Capítulo 2
Senti minha visão clareando aos poucos e finalmente consegui enxergar melhor. Me surpreendi por estar no meu quarto, mas ignorei porque estava exausta depois daquele pesadelo do cara de pano branco. Mãe chegou mais perto e sentou do meu lado com uma cara de preocupada.
"Mmm, isso tá estranho. O que vocês estão fazendo no meu quarto?" falei, usando meus dedos pra apontar pra eles.
\ Por a primeira vez na minha vida, Adrenia e Carmalo me perguntaram:
"Como você tá se sentindo? Tá tudo bem?" Idiota de mim. Me senti tão importante de repente e comecei a chorar. Whoaaaaaaa, Mari, o que tá acontecendo com você? Ouvi minha voz interior dizer. Como você pode chorar por isso? Hmph, você tá certa, não devia chorar por isso. Podia até ser uma pegadinha. Enxuguei minhas lágrimas e olhei pros meus dois irmãos.
"Sim, agora vocês podem, por favor, sair? Tenho aula de matemática. OMG, tenho aula de matemática... como eu vim parar aqui?" Uma ficha caiu.
"Não posso faltar aula, vou ficar com um histórico ruim. Não, não, não, isso é ruim!"
Eu tava surtando e um par de mãos tocou meu ombro. Ah, era Marley, minha melhor amiga.
"Relaxa, gata. Sra. Antonia já ligou pro diretor." As palavras dela me acalmaram. Ufa, suspirei de alívio e soltei a respiração que eu tava segurando de frustração. Algo tava diferente na minha família, eles ainda me encarando no quarto. Agiam como se tivessem visto um fantasma. Bem, talvez eu estivesse assustada durante a revelação ruim, por isso, ou porque eu desabei.
O que eu não sabia era que eles sabiam do meu destino. Quem eu realmente sou, que eu não fazia ideia.
Mãe finalmente pediu pra todo mundo me deixar descansar um pouco e depois descer pra comer. Eu vi cada um deles escorregar pra fora da minha porta.
**Adrenia Pov**
Eu não conseguia acreditar no que tinha acabado de ver.
**Flashback**
Eu tinha falado pra Mari não me envergonhar e vestir algo legal antes de descer e pegar o café da manhã... Quanto tempo leva pra ela se vestir? Desisti de esperar na cozinha e fui pro meu carro. Poucos minutos depois, Carmalo entrou. Ótimo, um chato a menos, falta mais um.
"Carmalo, cadê Mariline?"
Claro, meu irmão idiota e desrespeitoso teve que gritar:
"Mari mother fucker line!" Dei uma encarada pra ele e ele sorriu. O que tá acontecendo com esse garoto?
Woooaaaa, pensei comigo mesma quando Mari foi pra entrada da porta, ela tava incrível. Essa é a irmã que eu quero. Meu celular apitou e eu peguei pra conversar. Sorri, reconhecendo o número, que era do Jake. A gente tava namorando desde o segundo ano do ensino médio. Fiquei ali sonhando com o quanto eu amava ele.
**Jake**: "Hey, amor, (emoji piscando). Desculpa, não vou poder ir no encontro hoje. Tenho treino extra pra fazer."
Meu coração afundou no meu estômago. Eu tava muito ansiosa pra ficar sozinha com ele.
**Eu**: "Tudo bem, talvez sábado à tarde. Malha esses músculos pra mim, te amo!"
Rir das minhas próprias palavras.
**Jake**: "E por isso eu amo minha querida Adrenia!" Dei uma risadinha com o que ele digitou.
Ele sempre pareceu gostar da Mariline por alguma razão estranha e por isso eu sempre fui grossa com ela. Sei que é injusto, mas a gente tem quase a mesma idade, o que significa que ela pode namorar com ele se ele pedir. Idiota de mim. Isso não vai acontecer, sai desse pensamento idiota, Adrenia.
Adrenia!!! Adrenia!!! Adrenia!!!
Me virei com o som da voz do Carmalo. Ele tava tão horrorizado com os olhos arregalados. Naquele instante, parecia que todos os seus jeitos de idiota desapareceram e tudo que eu vi foi o seu rosto inocente de 15 anos. Olhei na direção dos seus olhos e vi Mariline no chão com o braço em volta das pernas. Ela tava tremendo e gritando e eu fiquei com medo. Corri pra fora do carro com Carmalo pra perto dela, mas parecia que ela não tava no mundo que a gente vivia. Os gritos dela avisaram nossos pais e eles também correram. Vi Marley também parada com uma cara de preocupada. Ela tava com muito medo. Como ela veio parar aqui? Ela também é nerd, como minha irmã, e iria direto pra escola sem parar em lugar nenhum. Carmalo carregou Mari pro quarto dela e a verdade é que eu fiquei surpresa. Quem diria que ele tinha essa força?
Ela gritou mais e mais enquanto estava na cama e meu coração pareceu que uma abelha picou. Sei que sou grossa com ela, mas eu amo muito minha irmã. Vi a mesma emoção no rosto do Carmalo e booooom, aconteceu. Todos nós engasgamos com a cena. Mariline tava com fogo em volta dela. Então acabou e foi substituído por gelo, vento, água, poeira, corrente elétrica e, confiem em mim, se eu disser mais, vou ficar com a garganta seca.
"Elimen..." Eu disse isso e não percebi. Todas as cabeças foram na minha direção.
"O que você disse?" meus pais perguntaram.
"Eu disse Elimen, Mari é Elimen" gaguejei.
"Os sonhos..." Sussurrei, mas foi alto o suficiente pra todos ouvirem.
"Que sonhos?" meu pai parecia furioso. Eu sabia que ele podia sentir que eu tava escondendo algo. Não aguentei uma cara tão mortal, então comecei a contar tudo. Contei tudo sobre o sonho. Aquilo foi tudo! Minha mãe e meu pai pareciam que iam ter um ataque cardíaco. Eles nos avisaram pra não falar nada pra Mari até descobrirem o que fazer.
"Eles vão encontrar minha filha" a voz da minha mãe me fez tremer. Ela parecia tão assustada.
Meu pai colocou a mão nela pra confortá-la.
Carmalo me cutucou e eu virei pra encarar, mas de repente suavizei quando o vi apontar pra Mari. Ela tava recuperando a consciência. Avisei a mãe na hora e ela informou o pai.
Ah, minha irmãzinha. Senti ciúmes dessa revelação, mas fiquei feliz que ela estava segura.
"Quem vai encontrá-la?" Carmalo me perguntou enquanto saíamos do quarto dela pra ela descansar.
"Eu li muitos livros e acho que são as pessoas de Harz." Congelei com o que ele disse. Harz era o lugar a que realmente pertencíamos, mas não éramos necessários lá. Meus pais nasceram sem poder e foi uma desgraça, então ambos fugiram pro mundo humano. Ah, isso é mais difícil do que eu pensei.