CAPÍTULO 26
3 anos atrás,
Acordar com mais um pesadelo tava virando rotina na minha vida.
Não vou pra escola faz quatro semanas, ordem dos médicos e mesmo assim eu concordo totalmente com ele porque de jeito nenhum eu ia voltar pra encarar ninguém.
Quase não saio do meu quarto, a mãe tenta me implorar, o pai tenta me subornar, mas eu nunca ia ouvir. Eu nem falava com meus amigos e tô começando a me sentir meio egoísta porque todos estamos passando pela mesma coisa e eu joguei toda a atenção pra mim, mas não tava nem aí.
Era como se eu estivesse na minha própria bolha, fiquei magra, super magra, nunca durmo só pra evitar pesadelos, preferia ter uma conversa com uma foto do Leon do que com qualquer ser humano de verdade.
É mais como se eu estivesse ficando louca
"Oi querida, como você tá hoje?" A mãe entra no meu quarto e senta na minha cama.
Tiraram todas as fechaduras do meu quarto depois do incidente e isso tava muito chato porque eles sempre entravam quando queriam.
Não respondo, só balanço a cabeça.
"Você sabe que vai ter que falar comigo algum dia, alguma hora." ela me dá um beijo e eu balanço a cabeça de novo.
Na real não é que eu não quero falar, só não tenho vontade de dizer nada pra ninguém.
"Seu pai e eu queremos conversar com você agora, posso chamar ele?"
"Hmm" consegui murmurar. Vejo o sorriso no rosto dela enquanto ela corre pra buscar o pai.
"Oi princesa" meu pai sorriu fraco e na hora senti pena dele. O pai é quem fica de pé a noite toda tentando fazer com que seus homens encontrem o Leon e não tem sido fácil pra ele também.
"Então, hum, seu pai e eu conversamos com o doutor Felix sobre sua saúde mental e como você não está realmente melhorando." ela sorriu colocando as mãos nas minhas.
"E foi aí que ele nos indicou uma escola em Talisview" ele continuou por ela e eu só fiquei olhando confusa.
"Querida, vamos te matricular na escola St. Mary's para adolescentes problemáticos. É só pra você se recuperar e recuperar sua se-"
"O quê?" Eu rosnei enquanto me levantava e saía.
"Querida, volta, é para o seu próprio bem."
"Eu não ligo. Não vou sair" eu grito quando uma sensação aguda me perfura, sentindo meu peito se juntar, dificultando a respiração quando começo a perder o controle do meu corpo.
"É pro seu bem, amor" o pai sussurrou enquanto tirava a coisa que eu acho que era uma injeção, quando perdi a visão de tudo.
........
Acordando, observei o que estava ao meu redor e entrei em pânico porque estava confusa.
Camas simples, sem pintura colorida, sem gavetas, só simples.
"Onde eu tô?" eu perguntei pra ninguém.
"Bem-vinda à escola St. Mary's para adolescentes problemáticos" uma enfermeira pequena sorriu tristemente pra mim.
"O quê?" eu engasguei.
"Não se preocupe, vai ficar tudo bem. Vamos te levar para o seu quarto em alguns minutos, lá você vai conhecer sua colega de quarto com quem você vai ficar até melhorar." ela disse.
"O que você quer dizer, eu tô bem, tô ótima" eu argumentei, mas ela não disse nada. Decidi não falar mais, principalmente porque estava muito cansada pra isso e nem reclamei quando me levaram para o meu quarto.
O quarto, assim como o outro, era simples, duas camas, nada de especial.
"Oi, você deve ser Lorraine. Sou Connie e serei sua colega de quarto" ela sorriu timidamente. Me pergunto por que ela está aqui.
"Então, por que você está aqui? Você parece inofensiva" eu pergunto.
"Eu quase cometi suicídio. E você?" ela disse como se fosse nada.
"Nossa, eu realmente não sei, mas meu chamado médico disse que minha saúde mental estava diminuindo blá blá"
"Posso perguntar por quê?" Eu balancei a cabeça e contei tudo pra ela.
"Oh" ela suspirou "Não se preocupe, você está em boas mãos. Comigo, é claro, não com eles, eu realmente não vejo a hora de estar lá fora, estou aqui há um ano e meio."
"É muito tempo"
"Eu sei, fique comigo e confie em mim, você estará fora antes que você perceba."
"E por que você não tá fora?" Eu perguntei de forma bem grosseira "Desculpa" Eu sorri pedindo desculpas.
"Tudo bem, a irmã Josephine, a chefe dessa instituição, não está disponível nos próximos seis meses e ela é a única autorizada a te deixar sair. Então, sim"
"Bem, então" Eu balancei a cabeça me sentindo um pouco à vontade com ela, "Acho que consigo"
"Sem escolha"
........
Meu sexto mês e eu não poderia estar mais cansada do lugar, não é uma escola, é mais como uma prisão, mas, de qualquer forma, eu ainda tinha Connie e um monte de amigos novos pra me fazer companhia.
Comecei a agir um pouco mais como eu mesma, mas, no fundo, eu sabia que ainda era aquela garota problemática de seis meses atrás, mas tudo isso era uma fachada pra me tirar de lá.
Só a Connie sabia que os pesadelos ainda estavam rolando e ela tornou possível me ajudar a passar por isso.
Eu não tinha falado com meus pais desde aquele dia e pretendia continuar assim. Eu nunca permiti que eles me visitassem, só o Logan porque ele estava tão puto quanto eu.
Era exatamente um dia antes do nosso teste de rotina com a irmã Josephine e eu não poderia estar mais feliz. Connie e eu tínhamos tudo planejado e eu não via a hora de sair.
"Oi, Lorrie, tá animada?" Ela sorriu quando eu sentei na lanchonete.
"Estou ótima" Eu sorri de volta.
"Ok, isso é ótimo porque temos que aproveitar nosso último dia juntas"
"Como? Não é como se pudéssemos sair ou algo assim"
"Quem se importa? Vamos só nos divertir dentro de casa" ela deu de ombros quase todos as minhas batatas fritas.
"Sabe, pra alguém que é muito tímida, você está me surpreendendo toda vez"
"Bem, eu sou uma garota de surpresas" eu ri do que ela disse.
Naquela noite, eu não consegui pregar os olhos porque estava super animada e confiante que ia sair logo.
Virando pra Connie, eu chamei "ei", mas ela não respondeu e ela é a dorminhoca mais leve que eu conheço.
Indo para a cama dela, eu a sacudi e notei como o corpo dela estava frio.
Liguei a luz noturna e minha respiração falhou com o que eu vi. Connie estava espumando.
Eu estava tão confusa sobre o que fazer, continuei sacudindo-a freneticamente desta vez esperando que ela acordasse e percebi como eu era estúpida, então comecei a bater na porta porque eles trancam todos os quartos.
Depois de dez minutos batendo continuamente na porta, duas enfermeiras abriram a porta e eu suspirei de alívio.
"Uh, uh, Connie, eu-n-sei-" eu engasguei tentando recuperar o fôlego enquanto apontava pra ela.
Elas imediatamente voaram para o lado dela, uma pedindo ajuda, enquanto todo o andar foi inundado com irmãs confusas.
"Ela usou drogas, ela tem drogas, alguém drogou ela?" Todas as enfermeiras e irmãs começaram a perguntar.
"Não, não, nós comemos e bebemos a mesma coisa e ela dormiu antes de mim" eu tentei responder enquanto lágrimas encheram meus olhos.
"O que vai acontecer?" Eu chorei preocupada com a saúde da minha amiga. Eu não posso perder mais uma pessoa.
"Não podemos dizer se ela vai conseguir, mas prometo que tudo vai ficar bem, não deixe isso afetar seu teste amanhã" a irmã Josephine deu um tapinha nas minhas costas enquanto levavam a Connie.
Sentando na minha cama, eu chorei de medo porque não estava pronta pra viver sem ela.
Eu não sabia como dormi, mas tudo que ouvi antes de dormir foi uma irmã gritando 'Ela se foi'.