Capítulo 13 O Restaurante
[Visão da Iris]
O Neon's Foods era o restaurante que ele escolheu? Meus olhos escanearam a parte de fora do prédio por uns segundinhos, e então eu olhei pra cima pra reparar no telhado verde. Ainda tava cheio de árvores com flores. Inconscientemente, meus lábios formaram um sorrisinho. O Presidente Gray passou por mim pra entrar e eu desviei a atenção pra ele indo embora. Percebi que o proprietário do restaurante tinha mudado desde a última vez que eu tinha vindo aqui. O cara de meia-idade veio nos receber na porta e fez uma reverência profunda quando entramos.
O restaurante inteiro tava vazio e, enquanto a gente caminhava pra nossa mesa, eu fiquei olhando pra ver se tinha algum outro cliente.
'Ninguém vem aqui?" Eu perguntei com curiosidade de verdade.
'Normalmente, esse lugar lota. Mas, eu reservei o restaurante inteiro pro nosso almoço.'
'Porra! Então é assim que a outra metade vive…' Eu murmurei.
Revirando os olhos, eu afundei na minha cadeira com um baque. O Presidente Gray franziu a testa pro meu comportamento inadequado. Mas, eu tava muito cansada mentalmente pra ligar a mínima. Estar de volta nesse lugar também não tava ajudando a melhorar meu humor.
[Visão do Xavier]
'Essa mulher…' Eu pensei, carrancudo.
Ela era útil e irritante ao mesmo tempo! Eu não conseguia acreditar no comportamento dela! A Srta. Young agia mais como uma criança de nove anos do que como uma mulher adulta. Ela não aprendeu nenhuma etiqueta, por acaso? Eu lancei um olhar frio de aviso pra ela, e o que ela fez? Essa mulherzinha revirou os olhos pra mim como se não estivesse nem aí!
Desviando os olhos dela, eu avistei a anfitriã, que tava sorrindo pra mim. Eu era muito conhecido nesse restaurante. Tendo trinta anos, era bem estabelecido e, de longe, meu lugar favorito pra comer fora. Eu fiz um gesto pra ela vir e ela veio com um cardápio nas mãos. A senhora passou o cardápio pra mim e então deu uma olhada curiosa pra Srta. Young, que tava sentada tranquilamente na minha frente. Ela agia como se eu nem existisse. Eu coloquei o cardápio na frente dela e me encostei na cadeira. No começo ela se assustou e então ela olhou pra mim, questionando. Eu dei um sorriso de canto.
'Você escolhe.'
Ela pareceu perturbada, mas ela estudou lentamente as opções no cardápio.
'Frutos do mar te agrada?'
Eu dei de ombros. Eu realmente não tinha preferência por tipos diferentes de comida. Contanto que tivesse um gosto bom, eu comeria. Ela olhou pra mim por mais alguns segundos só pra ter certeza de que eu não ia mudar de ideia e então fez o nosso pedido pra anfitriã. Eu a trouxe aqui porque ela realmente me impressionou com as habilidades dela hoje. Eu pensei em oferecer algum tipo de elogio pelo bom trabalho dela, mas eu sabia que ela não gostava de mim. Mais importante, por que diabos eu me importava se ela gostava ou não de mim?
'Gostaria de beber alguma coisa, Srta.?' A anfitriã perguntou.
Hesitante, ela olhou pra mim. Acho que ela assumiu que eu ia mandar ela não beber, mas, com a minha contínua falta de resposta, ela olhou de volta pra anfitriã. Seus lábios pintados formaram um sorriso doce que faria qualquer homem engolir seco em desejo.
'Acho que um vinho tinto vai combinar com os frutos do mar. Poderíamos ter um dos seus melhores tintos, por favor?'
Balançando a cabeça enquanto nos oferecia um sorriso, a anfitriã saiu discretamente pra cozinha. A Srta. Young pareceu instantaneamente desconfortável assim que ficamos sozinhos. Eu observei enquanto ela tirava o celular da bolsa e começava a mexer nele. Mesmo que ela parecesse ocupada, eu ainda conseguia perceber que ela tava extremamente nervosa perto de mim. No começo, eu pensei que conseguiria lidar com ela me ignorando, porque pelo menos ia ser possível ter um pouco de paz e sossego. Mas, por alguma razão, o jeito que ela constantemente evitava qualquer interação comigo desde que a gente chegou ali tava começando a me irritar. Eu ajeitei a gravata e tossi seco na tentativa de chamar a atenção dela. Falhou. Ela nem sequer olhou pra mim! Suspirando com raiva, eu deixei meu olhar vagar pela janela e, enquanto eu admirava a bela vista, instantaneamente comecei a me acalmar.
A rua do lado de fora da janela tava enfileirada com árvores de bordo gigantes dos dois lados. As folhas coloridas decoravam o chão e giravam no ar quando eram atingidas por uma brisa suave. Eu acredito sinceramente que essa visão poderia acalmar o coração agitado de qualquer um. De repente, eu ouvi duas vozinhas ecoarem na minha cabeça e meus olhos reviveram uma velha memória querida. A dor no meu coração rapidamente me tirou da minha divagação e eu desviei meus olhos pra mulher pequena na minha frente.
'Srta. Young, olhe pra fora. Você vai perder a oportunidade de observar a bela paisagem, tudo por causa do seu celular estúpido.'
Ela revirou os olhos pra mim e então, preguiçosamente, desviou os olhos pra olhar pra fora da janela. Surpreendentemente, ela manteve um olhar fixo na rua do lado de fora. Enquanto eu examinava cuidadosamente a expressão dela, eu vi os cantos dos olhos dela se encherem de lágrimas. Que porra é essa? Ela ia chorar?
Me sentindo confuso e perturbado, eu perguntei gentilmente, 'Srta. Young? V-você está bem?'
[Visão da Iris]
Eu tava mexendo no meu celular, tentando fazer o tempo passar mais rápido. Era tão desconfortável passar meu almoço com esse homem irracional! Eu tava ansiosa pra relaxar no meu intervalo, mas ele tinha estragado tudo. Basicamente, ele me ordenou a acompanhá-lo aqui e nem sequer se deu ao trabalho de me pedir com jeitinho!
'Babaca… Eu também tinha meus próprios planos, sabe?' Eu pensei.
Decidindo ignorá-lo, eu tentei colocar toda a minha atenção no meu celular. Então, do nada, ele de repente começou a falar comigo e sugeriu que eu admirasse a vista da nossa janela. Suspirando de frustração, eu revirei os olhos e segui a sugestão dele. Mas, com a cena na minha frente, minha atitude indiferente começou a quebrar. Vendo os esquilos brincando sobre as folhas secas, meus olhos começaram a lacrimejar enquanto a memória que eu guardava bem no fundo do meu coração se desenrolava na minha frente.
'Srta. Young? V-você está bem?'
Num instante, eu fui tirada do meu estado de transe assim que ouvi a voz incrivelmente gentil do Presidente. Eu tava a segundos de perder toda a compostura e rapidamente abaixei os olhos pra esconder minhas lágrimas descontroladas. Respirando fundo, eu enfiei tudo; a memória, a dor no coração e a decepção, bem no fundo dos recessos do meu peito e olhei pra cima pra oferecer pra ele um sorriso falso.
'Ah, sim, Sr. Presidente. Essa é uma vista realmente linda da Rua Rainbow.'
As sobrancelhas dele se franziram juntas como se estivesse confuso.
'Mas seus registros mostram que você nunca esteve na Cidade Silverstone.'
Merda! Meu sorriso vacilou, mas só um pouquinho e eu apertei a bainha da minha saia pra firmar meus nervos.
'Não. Eu nunca estive aqui, mas eu fiz uma pequena pesquisa sobre a cidade antes de me mudar pra cá', eu disse o mais calmamente possível.
Torcendo a tampa da garrafa de água dele, ele perguntou, 'Então o que te fez vir pra Cidade Silverstone, Srta. Young? Você poderia ter ido pra qualquer lugar… por que esse lugar?'
Eu lembrei a mim mesma que seria melhor dar a ele respostas diretas. Dessa forma, não ia levantar mais perguntas sobre meu passado e eu não ia ter que me preocupar em manter um monte de histórias fabricadas.
'Sem motivo especial, na verdade. Eu só pensei em experimentar algo novo e o Estado USK parecia uma boa opção. Além disso, minha melhor amiga mora aqui e eu consegui arranjar um bom emprego.'
Eu levantei os olhos pra encontrar os olhos dele cor do oceano. Ele tava me observando. Eu continuava com a sensação irritante de que ele tava desconfiado da minha identidade. Mesmo que estivesse, surtar não ia me ajudar em nada. Eu tava prestes a dizer algo que ia solidificar ainda mais minha história, mas o aroma de comida quente pairou no ar e meu estômago, tendo uma mente própria, resmungou descaradamente. Graças a Deus que não foi alto o suficiente pra ele ouvir, senão eu teria morrido de vergonha. A anfitriã veio em direção à nossa mesa segurando uma paleta gigante de camarões, que eu observei ansiosamente, e, atrás dela, três jovens garçons carregando outros pratos. Vendo minha expressão faminta, a mulher sorriu e colocou os pratos simetricamente na mesa.
'Aqui estão, Senhor e Madame. Todos os pratos foram preparados pelo nosso chefe de cozinha', ela disse, juntando as mãos alegremente.
Eu achei que o tom dela soou um pouco exagerado demais, mas talvez fosse só eu.
Então, olhando pro presidente e pra mim, ela disse: 'Vocês dois vão adorar!'
Não, não era só eu… Eu fiquei surpresa ao ver que o presidente não se importou com as palavras dela. Talvez essa mulher fosse bem próxima do Presidente Gray? Caso contrário, ele simplesmente teria chamado seus guarda-costas pra escoltá-la pra fora da proximidade pelo que ela tinha insinuado. Espera um segundo… ela acabou de me chamar de Madame!? Não é assim que você se dirige à esposa do Presidente?
'Por favor, não me entenda mal. Eu sou apenas a nova secretária, Iris Young', eu declarei, corrigindo-a rapidamente.
Mudando minha atenção para os camarões suculentos que foram colocados na nossa frente, eu estiquei a mão pra pegar um. Mas, bem quando eu tava colocando um camarão no meu prato, ela disse: 'Ah, não se preocupe, querida! Eu consigo ver as faíscas entre vocês dois. Nossa nação definitivamente terá uma Primeira Dama em breve.'
Na declaração dela, eu engasguei com a minha própria saliva. Depois de tomar um gole de água, eu olhei pra cima pra ela em choque.
'Porcaria, mulher! Você quer que nós dois fiquemos sem emprego?' Eu pensei.
Arriscando um olhar pro meu chefe, eu notei a expressão de choque no rosto dele também. Ele se recuperou muito mais rápido do que eu e reaplicou seu olhar frio.
'Tia Madonna, podemos almoçar agora?'
Sorriso e com o tom dela escorrendo sarcasmo, ela disse: 'Ah, Xavier… uh… eu quero dizer', – ela mordeu a língua – 'S-Sr. Presidente, eu estava apenas antecipando o futuro. Não se esqueça de que essa mulher é bem experiente no departamento do amor! Se você precisar de ajuda, pode vir até mim! Afinal, eu já namorei mais de cinquenta homens!'
Confiança irradiava do rosto dela quando ela recebeu um olhar frio do Presidente Gray. Eu, por outro lado, fiquei boquiaberta pra ela. Cinquenta homens?! Quem diabos ainda teve tempo de sair em tantas encontros? Balançando a cabeça pra nós, ela suspirou.
'Pode ir comer sua comida agora. Eu tenho outras coisas pra cuidar. Aproveitem a refeição.'
Eu observei quando ela saiu com os garçons e respirei aliviada. Quando eu vi o Presidente Gray colocar um pedaço de salmão no prato dele, eu notei que ele parecia completamente imperturbável pelo comportamento da mulher.
'Não se importe com ela. Ela gosta muito de brincar.'
Balançando a cabeça, eu estiquei a mão pra pegar um camarão suculento. Eu tirei a casca e mergulhei no ketchup. Naquele momento, eu tive uma ideia ousada. Eu podia simplesmente comer com as mãos! Normalmente, eu usaria minhas mãos de qualquer maneira. É muito mais satisfatório do que usar utensílios. Olhando ao redor pra ter certeza de que não tinha mais ninguém à vista; eu levantei o camarão vermelho e enfiei na minha boca. Eu soltei um gemido não solicitado quando o sabor divino fez minhas papilas gustativas formigarem. Ignorando os sucos e o ketchup que estavam escorrendo do canto da minha boca, eu continuei a comer feliz. Depois de terminar meu camarão, eu abri meus olhos e instantaneamente congelei.
O Sr. Presidente tava me observando com uma expressão interessante que demonstrava raiva e curiosidade.
Colocando sua faca, ele perguntou, 'Srta. Young, o que exatamente você está fazendo?'
Eu engoli o último pedaço de camarão e sorri como a criancinha que foi pega com a mão no pote de biscoitos.
'Por favor, não me ache grosseira, Sr. Presidente.' Eu olhei em volta do restaurante mais uma vez. 'Na verdade, eu prefiro comer camarão com as mãos. Pra mim, tem um gosto melhor. Como você reservou o restaurante inteiro, eu pensei que seria ok comê-los da maneira que eu estou acostumada, já que não tem mais ninguém aqui.'
'Realmente faz ter um gosto melhor?' ele perguntou com interesse genuíno.
'B-bem, pelo menos pra mim, sim.'
Ele abaixou os olhos pros meus amados camarões.
'Eu também posso tentar?'
Atordoada por um momento, eu respondi: 'Claro. Deixe-me ajudar você a descascar um.'
Pegando outro camarão suculento, eu descasquei e então coloquei no prato dele. Observando com grande interesse, o presidente olhou pra baixo pro camarão descascado e ficou contemplando algo por um momento. Finalmente, ele puxou a manga e pegou o camarão com os dedos. Como em câmera lenta, eu vi o camarão perto dos lábios dele. No momento em que ele deu uma mordida, eu comecei a ficar tensa. E se ele odiasse? Mas, ele sorriu pra mim.
'É mais saboroso usando as mãos.'
Então eu o vi lamber generosamente o suco do canto da boca.
'Ah… foda-se', eu murmurei."