Capítulo 4
Ike abotoou a camisa branca até o pescoço e fez o nó da gravata rapidinho, antes de dobrar a gola. Se olhou no espelho antes de ir pra mesa, jogar a mochila nas costas e pegar o casaco no cabide.
A sessão nova começou hoje e, diferente dos outros alunos, a Ike era a menos animada. Saiu do quarto, enfiou o celular na mochila e desceu a escada. Mandou ver no copo de chá na mesa de jantar e pegou umas fatias de pão, saindo de casa. O motorista já tava esperando e a Ike entrou no carro na hora.
Encostou as costas no banco, enquanto o motorista dirigia pelas ruas de Lagos. Como era o dia da volta às aulas, as ruas estavam mega congestionadas. Até nos dias em que os estudantes estavam de férias, as ruas ficavam congestionadas, imagina quando as escolas tavam voltando.
A Ike levantou a sobrancelha na hora que percebeu que a escola tinha mudado o jeito de escrever o nome. Os ônibus da escola entravam e saíam e a Ike desceu do carro, ajeitando a mochila nas costas. Deu pra ver e ler a animação dos alunos entrando na escola. Os casacos e saias roxas pareciam brilhar mais de manhã.
De Royals College era uma das melhores escolas de Lagos. Claro que alguém da família real era dono da escola, por isso o nome e o uniforme. A escola era construída como um palácio, com cada prédio sendo um prédio de andares. As regras e regulamentos da escola eram rigorosos, mas os alunos sempre davam um jeito de quebrar.
A Ike foi andando pro bloco novo dela com passos firmes. Deu uns sorrisinhos pros colegas que encontrou no caminho. O Bloco Sênior era separado do Bloco Júnior por uma cerca e um portão. A Ike revirou os olhos quando viu o SENIOR BLOCK gravado na parede. Chegou nos portões e já viu os novos prefeitos fazendo seus trabalhos na entrada.
"Coloca o casaco", um deles falou pra ela e a Ike percebeu que ainda não tinha colocado o casaco.
Ela tirou a mochila rapidinho, colocando o casaco. A Ike subiu as escadas até chegar na sala nova dela. Alguém pulou nela assim que ela entrou na sala e a Ike começou a rir na hora que sentiu o cheiro do perfume da pessoa.
"Chidima, você vai me estrangular com esse perfume", a Ike falou, enquanto a outra a soltava, revelando uma menina de pele clara e olhos grandes. O uniforme dela servia perfeitamente, abraçando o corpo todo. O casaco roxo tava desabotoado, mostrando a camisa branca imaculada por baixo.
"Senti sua falta", a Chidima murmurou, enquanto a Ike ria e concordava.
"Eu sei", a Ike respondeu, olhando pra sala barulhenta.
"Onde a gente vai sentar?", a Ike perguntou, e a Chidima apontou pra três cadeiras perto da janela.
"A sua é a última perto da parede, porque você pega frio fácil", respondeu a Chidima, cruzando os braços.
"Você precisa me pagar por essa cadeira. Quase briguei com a Mola por causa do seu lugar", a Chidima falou, e a Ike riu, indo pra sua cadeira nova e limpando.
"O que você quer?", a Ike perguntou, sentando e colocando a mochila atrás.
"Comecei a ver Soul Land. Tem mais de 130 episódios, quero que você me ajude a baixar 20", respondeu a Chidima, e a Ike riu de novo.
"Tá no meu laptop, então traz seu pendrive e pega tudo", a Ike disse, e a Chidima a abraçou de novo.
"Te amo", a Chidima falou, e a Ike deu uma risadinha.
"Onde está a Glória?", a Ike perguntou, enquanto a Chidima sentava.
"Esqueceu que ela é a Presidente da Turma nessa sessão. Tá tentando pegar o cronograma e os nossos professores desse semestre", respondeu a Chidima, e a Ike concordou.
"Esqueci", a Ike falou.
"E as férias? Espero que você tenha se divertido", perguntou a Chidima, e a Ike concordou.
"Sim. E você? Como foi a viagem pra Miami?", a Ike perguntou.
"Ai meu Deus! Foi muito interessante", começou a Chidima, enquanto a Ike cruzava os braços e encostava na parede pra ouvir.
Chidima Okoye, a primeira amiga da Ike na De Royals College. Depois que as duas se perderam nos primeiros dias procurando as salas de aula, elas se conectaram fácil como amigas e a amizade continuou por anos. A Chidima era um amor e uma pessoa muito legal. Apesar de ter nascido com uma colher de prata, nunca usou pra intimidar os outros, fora que pra ir pra DRC, você precisava ter nascido com uma colher de prata.
Por mais amigável e legal que a Chidima fosse, ela tinha uma falha. Falar. A Chidima conseguia falar de agora até a segunda vinda de Jesus sem parar um segundo. Era mais como um talento. Pra manter a Chidima ocupada, a Ike deixava ela falar o tempo que quisesse, porque quando ela não tava falando dela, ela queria saber sobre as outras pessoas. E como a Glória não estava por perto, a Chidima ia querer saber como foram as férias dela e a Ike não tava a fim de explicar nada.
"Você devia visitar Miami alguma hora. Tem as melhores vistas e tudo. Um monte de gente bonita mora lá também. Fui na escola do meu primo um dia e você tinha que ver como todo mundo tava me olhando. Como se eu fosse uma alienígena", a Chidima falou, enquanto ria.
"Fiz uns amigos e tirei umas fotos também", a Chidima acrescentou, pegando o celular dela e a Ike não precisou que ninguém dissesse que era o último iPhone.
"Ganhei isso em Miami", a Chidima falou, mostrando o celular pra Ike, que concordou.
"É um celular legal", a Ike respondeu, bocejando e olhando ao redor, enquanto rezava pra Glória voltar pra sala rápido. A Glória era o antídoto pra fazer a Chidima parar de falar.