Capítulo 13- A Vila.
Quando eu tava na faculdade, eu recebi uma ligação da minha Mãe. Ela me contou que o meu Pai tinha sofrido um acidente. Naquele ano, as terras não renderam um bom lucro pra ele. Ele já tava estressado. Quando ele ouviu falar que, uns quilômetros dali, tavam contratando trabalhadores numa obra, ele foi na hora tentar. Ele conseguiu o trampo lá, mas em só três dias, ele caiu de uma altura. Eu corri pra voltar pra vila, só pra encontrar ele no hospital. Ele quebrou a cabeça do fêmur e machucou o joelho. O médico disse que ele precisava de uma prótese no quadril e outra no joelho. Mas a grana que ele pediu pra operar era muita alta. A gente virou todas as nossas economias de cabeça pra baixo, vendeu a casa e mudou pra essa cabana pequena, mas só conseguiu juntar uma mixaria que ia dar só pra pagar a consulta do médico atual dele. O médico deu no mínimo cinco anos pra gente operar ele, mas se as operações atrasassem mais de cinco anos, as chances dele voltar a andar iam cair drasticamente. A gente pegou um empréstimo com os parentes, que ajudou a gente a sobreviver. Minha Mãe começou a trabalhar nas terras sozinha e cuidava do meu Pai, que nem conseguia se mexer na cama, sozinho. Enquanto isso, eu fui pra cidade e larguei os estudos, procurando um emprego em tempo integral pra mim. Sete anos já tinham passado e, depois de ralar muito, eu nem tinha conseguido juntar metade da grana. Ver ele andando era só um sonho pros meus olhos. Eu não esperava que fosse se realizar tão cedo.
Eu corri pro meu Pai e abracei ele, Ele me abraçou de volta, beijando a minha testa, enquanto a gente entrava e minha Mãe convidava o Alex e a Daisy pra entrar.
"Mãe, Baba, esse é o Alex, meu amigo, ele foi quem mandou os médicos e pagou as despesas da operação do Baba."" Eu apresentei ele, enquanto eles olhavam pra ele com olhos cheios de gratidão.
"Muito obrigado, filho. Muito obrigado. Eu não só perdi a capacidade de andar, mas também perdi a confiança e a vontade de viver." Baba chorou, "Eu tava literalmente rezando pra Deus me levar."
"Você fez um favor enorme pra gente. Eu não sei como vamos retribuir o favor." Mãe continuou.
"Não se preocupem, Tia, sua filha já tá pagando por isso," Alex falou, "Quer dizer, ela vai trabalhar como minha assistente por um ano inteiro. Eu não fiz nenhum favor pra vocês, tudo o que eu fiz foi adiantar o dinheiro que sua filha ia ganhar trabalhando."
Meus pais sorriram pra ele, e a Mãe disse: "Isso ainda é muita gentileza da sua parte, arrumar ela na sua empresa e pagar uma quantia tão alta adiantado."
POV DO ALEX
Sasha, por que você não mostra a vila pra ele antes do pôr do sol? Até lá, eu preparo o jantar." Tia Jenny sorriu.
Eu andei atrás dela, enquanto ela ia andando pela rua, balançando as mãos. A rua escorregadia tava cheia de mato e arbustos. O chão tava úmido e musgoso, como se todo dia chovesse e fizesse orvalho. Não tinha muito carro, só um ou outro de vez em quando. Os moradores ficavam longe uns dos outros, porque tinha plantações de arroz e plantações de abacate e cravo-da-índia por todo lado. O céu tinha virado laranja e vermelho, pronto pra o sol se pôr.
Eu não consegui evitar de pegar na mão dela que tava balançando e puxar ela pra mim. Eu entrelacei os nossos dedos enquanto a gente andava um do lado do outro, de mãos dadas. No começo, ela se assustou e tentou soltar a minha mão, mas um olhar desafiador pra ela e ela tava pronta pra me enfrentar. Não importa o quanto ela diz que eu não sou nada pra ela, eu sei o quanto ela se importa comigo. Eu vi isso nos olhos dela, do jeito que ela me olha quando ninguém tá vendo, do jeito que as bochechas dela ficam vermelhas comigo, eu sei que ela ainda me ama.
Depois de andar um pouco, a gente entrou no mercado da vila. Tava um pouco cheio, porque várias barraquinhas tavam perto uma da outra. As crianças corriam pela rua, enquanto as pessoas passavam comprando e fofocando. Quando as pessoas nos viram, eu vi as crianças olhando pra gente, e algumas mulheres se aproximaram da Sasha, porque reconheceram ela. Sasha é muito gente boa, não importa quem seja, ninguém consegue odiar ela, ela é um doce.
"O que é aquilo?" Eu perguntei, apontando pra uma barraquinha de doces, tudo o que eu queria agora era desviar a atenção dela.
Ela olhou pra barraquinha, e os olhos dela brilharam de felicidade, "Uma barraquinha de doces." Ela falou, "Caramba, quanta saudade eu tava das tamarindos e das mangas verdes! Você quer experimentar?"
Eu dei de ombros, e ela me puxou pra barraquinha.
"Oi, Tio, você pode dar um pacotinho de tamarindo e mangas verdes com pimenta?" ela perguntou, e o vendedor sorriu pra ela, cortando uma manga verde em tirinhas finas, e ele salpicou sal e pimenta, antes de servir pra gente, junto com um pacote de tamarindo. Ela pegou uma fatia, colocando na boca e fechando os olhos por causa da acidez. "Experimenta, é uma delícia." Ela me ofereceu, e por alguma razão eu não consegui recusar. Um sabor forte e azedo atingiu o meu paladar, e eu gemi, sentindo uma queimação na cabeça. Eu não consigo aguentar um sabor tão intenso de azedo. Mas mesmo assim, eu tentei por ela. O sorriso no rosto dela era a minha perdição, eu não conseguia evitar de me apaixonar por ela toda vez que ela sorria. Eu sei que é errado, eu sei que eu tô comprometido, eu sei que eu não tenho o direito de amar ninguém além da Daisy, mas a minha vida com a Sasha parecia tão perfeita. Depois que ela voltou pra minha vida, eu sinto que eu me encontrei de novo, eu sinto que eu tô vivendo de novo, explorando cada cantinho desse mundo com ela. Minha vida parecia tão perfeita com ela. Tudo o que eu queria agora era quebrar todas as amarras que me prendiam e aproveitar o momento com ela.
Enquanto ela tava ocupada devorando os doces, eu fui pra uma barraquinha de pulseiras, onde um homem de meia-idade tava sentado no meio das pulseiras coloridas. Elas eram tipicamente tradicionais e incomuns nas cidades. Meus olhos imaginavam a Sasha usando essas pulseiras. Eu escolhi um conjunto de pulseiras de vidro azul simples, porque azul é a minha cor, e eu quero ver a Sasha toda manchada da minha cor.
Eu puxei ela pra mim e coloquei essas pulseiras azuis brilhantes no pulso dela. Ela corou, mexendo o pulso pra elas fazerem barulho.
"Você não é filha do John?" O vendedor perguntou.
A Sasha deu um sorriso e o sorriso de sempre dela.
"Você cresceu e virou uma garota linda. E você fica tão perfeita com esse rapaz. Parece um casal feito por Deus. Eu rezo pra que Deus mantenha vocês dois sempre juntos."
Eu vi o sorriso da Sasha cair, e ela fingiu um sorriso e virou as costas pra mim. Ela foi andando na frente, brincando com as pulseiras.
"Sasha," Eu chamei ela, mas ela respondeu, "Que que tá acontecendo, Alex, por que você me enche tanto?"
Eu senti uma pontada de dor no peito, quando ela só queria esquecer tudo e fazer as coisas serem como antes, ela tinha que estragar tudo. Mas eu posso culpar ela por isso?
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POV DA DAISY
Eu não consigo acreditar que o Alex trouxe a gente aqui, numa vila! Eu achei que a gente ia pra um lugar incrível, que ia ser luxuoso e bonito. Eu achei que ia postar milhares de fotos dessa viagem e todo mundo ia ter inveja de mim, mas, porra, eu tava errada! O Alex me trouxe pra essa vila pobre. Se a minha galera das redes sociais souber disso, eles não vão parar de me zoar.
A gente entrou na cabana deles. O nosso carro é maior do que esse lugar. Eu vi a Sasha e os pais dela fazendo um drama emocional. Por que os moradores da vila são tão dramáticos?
A cadeira que eles ofereceram pra gente era tão dura que doía a minha bunda. Eu vi o Alex conversando com o John, o pai da Sasha, enquanto a Sasha tava no colo da mãe dela, na esteira áspera. Uma emoção de amor surgiu no meu coração, e eu senti falta do amor maternal, mas isso foi instantaneamente substituído pelo ódio quando o rosto da minha Mãe passou pela minha frente. Tirando todas as memórias dela da minha mente, e eu sentei lá parada, ouvindo as conversas masculinas rolando entre o John e o Alex. Gente chata. Eu tentei abrir o meu Snapchat pela centésima vez, mas não carregou. DEUS! No mundo do 5G, como eles conseguem viver numa rede 2G fraca que ainda fica oscilando. Eu abanei o meu rosto com a mão, enxugando as gotas de suor nos meus lábios superiores. Não é o começo do inverno? Como essa vila pode ser tão quente! Eu olhei pro ventilador de teto que tava girando devagar. Não tem ar condicionado nem cooler, só esse ventilador de teto que eu acho que tá funcionando há cem anos. E agora tá aqui só pra mostrar. Eu arqueei as costas, porque tava doendo, o nosso carro é mais confortável do que essa casa. Finalmente eu me levantei e fui em direção ao Alex, "Chaves do carro, por favor."
Ele levantou a sobrancelha pra mim, e eu só fiz beicinho, "Eu tô sentindo muito calor, eu não consigo ficar aqui mais. Por favor."
Ele me entregou as chaves e virou pro John, "Não leva ela a sério, ela é uma mimada." ele comentou, "Ela não consegue sentir a beleza das coisas antigas e o conforto do ar fresco da vila. Afinal, um macaco não sabe o gosto do gengibre." Eu bati os pés antes de jogar o cabelo pra cima dele e sair correndo dessa cabana. Como ele ousa falar comigo desse jeito. Eu gemi quando o meu pé afundou na poça de lama, eles não conseguem fazer estradas? Gente pobre!
Tropeçando em direção ao carro, eu peguei uma garrafa de água Bisleri, jogando no meu pé, tentando lavar a sujeira.
"Precisa de ajuda?" Eu virei pra encarar um cara de cabelo claro, usando óculos. O cabelo dele era relativamente preto, mas dava pra ver as mechas castanhas brilhando no sol. Por um segundo, eu fiquei impressionada com ele, mas quando os meus olhos pousaram nas roupas dele, eu fiquei furiosa. Ele usava uma camisa listrada antiquada combinada com uma calça estilo vovô. Eu balancei a cabeça, ignorando ele e tentando lavar a lama sem tocar na sujeira. Eu dei um soco na porta do carro com frustração. Pegando outra garrafa, eu tava quase abrindo quando eu vi ele, colocando os meus pés no colo dele. Eu fiquei chocada e franzi a testa pra ele. Ele tirou os meus saltos e limpou os meus pés com um lenço úmido. Ele jogou um pouco de água nos meus pés, de um pote colocado ao lado dele, antes de enxugar com um lenço que ele acabou de tirar do bolso. Depois de lavar os meus calcanhares, ele deslizou no meu pé como se eu fosse a Cinderela e ele o meu príncipe encantado. Eu sempre sonhei com o Alex sendo o meu príncipe encantado e me ajudando a colocar os meus saltos. Mas a verdade era que o Alex tava sob o feitiço da Sasha e esse cara era um morador de vila pobre e irritante. Eu vi ele se levantando, ajeitando o boné, mas antes que ele pudesse sair, eu tirei uma nota de 100 dólares da minha carteira e ofereci pra ele. "Isso é pra você!" Eu disse, antes de enfiar a nota no pote dele agora vazio.
Ele pegou o dinheiro e arregalou os olhos pra mim, Os olhos castanhos dele perfurando a minha cabeça, pegando no meu pulso, ele colocou a nota na minha palma antes de fechar a minha mão com os dedos dele, "Guarde o seu dinheiro! A gente paga o favor com um obrigado, não com esses pedaços de papel." ele rosnou, e antes que eu pudesse reagir, ele sumiu na mata. Sério, essa gente pobre é tão irritante. Eles precisam de dinheiro, mas o drama de auto-respeito deles nunca acaba. Agora olha pra Sasha, ela tava manipulando o Alex pra pegar o dinheiro dele. A sangue suga desgraçada! Eu ia bater nela se não fosse pelo Alex. Eu sentei no carro e desinfetei as minhas mãos primeiro. Como ele ousa me tocar! Se eu ver ele de novo, eu vou quebrar a cara dele. Ajeitando o assento, eu me afundei no mundo dos sonhos."