Capítulo 5
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Minha situação não tava boa.
Então, tipo, apesar de eu ter recusado ele na lata, era ele que tava cuidando de mim, saca?
Eu fiquei toda embaralhada por causa dessa doença.
O *alphaking* todo poderoso parecia um babaca sem moral na minha frente.
Às vezes, minhas lembranças voltavam pros nossos melhores dias.
Eu ficava toda grudadinha nele, sabe, tipo criança, e precisava sentir o cheiro dele pra dormir todo dia, como se fosse meu remédio pra dormir.
Ele fez TANTA coisa pra me preparar.
Reformou a casa toda, por dentro e por fora.
A casa tava cheia das minhas ervas preferidas
dizendo que eu tinha que ser persistente como as ervas eram
Ele tava com medo de eu esbarrar em alguma coisa, e os objetos pontudos sumiram ou foram embrulhados em coisas protetoras.
Ele botou os remédios fora do meu alcance e me dava na boca toda hora.
"Se comporta, abre a boca e toma o remédio."
"Não, quero que você me abrace ~"
"Come direitinho, e eu te abraço, beleza?"
Eu obedeci e comi, e ele me abraçou um tempão.
Tipo, como se tivéssemos nos reencontrado depois de muito tempo separados.
Um dia, ele me levou pra um lugar aberto e mandou eu invocar o corpo de lobo pra fazer umas coisas
Eu percebi que tava fraca demais pra me transformar
Ele falou que tava tudo bem, que eu tava meio fora de mim há muito tempo e tinha piorado um pouco.
Mas eu sei, no fundo, que meus dias estavam contados mesmo.
Desde então, eu fiquei ainda mais dependente dele, até pra ir no banheiro eu ia com ele guardando a porta.
Ele murmurava baixinho, "Heaven, se ao menos sua memória tivesse ficado nessa época."
"Amor, do que você tá falando?"
Eu apertei a bochecha dele e perguntei sorrindo.
Ele disfarçou rapidinho a tristeza e sorriu.
"Nada, baby. Só te amo muito."
Mas, no segundo seguinte, eu mudei.
Eu odiava ele e não queria ver ele nem pintado.
Eu dei um tranco no *Jamal* pra longe.
"Lobo perdido, some daqui!"
Eu sacudia meu travesseiro que nem uma louca e joguei nele.
Me enrolei e fiquei tremendo.
Tava tão frio, frio como a noite na chuva no buraco.
*Jamal* veio e me abraçou.
"Heaven, não tenha medo, não tem lobo perdido aqui, só eu do seu lado.
Tô aqui."
Como se eu finalmente tivesse achado alguma coisa, joguei um travesseiro nele, querendo matar ele.
"Você que me machucou, você que me botou no buraco e me deixou pegar chuva!
Você que deixou o lobo perdido me morder!"
"Some daqui!"
"Sai daqui!"
*Jamal* tava suando de nervoso do lado, sem jeito, se culpando e culpado mas sem poder fazer nada.
E esses dois extremos das minhas diferentes atitudes eram o que ele enfrentava todo dia.
Talvez eu amasse ele num segundo, talvez eu odiasse ele no seguinte.
Eu não conseguia ficar longe dele quando amava, mas queria matar ele quando odiava.
Ele vivia uma vida de gelo e fogo todo dia.
Ele procurava em todo lugar um médico lobo que pudesse mandar alguém pra floresta profunda pra estabilizar minha situação, pra achar um jeito de me impedir de piorar.
Só que minha memória continuava piorando.
Pra me ajudar a lembrar, ele me ensinou a escrever um diário.
21
28 de dezembro de 2023
*Jamal* guardava as coisas de valor dele no mesmo lugar e botou uma lousa na casa pra anotar minha rotina diária, que ele disse que me fazia esquecer menos. Só que minha transformação falhou de novo hoje. Senti que meus membros não me obedeciam mais. Será que tô ficando velha?
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J me deu uma pulseira, pra eu não me perder, ele disse.
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Eu tava com medo da pessoa no espelho. Ela tava tão magra e acabada. Achei que ela era feia. *Jamal* quebrou todos os espelhos da casa, de raiva.
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Ele falou que o nome dele era J, e disse que eu precisava lembrar que eu amava ele, mas eu realmente não conseguia.
É estranho. Eu não conhecia ele.
O dia de ir pra fora chegou, mas eu tinha esquecido por causa da doença.
Num aeroporto no exterior, *Edison*, que nunca me recebeu, correu pra voltar pra casa.
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A primeira e única coisa que *Edison* fez quando voltou pra casa foi me levar.
Só que o *Jamal* não ia deixar.
Não tinha como ele ficar parado vendo o amor da vida dele, que ele tinha machucado e perdido por tanto tempo, ir embora com outra pessoa.
"A pessoa que ela ama sou eu. Por que você vai levá-la?"
"Por quê? Ela nem lembra de você."
*Edison*, que sempre foi gentil e bonzinho, perdeu a paciência.
"Não pense que eu não sei o que aconteceu com vocês esse tempo todo."
*Edison* falou de repente num tom de deboche, "Você não sabe disso, né? Não tem nada entre a gente.
Ela foi comigo naquele dia só pra me implorar pra marcar a cirurgia da vó dela."
"Quem é você pra dizer que a ama? Ela tava preocupada com a avó antes do noivado, e você tava tão ocupado que nem sabia.
Você não se importa com ela, muito menos com a família dela."
"Depois, ela sentiu que devia a você e veio do exterior pra cuidar de você.
Mas e você, *Jamal*, tá sorrindo feliz com outras mulheres?"
"Você mentiu pra ela. Você não confiava nela. Achou um jeito de torturá-la!"
*Edison* apontou o dedo no nariz do *Jamal* e xingou.
"Quem você acha que é pra ficar com ela?"
"Além disso, no dia que ela me ligou, ela me disse claramente que tinha desistido completamente de você. Graças a você, a Heaven não te ama mais.
Acorda, ela não quer ficar com você."
*Jamal* ficou chocado que tinha perdido tanta coisa.
Ele não sabia que tinha desconfiado tanto da Heaven por tanto tempo.
Ele até ficou com outras na frente dela porque entendeu tudo errado sobre ela e o *Edison*.
*Jamal* não consegue falar nada.
Ele percebeu que tinha feito tanta coisa pra torturá-la só pela desconfiança e ódio dele, sem motivo.
Agora, a pessoa que ele mais amava tava na frente dele, mas ela não consegue lembrar da aparência dele ou nem do nome dele.
Ela tinha sido torturada até ficar como tava agora.
Eu acordei por um momento.
Justamente quando os dois me perguntaram com quem eu ia.
"*Jamal*, a gente se vê de novo dessa vez."
Eu escolhi o *Edison* e nunca mais olhei pra trás.
*Jamal* viu quando eu dei um passo na direção do *Edison*.
Os olhos dele estavam vermelhos e ele olhou pro teto.
Eu não sabia o que tinha pra ver no teto.
Eu só ouvi um som bem, bem baixinho.
"Por que você não me escolhe… Heaven, você é minha Heaven"
23
Depois, minha memória piorou cada vez mais.
Quando eu ouvi falar do *Jamal* de novo, alguém disse que ele tava com depressão.
Ele cometeu suicídio num buraco na cidade.
Eu parecia ter lembrado de alguma coisa, mas não lembrei.
Isso é bom. Eu não queria lembrar de coisas ruins.
Embora eu não soubesse quem era o *Edison*, eu sabia que ele era muito legal comigo.
Eu tava feliz.
Na primavera de 2024, não tinha mais nenhum homem chamado *Jamal* na memória da Heaven.
(Fim do texto completo)