Capítulo 23
Ike subiu correndo as escadas do hospital, toda animada. Provavelmente foi a primeira vez que ela subiu aquelas escadas com felicidade estampada. Empurrando a porta sem bater, ela entrou no escritório do Doutor John e jogou a bolsa no sofá.
"Oeeeee, tá rolando o quê? Esse sorriso tá gigante demais!" John falou, e a Ike congelou.
"Eu tô sorrindo?" Ike perguntou, com uma carinha de inocente, enquanto o Doutor John ria e concordava com a cabeça.
"Tava sorrindo e agora não tá mais. Qual é a boa? Como você tá?" John perguntou, e a Ike deu de ombros.
"Tô bem. Os dias tão indo" Ike respondeu, se jogando no sofá.
"Alguma coisa na sua lista de coisas pra fazer, foi concluída?" John perguntou.
"Não..." Ike respondeu, de repente, a voz sumindo. Ela não tinha feito nada na lista e, de repente, lembrou do último item.
John sorriu, cruzando os braços. "Então, você já fez o número cinco, não é?" John perguntou, e a Ike engoliu a seco e fez bico.
"Você parece tão certo" Ike murmurou, e John riu de novo.
"É o Juola, né?" John perguntou de novo, e a Ike tossiu sem jeito, e John caiu na risada.
A Ike tossiu de novo, brincando com os dedos antes de se virar para o John.
"Eu gosto dele. Demais" Ike disse, e John concordou com a cabeça.
"Eu sei que gosta" John respondeu, e a Ike ficou olhando para o tênis de novo.
"Depois desta semana, tenho mais duas semanas" Ike disse, e John fez um som com a garganta.
"E daí?" John perguntou, e a Ike suspirou.
"Não vou dizer pra ele que gosto dele. Só quero passar os dias que me restam perto dele. Quero pelo menos ser feliz de verdade nos meus últimos dias" Ike respondeu, e John concordou com a cabeça.
"Bom plano, Ikeoluwa. Mas você já pensou em como ele vai se sentir quando você morrer?" John perguntou, e a Ike congelou. A pergunta a atormentava há muito tempo, mas ela se recusava a reconhecer isso. Ike engoliu a seco e se virou para o John.
"Eu sou a única que gosta dele. Ele nem vai se importar quando eu for" Ike respondeu, e John deu uma risadinha.
"Primeiro, você parece insegura com a sua resposta. Segundo, como você sabe que ele não gosta de você? Terceiro, não se importar? Digamos que você é só uma amiga pra ele. Se ele perder uma amiga, o que você acha que ele vai fazer?" John perguntou, e a Ike tentou segurar as lágrimas que estavam enchendo os olhos, se virando para o John novamente.
"O que você quer que eu faça? Eu não posso dizer pra ele que eu tenho leucemia e que eu tenho só um pouco mais de duas semanas de vida, posso?" Ike perguntou, enxugando rapidamente a única lágrima que escorreu pela bochecha.
"Eu só quero passar tempo com ele. Eu também não posso ter isso?" Ike perguntou, e John olhou pra ela sem dizer uma palavra.
"Eu preciso mesmo contar a verdade pra ele?" Ike perguntou, e John suspirou.
"Você só precisa contar pra ele se você acha que ele merece saber" John respondeu, e a Ike mordeu o lábio inferior. Ela deitou no sofá e virou as costas para o John, que suspirou.
A Mãe sentou no consultório do médico esperando os resultados dos exames. Sua gripe e malária pareciam ter piorado, e os remédios não pareciam estar funcionando.
Enquanto o Pai e a filha queriam que ela fosse para o hospital, ela preferia ir à farmácia e pegar remédios mais eficazes. Mas, lembrando das palavras da filha naquela manhã, quando ela a deixou na escola, ela decidiu fazer alguns exames.
Enquanto o médico trabalhava no computador, a Mãe pegou o celular e desbloqueou. Sua mão pressionou um aplicativo, e lágrimas subiram aos olhos. A filha dela tinha menos de três semanas de vida. A sensação de que, muito em breve, ela não veria mais a filha se espalhou rapidamente por todo o corpo.
Cerca de quinze anos atrás, ela e o Pai sabiam que provavelmente não veriam a filha se formar no ensino médio, muito menos entrar na universidade ou mesmo na formatura, e até mesmo se casar. Nada disso ia acontecer, porque ela ia morrer antes que tudo isso pudesse acontecer. Nenhum pai no mundo, nenhuma mãe no mundo poderia permanecer sã depois de ouvir uma coisa dessas.
Eles usaram todos os seus recursos para encontrar uma cura ou uma maneira de fazê-la viver mais tempo, mas depois de um tempo, perceberam que só podiam passar mais tempo com a filha e criar mais memórias. Isso a magoava ainda mais, pois a filha vivia sem expectativas. A vida não tinha quase nenhum significado para ela. Ela parou de rezar, parou de acreditar em Deus.
Se ela queria alguma coisa, era que a Ikeoluwa voltasse a acreditar e confiar em Deus. Mesmo que fosse antes que ela morresse. Mesmo como mãe, ela tinha muitas perguntas para Deus. Por quê? Só por quê? Mas, depois de passar muitos anos e tempo com Deus, ela percebeu que havia muitos 'porquês' neste mundo que não tinham resposta.
A Ikeoluwa precisava de graça para ver que havia uma razão para tudo. Mas como ela explicaria a uma garota de dezessete anos que havia uma razão para ela morrer?
A Mãe abaixou a cabeça e murmurou orações silenciosas a Deus. Ela orou pela graça para a filha. Só graça, era tudo que ela precisava.
A porta do consultório do médico abriu, interrompendo a oração da Mãe, e a enfermeira mostrou um sorriso para ela, enquanto a Mãe ficou olhando pra ela, se perguntando onde a tinha visto antes. Ela deixou a pasta na frente do médico e saiu do escritório. O médico rapidamente pegou a pasta e, enquanto olhava, sorriu e se virou para a Mãe.
"Mãe, como você pode confundir estar grávida com gripe e malária?" O médico perguntou, e a Mãe congelou.
"Como?" A Mãe perguntou, e o médico sorriu.
"Parabéns, Mãe. Você está grávida de seis semanas"