Flashback ll
Desci do busão com um sorriso, mesmo bolada por causa do cara do meu lado. Achei que era grana dele, mas ele ainda usou a minha, que saco. Espero que ele só tenha me devolvido a carteira.
Mas ele devolveu minha carteira, vai que ele pegou a passagem. É mó chato, parece que levei um golpe ali.
Mas mesmo com isso, tô feliz porque desci de boas e cheguei na cidade onde meu Pai manda. Ouvi dizer que ele que manda aqui, que controla a cidade, e tô orgulhosa porque meu Pai fez a parada certa.
"Aí, onde fica a prefeitura aqui?" perguntei pra uma Mulher que tava vendendo peixe ali do lado, e ela me olhou, depois apontou pra prefeitura. Agradeci na hora e fui correndo pra lá. Meu sorriso aumentou mais ainda quando cheguei na frente da prefeitura.
Fiquei admirando o tamanho e a beleza do design da prefeitura onde meu Pai chefia. Rapidinho ajeitei minhas roupas bagunçadas e entrei na prefeitura. Os Guardas até me cumprimentaram lá fora, então também sorri pra cumprimentá-los. Parei na frente da Mulher da recepção e falei com ela.
"Oi, bom dia. Posso fazer uma pergunta?" perguntei, ela me olhou da cabeça aos pés e depois balançou a cabeça. Acho que é só por causa da minha idade.
"Onde fica o escritório do Prefeito aqui?" perguntei, e ela levantou a sobrancelha na hora.
"O que você precisa do Prefeito?" Ela perguntou, então tirei a foto do meu bolso com um sorriso e mostrei pra ela.
"Vim conversar com meu Pai", falei, ouvi uma risadinha fraca dela e depois ela me olhou sério.
"Moça, aqui na prefeitura não tem nenhum doido, mas se quiser, a gente te leva pra lá." Ela disse, e eu fiz uma cara feia.
"Hã?" perguntei. Ela respirou fundo e ficou brava comigo.
"Eu falei, o Prefeito tá ocupado--"
"Arizona, minha agenda tá cheia? Cancela tudo." Olhamos pro falante atrás de mim e meu coração quase pulou de alegria quando vi meu Pai segurando um celular e uma Mulher do lado dele, vestindo um vestido formal, e, na verdade, o Prefeito tava vindo.
"Pai!" chamei ele com um sorriso, e ele me olhou e franziu a testa enquanto me via chegando perto dele.
"Paii--" Não terminei o que ia falar quando, de repente, Dois homens grandes usando roupas formais pretas pararam, olhei pros dois, eles também tinham óculos pretos e um fio ligado à orelha.
"O Sr. Prefeito não pode ser abordado." Meus lábios tremeram com o que um deles disse.
"E-Escuta? M-mas ele é meu Pai." As testas deles franziram, e a risada deles não escapou do meu olhar, como se eu tivesse falado algo engraçado.
"O que tá acontecendo aqui?" Olhei pro meu Pai, que tava atrás dos Dois homens grandes na minha frente.
"Sr. Prefeito, parece que ela é sua filha, ela disse." Rindo, um deles falou, e meu Pai me olhou, mesmo com a barriga crescendo e parecendo maduro, tenho certeza de que ele era meu Pai.
O Pai andou na minha frente, então sorri e aproveitei a oportunidade pra abraçar o Pai forte, finalmente. Pela primeira vez, também abracei meu Pai, que eu não via há anos. Quando eu era pequena, sempre perguntava pra minha Mãe onde tava meu Pai, ela sempre me dizia que ele tinha um emprego em um lugar distante e que ia demorar muito pra eu poder ir pra casa e voltar, mas quando caí em mim, aos poucos, entendi que o que minha Mãe me contava quando eu era criança não era verdade.
Ele só não queria que eu me sentisse mal pelo meu Pai porque ele tinha outra família.
Não me sinto mal pelo meu Pai porque não sei o que aconteceu no passado, o importante é que o meu Pai tá do meu lado e eu abraço ele nesses momentos.
"Pai, faz tanto tempo que eu tô esperando--"
"Sai de perto de mim." Fiquei chocada quando ele me empurrou, vi o nojo nos olhos e gestos dele. Ele até colocou álcool na mão na minha frente e depois me encarou como se eu fosse uma pessoa muito ruim e tivesse feito algo errado.
"Quem é você? De repente, tá chegando perto de mim, não sabe que as doenças tão na moda agora? Olha a sujeira." Ele disse, e me deu água na boca.
"Sr. Prefeito, preciso do senhor na sala de reunião." A Mulher que acabou de chegar me olhou, vi o nojo dela, me olhei e me cheirei. Não vejo nada de errado comigo, também não tô fedendo, então por que eles são assim quando me encaram?
"Tira ela daqui, tá chamando a atenção de todo mundo aqui", o Pai falou pra um Homem de uniforme, e meus lábios se separaram, e eu me alarmei na hora.
"Mas Pai, eu sou a Erelah, filha da Arizona", falei pra tentar fazer ele parar, ele me olhou, e, aos poucos, a alegria no meu peito ganhou vida porque vi a reação chocada dele, mas também sumiu na hora que vi a aura dele escurecer, como se eu tivesse falado um nome que ele esqueceu há muito tempo.
"Saiam daqui primeiro", o Pai falou frio pras pessoas ao nosso redor, mas, confusas, elas não fizeram perguntas e obedeceram as ordens do Pai na hora.
"Me siga." Ele falou frio e andou, então peguei minha bagagem na hora e segui ele. Chegamos na frente da prefeitura, ele virou na rua, então também virei até chegar atrás da prefeitura, onde não tinha ninguém, só nós dois. Sorri quando ele me olhou, mas perdi meu sorriso na hora que vi o tipo de olhar que ele me lançou.
Um olhar onde senti o nojo dele por mim.
"Pai--"
"Não me chame de 'Pai', eu não tenho filha." Ele falou frio, e fiquei ofendida e abaixei a cabeça com vergonha, senti que tava só me envergonhando na frente dele.
Minhas lágrimas escorreram na hora por causa do que ele disse.
"Mas Pai--"
"Não entendeu? Eu falei, não me chame de Pai porque eu não tenho filha, volta pra onde você veio." Olhei pra ele, o nojo dele por mim.
Isso é diferente do que eu esperava que acontecesse, espero que ele me aceite com generosidade e me receba com abraços apertados, mas por que isso? Por que isso tá acontecendo?
Quando eu era pequena, meu Avô sempre me dizia pra não aparecer pro Pai porque ia só me envergonhar, então sempre tentei defender o Pai e dizer 'Ele é bom, então não pode fazer essa coisa comigo', mas agora, o Vovô tá certo. O Pai me envergonha.
"Volta pra sua Mãe, já paguei pra ela? Já conversamos sobre isso, por que você tá aqui agora?" Ele perguntou bravo, depois tirou a carteira e pegou milhares da grana dele, depois me deu um tapa na cara, fazendo-a cair no chão.
"Pronto, some daqui e não volta mais, talvez seja o suficiente." Ele falou, me abaixei e olhei pra grana ali. Não dá pra comprar o amor de um Pai. Quero a atenção e o carinho dele, então tô aqui, não por causa da grana dele.
"Da próxima vez que você voltar aqui, vou te colocar na cadeia, tá entendendo?" Ele perguntou, e eu olhei pra ele, ele se virou.
"Só quero ter a experiência de estar com meu Pai", falei, e ele parou, ficou de costas pra mim.
"Só quero sua atenção e amor, então tô aqui, não preciso da sua grana." Minhas lágrimas escorreram por causa do que eu falei, minha mão na mala apertou mais ainda.
"A Mãe falou, você prometeu antes que ia voltar pra mim, pra Mãe e pra mim, mas ---"
"Some e não volta mais." Ele falou frio e foi embora.