresa. Foi uma grande conquista que eu não podia compartilhar com muita gente, especialmente com a minha Mãe, com quem eu queria estar mais do que com qualquer pessoa. Eu queria construir uma casa, ter seis filhos pequenos correndo pela casa, chutando bolas, pintando nas paredes e se fantasiando. Isso deixava um monte de gente louca, mas era isso que eu queria. Eu queria um marido pra sentar e me aconchegar, rir e chorar junto.
Eu também queria ver o mundo, mas se eu pudesse abrir mão disso em troca de uma família, eu faria num piscar de olhos.
Eu bati na porta da Donna com duas caixas de sopa de galinha pra viagem debaixo do braço. Ela abriu a porta depois de uns minutos.
‘É isso que eu tô pensando?' A Donna riu.
Eu balancei a cabeça e sorri. Ela tava mais pálida do que ontem, o que fazia o nariz dela se destacar como uma placa de pare. Ela tava com um cobertor vermelho enrolado nela.
‘Tem certeza que não precisa de um médico, Donna?' Eu perguntei. Eu sentei num sofá de couro marrom. Duas xícaras de mel e gengibre estavam na mesa de centro.
‘Ah, você tá falando igual o Russell. Eu não preciso de remédio nem de médico. É o tempo ruim, só isso.' Ela puxou o cobertor mais perto do peito.
‘Donna, olha pra você!'
‘Eu ainda tô linda.'
Eu caí na risada. A Donna não parecia ter mais de cinquenta e sete anos. Num dia ensolarado, ela usava batom azul e uma peruca brasileira preta pra cobrir o cabelo loiro.
‘Eu não entendo por que você tá rindo, eu sou uma modelo gata.'
‘Claro que você é, Donna. Uma modelo gata teimosa.'
‘Bem, ninguém nunca chegou a lugar nenhum sendo fácil.'
Eu balancei a cabeça, a Donna era a coisa mais próxima de família que eu tinha e ela me tratava como filha, mesmo que a gente não se conhecesse há muito tempo.
‘Eu tenho que ir pro trabalho, você tem certeza que não precisa de nada?'
Ela acenou pra mim, ‘Ah, eu tô bem. O Russell tá aqui pra cuidar de mim. Ele é um preocupado, igualzinho ao pai dele.'
‘Quem é o Russell?' Eu perguntei.
‘Meu filho. Ele veio mais cedo pras férias quando eu deixei escapar que não tava me sentindo bem. Porra, agora eles vão todos vir mais cedo se essa gripe não for embora logo.'
Eu ri, ‘Pelo menos você vai ter a casa cheia pra te manter entretida.'
Ela encostou a cabeça na moldura da cadeira. ‘Me deixar louca, você quer dizer.'
Eu deixei a Donna descansar, eu não me importava o quanto ela era teimosa. Se ela não estivesse melhorando logo, a gente ia pro hospital. Eu disquei o número da minha irmã quando entrei no carro.
‘Oi, Hayley.' Eu disse.
‘Jenna, oi. Indo pro trabalho, imagino.' A Hayley tava sonolenta.
‘Sim, eu tenho cerâmicas novas pra inspecionar.'
‘Deve ser ótimo não ir dormir às seis e acordar ao meio-dia pra ir trabalhar de novo.'
‘Ai. Mal posso esperar pra você vir. Vai ser incrível.'
‘Umas férias vão ser boas.'
‘Exatamente! Tem tanta coisa que eu quero te mostrar. Eu até tenho uma surpresa.' Eu ri.
‘Uma surpresa?' Ela pareceu insegura.
‘Sim, confia em mim, você vai amar.' Eu entrei no estacionamento. O Ricky e os meninos dele estavam ocupados descarregando as cerâmicas. Eles vieram da fábrica pro Ben e pra mim inspecionar.
‘Se você diz, Jenna.'
‘Claro, eu tenho que ir. A gente se fala depois, irmã.'
‘Tchau, Jenna.'
Eu desliguei e corri pra pegar o elevador antes que fechasse. A Candice, que fazia parte do marketing, tava lá dentro. Os dedos dela batiam rapidamente no celular nas mãos dela.
‘Bom dia, Candice.'
‘Jenna,' ela murmurou.
Eu me mexi e juntei os lábios. A Candice e eu mal nos dávamos, na verdade, a gente não tinha nenhum relacionamento além de chefe e funcionária, mas a Candice às vezes esquecia que eu pagava o salário dela.
Eu corri pra sala de reuniões, esperando encontrar o Benjamin no celular. A Marsha era a única lá, organizando o lugar.
‘Cadê o Ben?' Eu perguntei.
Ela deu de ombros, ‘Ele disse que tinha uma reunião importante.'
Eu balancei a cabeça. Eu me perguntei o que ele tava aprontando. Eu também me perguntei se a reunião dele tinha algo a ver com a mulher do quarto andar de Mumbai, na Índia.
‘Nova York quer pelo menos mais mil da linha de cuidados com a pele de coco. E eles querem experimentar a nova linha de cuidados com a azeitona! Ah, eles ligaram hoje de manhã!'
Eu fechei os olhos e agradeci ao cara lá de cima. A gente não tinha notícias deles há um tempo. Esperar pode ser intenso.
‘Você avisou o Ben pra entrar em contato?' Eu perguntei.
A Marsha inclinou a cabeça pro lado. ‘Não… Eu disse pra eles que você ia entrar em contato hoje.'
‘Marsha! Eu tenho uma reunião com o representante de Miami hoje.'
‘Ah, não se preocupe, você consegue. É só negociação de preço, não deve demorar muito.'
Eu suspirei, acho que ela tava certa.
‘Ah, lembra da festa do Ben hoje à noite.'
‘Hoje à noite?' Eu mordi o polegar. ‘Eu achei que era semana que vem.'
A Marsha riu. ‘Não esquece de levar uma garrafa de vinho.'
***
Eu escolhi um vestido preto com brilhos claros e saltos pretos sem alças. Eu olhei para o colar de esmeralda lindo na minha mesa de cabeceira.
‘Parece um desperdício deixar ele ali.'
Eu peguei ele e encostei no meu peito. Ele realmente fazia meus olhos se destacarem e brilhava contra a minha pele. Talvez se eu usasse ele na festa, a pessoa entrasse em contato comigo. Sem dúvida, essa pessoa sabia quem eu era. Por que ele não simplesmente me chamava pra sair? Eu não era tão assustadora, era?
Eu coloquei a peça única no meu pescoço, arrepios se espalharam automaticamente pelo meu corpo.
‘É tão lindo.' Eu sussurrei.
Eu apaguei as luzes da sala de estar, o brilho fraco das luzes de Natal quentes preencheu o ambiente. Com a minha garrafa de vinho na mão, eu saí na noite fria. A neve ia começar logo. Eu ouvi um barulho e batidas.
Veio da casa da Donna. Eu deixei o vinho e a minha bolsa no banco do motorista e fui até a cerca que separava as nossas casas. O barulho ficou mais alto. No meu coração, eu esperava que não fosse um animal selvagem.
Em vez disso, eu vi um homem com uma camisa xadrez comprida que cobria metade das calças cinzas e um gorro preto.
‘Com licença, Senhor.' Eu me senti como um rato. Esse homem era pelo menos um metro maior que eu.
Ele soltou a sacola de lixo que tava tentando tirar da lixeira e me encarou. Os olhos azuis dele se estreitaram pra mim. Ele tinha uma barba cheia, mas selvagem. A expressão dele me fez engolir as próximas palavras. A gente nunca teve moradores de rua por aqui antes.
‘Quem diabos é você?' Ele rosnou.
Eu endireitei as costas e limpei a garganta. A Donna tava doente, ela não tinha que lidar com gente de rua curiosa.
‘Sinto muito, Senhor, mas o senhor não pode mexer no lixo da minha vizinha. Tem um abrigo não muito longe daqui que distribui comida. Acho que fica a só trinta minutos daqui.'
Ele arqueou a sobrancelha, ‘Com licença?'
‘Quero dizer… o senhor vai conseguir comida melhor lá do que numa lata de lixo. Por favor, apenas vá embora, eu não deveria ter que chamar a polícia.'
‘A polícia?' Ele cruzou os braços e deu um passo pequeno, mas eu me senti ameaçada.
Eu engoli em seco, talvez eu não devesse ter confrontado ele.