Capítulo 18: Sienna
Eu e o Mendigo decidimos parar nas lojas pra comprar sorvete. A gente voltou pro clube faz uma hora.
'Tô sentada na frente da televisão no chão com carpete tentando assistir Flash, sou muito fã da Marvel. Tinha uma coleção de gibis pra provar. Kaleb tá deitado de costas chutando as pernas, punho na boca, falando naquela linguinha de bebê dele.
A Geada, a Mercy, o Mendigo e a Depois estavam ocupando o sofá grande, enquanto o Touro e um motoqueiro chamado Radar pegaram o sofá de dois lugares. Os dois ficaram com a gente, caso acontecesse alguma coisa. O clube tava super cauteloso.
A Natasha ainda não voltou, desde o rolezinho com o Matador. Culpa minha. Eu não podia falar pra ela que não podia andar com o Matador, porque me dava ciúmes. E, pra ser sincera, acho que não faria diferença, já que o Matador tava decidido a levar a Natasha na garupa, e naquela altura eu duvidava que qualquer coisa que eu falasse mudasse o resultado.
A minha boca me traiu, e mesmo que eu estivesse tentando ficar feliz, já que era o dia do meu casamento, eu tava me sentindo uma merda, porque o Mendigo tinha razão.
A Mercy e o Touro não falaram nada depois que eu praticamente surtei com ele. A Geada me disse que o Matador era um homem paciente, mas eu fui longe demais. Você sempre sabe como tirar o pior dele. As últimas palavras dela ainda me dão calafrios de tão verdadeiras que são.
A Depois, no entanto, não viu necessidade de ficar quieta e me mandou a real, "Você não faz isso com um homem na frente dos irmãos dele, quer ser a mulher dele, então precisa aprender a respeitar. Respeitar o irmão, respeitar o clube. Você se comportou como uma vadia hoje, não ganhou as patentes, nem uma porra de direito de falar com o meu Vice-Presidente desse jeito. Você é uma peça, sabia?". Doeu quando ela me deixou sozinha, porque de todas as mulheres, incluindo a Geada, que era minha prima, a Depois foi a única que me considerou amiga.
E como minha amiga, ela se acalmou depois de me dar uma bronca e as meninas sentaram na cadeira esperando o Matador, a Natasha e os outros voltarem. Já fazem duas horas.
A Depois não me lançou aqueles olhares de interrogação como as outras fizeram, quando o Matador não colocou o Kaleb pra dormir depois do almoço, como ele ia fazer.
Essa era a dele. Nos últimos 3 meses, o Matador nunca perdeu a hora da soneca, mesmo quando saía pra resolver coisas do Clube, ele sempre fazia questão de fazer uma videochamada.
Desde que começou essa parada da Covid esse ano, a gente tem mantido um perfil bem discreto. Estavam falando em outro lockdown e o clube já tava em alerta, caso acontecesse.
Dá pra ouvir o barulho das motos e eu sou a primeira a correr pra janela, espiando. Eles voltaram.
Me torturo vendo a Natasha e o Matador. A dor me atinge em como eles deveriam ser um casal incrível, me encolho quando ela tira o capacete, dando um sorriso pra ele. Não sei o que ele tá falando, porque ele ainda tá com o capacete.
Me afasto da janela, enquanto as meninas ficam, mas não perco o toque sutil que a Mercy me dá no braço.
Olho pro meu menino. Os olhos dele são verdes claros, como os meus. Eles são tão curiosos, olhando pra tudo, enquanto ele chupa o punho. Desço no carpete, esquecendo a televisão, as meninas, ele e ela, e estico as pernas pra que fiquem dos dois lados do Kaleb.
"Um dia vou te levar pra casa da praia em L.A, acho que você vai adorar ficar no sol", digo pra ele enquanto afago a bochecha dele.
Ignoro os barulhos atrás de mim; as meninas voltando.
As botas do Matador estão bem na frente do Kaleb e minhas, então ele se abaixa, pega meu menininho no colo. Onde ele pertence.
Talvez quando chegar a hora e eu tiver que ir embora, não vai ser tão difícil saber que ele terá o amor desse homem, que diz não entender a emoção humana. Bem, fora o fato de que ele ama nós dois.
A Natasha vem ficar atrás dele, fazendo carinho no Kaleb. O cabelo curto dela tá meio bagunçado por causa do passeio.
Eu não consigo odiar a Tash, só consigo amar ela. Ela é minha melhor amiga, minha prima. O Matador é um homem que nunca provou o doce, a Tash pode ser isso pra ele. Ele precisa de doce, não de uma vadia. Não eu. Tenho tantos esqueletos no armário.
O olhar que ele me dá, sentindo meus pensamentos, diz que talvez eu esteja certa.
"Deixa eu pegar ele um pouquinho", a Natasha murmura com uma voz doce.
Espero ouvir um não, mas não ouço. Vejo ele realmente entregar o Kaleb pra ela. Essa é a primeira vez, até eu preciso brigar com o Matador pelo meu menino. Não sei por que dói, mas dói. Baixo o olhar, ciente de que os dele estão de aço, deixando a sala fria, enquanto ele fica ali depois que a Natasha se afasta com o Kaleb.
"Sai.", a voz dele corta o ar e eu não sou burra pra saber que ele tá falando com todo mundo. Esse é o Matador, ainda um durão mandão. Sempre consegue o que quer. Fico no chão, me recusando a olhar pra cara dele porque vai significar ficar encarando pra cima pra ele, e agora que estamos sozinhos, não quero. Ele tem outras ideias, pois caminha lentamente atrás de mim, me faz ficar rígida, sem saber o que esse homem vai fazer.
Ele me choca quando senta atrás de mim, pernas abertas, me prendendo entre elas. Dobro minhas pernas e as cruzo, me preparando pra levantar. E consigo, até que uma perna dele desliza sob meus pés, tão rápida e suave, que eu caio e ele me pega com o braço na cintura, me aconchegando no colo dele.
Os olhos dele são lindos pra caralho, ele tem aqueles olhos azuis Orniel. Parece um azul elétrico.
"Acabou de fazer seu chilique?", ele pergunta.
"Desculpa.", custa muito pra eu dizer isso, mas não custa muito pra ele aceitar, quando os lábios dele se mexem.
"Eu não me importo quando estamos sozinhos. Isso te deixa selvagem e sem vergonha, e essa é a Sienna que eu conheço."
Balanço a cabeça em sinal de entendimento, "Eu não devia ter falado na frente dos caras e das mulheres."
Ele me dá um olhar pensativo e com um dedo toca levemente meu nariz, "Sim, por isso preciso te punir. Não posso te dar tratamento preferencial em relação a todo mundo. Seja minha mamãe ou não."
Arqueio a sobrancelha com o comentário de mamãe, até que entendo a outra parte, "Espera, o quê?"
O rosto dele mostra um olhar divertido, "Você ouviu."
"Talvez eu seja surda, porque o que eu acho que ouvi e o que você acha que eu ouvi devem ser diferentes."
Ele agora sorri de verdade, "O que eu acho que você ouviu e o que você acha que ouviu é o que você ouviu, querida."
Tento sentar, mas o moço tem outros planos quando coloca a mão na minha barriga.
"Eu gosto de você assim. Logo você vai estar grávida da minha prole, não terei isso por um tempo."
Racho de rir.
"Eu sou muito feliz por ter me casado com você, Sienna."
"Eu também, Kevin."
O aviso do Deno crepita na minha cabeça, fritando os pensamentos saudáveis e deixando toda a sujeira pra trás. Ele me deixou uma mensagem de casamento hoje de manhã.
Se você não for embora logo, vai colocar todo o clube em risco, e o Kaleb em perigo. O Matador nunca vai te perdoar se descobrir o que você fez. Vá embora, Sienna, nós vamos te proteger e o Matador vai manter o resto seguro enquanto terminamos isso.
Afasto o pensamento enquanto o Matador senta no chão, remexendo nos brinquedos. Balançando a cabeça, vou pra fora pegar o cobertor que colocamos na varanda. O Cavaleiro está de pé na porta principal com a Mercy. A Mercy acena me mostrando o sinal de positivo, e o Cavaleiro empurra o peito dela de maneira brincalhona. A Mercy me chama pra perto e corro pra porta.
Eu tropeço nos meus pés, quando o primeiro soco vai direto no meu estômago. Meu braço é jogado pra trás pelo segundo soco, minha perna vai pro chão com o terceiro.
Eu imaginei minha morte em todos os cenários.
Cair de um penhasco foi a maneira menos provável de eu morrer. Eu tinha tanto medo de altura que não havia nada sobre isso que eu considerasse engraçado. Crescendo, meu tio sabia que me levar num avião pra qualquer lugar não aconteceria sem um baita chilique da Sienna. Então ele se preparava por dias antes de partirmos. E então, também, eu acabava num barco, num carro, ou ficava pra trás. Então morrer caindo de um penhasco, prédio ou qualquer coisa com altura não ia acontecer. E eu me amava demais pra sequer considerar mudar isso.
Ser comida por um tubarão era uma impossibilidade, pois eu não frequentava as águas do oceano regularmente, de forma alguma. Eu ficava nas partes seguras da praia e, na maioria das vezes, deixava a água me lavar do lado seguro da costa.
Um carro me atropelar enquanto eu atravessava a rua era a maneira mais boba que eu poderia morrer, e também não era uma possibilidade que eu consideraria. Visto que eu vivi numa casa enorme, a maior parte da minha vida, numa cidadezinha cheia de frescura chamada Liston Hills, projetada exclusivamente para as pessoas mais ricas e seus filhos ricos e metidos. Eles nunca me viram andando na rua, além da distância que eu precisava pra chegar na minha moto, ou carro.
Engasgar com bolo de chocolate? Sim, eu poderia morrer assim, eu devorava muito bolo e minha bunda mostrava o tanto que eu comia. Correr até meus membros caírem em pedaços? Era uma possibilidade. Eu corria muito, mas isso não mostrava em lugar nenhum no meu corpo. Talvez ser morta fosse a melhor opção. Isso acontecia muito comigo, considerando que eu nunca fui a pessoa que eles queriam. E, por último, cair da minha moto não aconteceria num futuro próximo, já que minha moto agora estava na cobertura do meu tio, em Washington.
Nos últimos 28 anos da minha existência, imaginei todas as maneiras prováveis de morrer. Velhice, nenhuma delas, porque eu sabia que a morte me queria mais cedo. Eu era muito selvagem pra não aceitar um convite.
E um convite que aceitei no dia em que escolhi a vida do Harlin em vez da minha. Não posso dizer que me arrependo, porque sangue não era o que nos fazia irmãs. Era o amor no meu coração. Estes meses que se passaram foram minha pequena parte de tempo emprestado. O presente de Deus pra uma criança órfã. Foi mais do que eu esperava e, embora eu não visse este dia, eu sabia que ele viria.
O sangue escorre pela minha boca, e o Sol brilha tão forte que traz lágrimas aos meus olhos. O rosto dele, o braço dele embaixo de mim, consigo sentir ele ao meu redor, olhando pra mim.
"Não me abandone, querida, por favor, não. Sienna",
"Eu aposto que a mamãe me vê agora, não é?", tossi o líquido.
"Ela não está gostando do que está vendo, docinho. Por favor, aguente firme."
"Debaixo da cama", digo pra ele enquanto tento levantar minha mão pela última vez. Eu sabia que antes de morrer teria que dar um fim pra ele. Espero que ele consiga e siga em frente.
Eu nunca soube como seria o meu fim, mas uma pecadora morrendo nos braços de um soldado era uma boa maneira de ir.
Muito obrigado por comprar e ler este livro até o fim. A história da SIENNA está chegando em breve. O Matador e a Sienna terão três livros pra contar a história deles. Deixe um comentário ou avaliação e me diga se vocês gostaram.
Como parte da minha gratidão, anexei uma cópia do livro da Kylie Bray. Porque sinto que a história dela precisa ser contada pra que vocês entendam realmente as dificuldades dela
Todos enfrentamos desafios, mas superá-los com uma mentalidade positiva é importante.
Divirtam-se