CAPÍTULO 21: Perda de apetite
PONTO DE VISTA DA TINA
Quando o Jordan disse para o resto da galera que a gente ia dar um tempo, mas que eles podiam ligar pra ele a qualquer hora, eu senti um negócio estranho por dentro.
Eu tava animada que a gente ia ficar sozinho. Não sei por que eu tava assim, mas sabia que tava exagerando, o que não é nada profissional.
A gente entrou no carro dele. Não sei pra onde a gente tava indo, mas fui junto. O carro dele era à prova de balas.
Me impressiona como ele pode ter um carro desses. Vale milhões pra ter um carro assim. Ele é detetive e usa um carro desses?
Guardei minha curiosidade pra mim e decidi ficar quieta. Sendo uma pessoa solitária a vida toda, aprendi a não falar muito.
Com quem eu ia conversar, sem mãe nem irmãos. Cresci em internato e a faculdade também foi longe de casa e da família.
Família? Posso chamar isso de família? Eu realmente tenho uma família? Meu pai vive fora de casa e minha madrasta me odeia, pra resumir, ela não gosta de mim.
Depois que minha mãe morreu, meu pai casou de novo e minha madrasta tem três filhos, uma menina e dois meninos. No total, meu pai tem duas filhas e dois filhos, né?
Meu pai casou com ela quando eu tinha quatro anos. Eu ainda não tinha dois anos quando minha mãe morreu e por isso meu pai ficou solteiro por dois anos e alguns meses antes de casar de novo.
Naquela época, antes de casar de novo, meu pai e eu éramos melhores amigos. Ele praticamente me adorava e me amava muito. Minha avó me contava um monte de como meu pai me amava demais.
Mas tudo mudou quando meu pai casou de novo. Ele passa todo o tempo com a nova esposa e quase não lembra que eu tô ali.
Minha avó veio fazer uma visita e me encontrou com os empregados enquanto meu pai foi viajar com a esposa grávida.
Ela perguntou pros empregados há quanto tempo meu pai e a esposa tinham ido e eles responderam que já fazia três dias e que pretendiam ficar duas semanas.
Lembrei e vi uma lágrima solitária caindo dos olhos da minha avó. Ela tava triste. Se a filha dela não tivesse morrido, a neta dela não teria sido deixada pra trás numa viagem de férias.
Ela pegou minhas coisas e me levou pra casa dela. Ela avisou os empregados que quando meu pai voltasse, era pra dizer que ela tinha me levado.
Foi assim que fiquei com minha avó por mais cinco anos. Parecia que meu pai tava feliz por ter alguém pra jogar a responsabilidade pra cima.
Foi enquanto eu tava com minha avó que ela me contou como minha mãe morreu. Eu tinha oito anos na época, mas lembro de tudo que a vovó me contou.
Ela disse que a verdade nunca foi descoberta. Não foi investigado, alguém bloqueou e a memória da minha mãe foi esquecida assim, de repente.
Ela me contou que minha madrasta era ex-namorada do meu pai antes dele conhecer minha mãe. Ela tinha vindo chorando pedindo pro meu pai casar com ela no lugar da minha mãe.
Meu pai, apaixonado, jogou ela pra fora do apartamento com raiva, se perguntando como alguém podia ser tão burra com aquele pedido.
Nunca mais viram ela. Meus pais casaram e viveram suas vidas. Eu nasci e no dia que eu fiz um ano e um mês, minha mãe pegou o carro e saiu.
Eu tava no banco de trás, minha mãe tava dirigindo e um carro veio na direção do lado da minha mãe, num cruzamento em 'T' e bateu no carro da minha mãe.
Me contaram que minha mãe saiu do carro e teve um ferimento na cabeça. Ela tava sangrando, mas eu não me machuquei, nem um arranhão.
As pessoas vieram nos socorrer, me tiraram do carro, e minha mãe e eu fomos levadas pro hospital.
Uma cirurgia no cérebro ia ser feita na minha mãe e ela pediu pra falar com minha avó. A voz dela tinha ido embora, mas ela pediu um bloco de anotações.
Ela rabiscou a palavra ESCORPIÃO num pedaço de papel e apontou pro braço dela. Foi tudo que ela conseguiu passar e foi levada pro centro cirúrgico.
Ela saiu do centro cirúrgico, mas virou um vegetal. Nunca mais se recuperou. Ela ficou ligada a aparelhos por alguns meses antes de finalmente ir descansar.
Aquele incidente me fez derramar algumas lágrimas várias vezes. Eu queria que minha mãe estivesse viva, que ela tivesse saído forte e continuado viva pra mim.
Eu não parei de chorar por causa disso. Principalmente quando me contaram que o cara foi preso e, da noite pro dia, o caso foi virado de cabeça pra baixo.
Disseram que minha mãe não tava obedecendo as regras de trânsito e o acidente aconteceu. Meu pai pediu as câmeras de segurança e já tinham apagado.
Nada pra justificar minha mãe e ela não tá em condições de se defender ou dizer exatamente o que aconteceu. O caso foi arquivado e o processo encerrado.
Foi assim que tudo foi esquecido. Várias vezes meu pai tentou reabrir o caso, mas tudo foi em vão.
Minha avó me disse que falou pro meu pai esquecer. Eles não iam ganhar, alguém forte tá contra eles nas sombras.
Dessa forma, o cara saiu ileso e minha mãe morreu. Ela deixou esse mundo cruel na hora que não era pra deixar.
Esses pensamentos passaram pela minha cabeça em poucos minutos. Mas dessa vez, sem lágrimas. Se eu estivesse sozinha, ia derramar algumas lágrimas. Eu tava com alguém, então ia fingir ser forte.
De repente, o celular do Jordan começou a tocar. Ele atendeu pelo Bluetooth. Chamou a pessoa de 'amor'.
Eu sabia que ele tava falando com uma mulher. Ele não ia chamar um homem de amor. Ele tava feliz quando tava falando.
Ele sorriu, riu e deu risadinhas. Ele tá apaixonado por aquela mulher, com certeza. Ela provavelmente é a esposa dele, eu acho.
Descobri um pouco de ciúmes crescendo no meu coração. Pelo amor de Deus, por que eu tô com ciúmes?
Ele não é meu namorado, a gente nem é amigo. Me repreendi e comecei a olhar minhas redes sociais no celular.
Quando ouvi ele dizer pra mulher que ia chegar em casa logo, que já ia terminar, senti meu coração quase pular.
Ele tá imaginando a volta pra casa, pra esposa dele. Como eu queria ter alguém que também sonhasse em voltar pra casa pra mim logo.
Mesmo que ele tenha dito que a gente ia almoçar mais cedo, descobri que não tava mais com fome. Não quero comer nada.
Ele terminou as ligações e olhou pra mim. Me senti bem quando ele olhou pra mim, pelo menos ele ainda sabia que eu tava no carro.
Ele me perguntou sobre lugares que eu conhecia na cidade. Essa pergunta me deixou feliz. Ele já tava iniciando uma conversa comigo.
Fiquei feliz e sorri quando disse pra ele que não conhecia nenhum lugar além do caminho da sede da polícia pra minha casa.
Vi ele sorrir. Ele disse que ia me levar pra passear um dia. Fiquei ansiosa por esse dia, quando a gente ia passear junto e ele ia me mostrar os lugares.
Vai parecer um passeio romântico. Me repreendi de novo. O que tem a ver me levar pra passear com romance?
Logo chegamos no restaurante. É um hotel grande e a parte do restaurante também era grande.
O lugar tava bonito. Flores plantadas por todo o lugar, dando um visual bonito.
O garçom abriu a porta pra gente entrar e fez uma leve reverência quando nos viu. Todo mundo que nos visse ia pensar que a gente é namorado.
Pegamos a mesa pra dois num canto estratégico, onde podíamos ver quem entrava e saía.
Meu coração sentiu um turbilhão quando o Jordan fez essa afirmação: