Capítulo 07
P.O.V. de Wan Ke
A sala principal tá arrumada com aquelas mesinhas chabudai, com quatro almofadas em volta, tipo em fila, nas laterais, deixando o meio vazio.
Entrando naquela sala barulhenta, vou direto pra mesa que tá livre. Ficar longe da galera não vai dar problema, porque se eu me misturar, certeza que vão sacar alguma coisa.
Pegando a chaleira que tá na mesa, jogo o chá verde na xícara de cerâmica. Fecho os olhos, levo a xícara à boca e deixo aquele líquido agridoce descer, refrescando por dentro.
"E aí, Keke", quase engasgo quando a voz ecoa nos meus ouvidos. Abro os olhos, coloco a xícara na mesa e limpo a boca com as costas da mão direita.
"Keke?", repito, curioso, olhando pro Hen Yu que tá sentando na minha frente.
"É... meu camarada", ele ri, trazendo a mão pra frente, com a palma fechada em punho. Sorrindo de orelha a orelha, ele me encara quando eu olho pra ele, erguendo a sobrancelha, achando graça. Meus lábios se abrem num sorriso, tiro a mão da mesa e enrolo minha palma no punho dele.
"Aí sim, camarada", dou uma risadinha.
Ter um amigo não vai dar problema e ele não vai ficar grudado em mim o tempo todo.
"Vamo lá. Vamo. Vamo beber", jogo o chá verde nas xícaras, levanto uma e ele faz o mesmo. "Melhores camaradas a partir de agora", a gente fala junto, batendo as bordas das xícaras, fazendo um barulhão.
"Que bom", Hen Yu fala, mordendo o lábio inferior, sorrindo.
Colocando a xícara na mesa, pegamos o palito do porta-palito mini, olhando um pro outro com um sorriso, furamos as frutas que tão no prato, nossos olhos ainda grudados, colocamos o kiwi fatiado na boca e começamos a rir, do nada, por causa desse nosso comportamento estranho.
"Se divertindo, hein?" paramos, olhamos pra cima pra ver quem é.
É o Cheng Lie e os dois seguidores dele, parados do lado.
"Posso participar da sua irmandade, Wan Ke?", ele pergunta, colocando o pé direito na mesa, se inclina pra me encarar. "Não enche mais o saco da Xiang", ele fala, olhando direto nos meus olhos, enquanto tento entender o que ele tá falando.
Tsc...
Meus lábios se contorcem num sorriso quando a lembrança da cena de ontem, na casa do Jin, passa pela minha cabeça. Ele foi o que puxou a Xiang de mim.
"Você não é bem-vindo aqui", respondo seco, desvio o olhar dele. Olho pro Hen Yu, que tá fazendo sinal pra eu não responder, com os olhos. Pego a chaleira e jogo o restinho de chá na xícara, ignorando ele.
"Me ouviu?" Cheng Lie levanta a voz, a atenção de todo mundo se volta pra cena. Ele chuta a xícara na mesa, o chá esparrama e isso me irrita.
Qualquer um que estrague meu apetite tá morto.
"Que que você quer?", rosno, encarando ele, enquanto ele dá um sorrisinho.
"Vamo lutar pra ver quem é o mais forte", ele fala, chegando perto do meu rosto.
"A sua flecha não chegou antes da minha?", eu debocho, olhando pro lado, pego a maçã fatiada, mas antes que eu levasse à boca, ele empurra minha mão, a maçã cai na mesa.
"Você tem coragem", ele fala com a voz baixa e fria. A atmosfera fica silenciosa, todo mundo olhando, e dá pra ouvir uns suspiros.
Ser o centro das atenções não é algo que eu curto.
"Ah", bato na mesa com a mão e levanto da cadeira, ele se mexe e fica parado, reto.
"Vamo começar", falo calmo, num tom de deboche, olhando pra ele com um sorriso.
"Keke, não, ele é..."
"Ok", Cheng Lie interrompe o Hen Yu, que tá tentando me impedir. "Vamo ver o que você tem", ele debocha, indo pro palco, e os seguidores dele trazem duas espadas que são pra treino. Vou pro palco e a galera vai atrás.
A direita dos meus lábios se move pra cima, no meio da luta, percebendo que ele é bom mesmo. Ele traz a espada perto da minha barriga, me distraindo, como se fosse pro meu pescoço, mas aproveitando o movimento dele, paro a espada dele com a minha e dou um giro, fazendo ela voar e cair no chão. No segundo seguinte, minha espada tá no pescoço dele, rapidão, antes mesmo do barulho do metal bater no chão parar, e o lugar enche de palmas e gritos.
Cheng Lie me encara, os olhos arregalados de horror, a expressão mostrando que ele tá chocado e não esperava por isso.
"Aprenda a escolher o seu oponente", falo com deboche, em voz baixa.
Tirando a espada, entrego pra um dos capangas do Cheng Lie, que já sobe no palco pra ver como ele tá.
"Você é demais", Hen Yu comenta, chegando por trás de mim, enquanto tento passar pela galera, que tá gritando meu nome.
"Valeu", respondo e corro pra um canto onde vi meu colega de quarto sentado, curtindo o chá, ignorando o show.
"E aí", chamo alto e sento na frente dele.
"Você me viu jogar?", pergunto, me inclino, apoio o cotovelo na mesa, coloco o queixo na palma da mão.
Abrindo os olhos fechados, ele me olha e tira a xícara da boca, colocando na mesa, os olhos dele encontram os meus, enquanto espero o elogio.
"Chato", ele fala seco, meus lábios se separam quando as palavras dele ecoam nos meus ouvidos.
Chato... eu...
"E aí", chamo, puto da vida, vendo que ele levantou da cadeira. Me dá mais uma olhada e sai, me deixando frustrado.
"Eu não sou chato", grito, levantando da cadeira. "Você que é chato, eu não chego nem perto disso. Eiii", me abaixo e pego as cascas de semente de girassol que estão na mesa. "Ninguém nunca me chamou de chato, é você. Cara de gelo", jogo as cascas nele, mas nenhuma acerta, todas caem no chão, e ele sai, ignorando minhas palavras.
"Vou fazer você se arrepender", rosno baixo, entro no meu dormitório.
Vou ficar na cama e dominar a cama toda, as camas não são separadas, as duas camas estão juntas, vamo ver onde ele vai dormir.
Sorrio com os meus pensamentos, entro no quarto e meu sorriso cai na hora, quando meus olhos encontram ele sentado na cama, lendo um livro.
Ok... eu tento outra hora.
"Brother Lei", vou até a cama e sento na beirada, na frente dele. "O quarto individual pode ser seu, né?", pergunto, piscando pra ele, com um sorriso falso no rosto.
Tirando os olhos do livro, ele olha direto pra mim. "Obedeça as regras", ele fala seco.
É a primeira vez que ouço ele falar três palavras, e a voz dele é igual ao rosto... muito fria.
"A regra é quem atirar mais longe pode ficar com o quarto individual", eu explico, apontando o dedo pro ar.
"Longe?" ele ergue a sobrancelha, duvidando, o que me faz franzir os lábios.
Ah... é... nossas flechas ficaram perto, mas quando pedi pro Mestre Ling um quarto individual, ele me disse que o Feng Lei podia sair se quisesse, depois de tanto eu implorar.
Ele falou sério ou falou porque convencer essa pessoa é tipo pedir pra uma pedra sair do lugar?
"Barulho", ele rosnou baixo, colocando o livro do lado da cama, ele se joga, colocando a cabeça no travesseiro e fecha os olhos.
Ficando olhando pra ele por um tempo, suspiro aliviado, me viro, pego o travesseiro extra e coloco entre a gente, como uma barreira.
"Não passe da barreira", eu aviso, encarando a pessoa que tá dormindo.