Capítulo 24
Ike entrou na escola sem o sorriso de sempre na cara. Vários pensamentos passavam pela cabeça dela enquanto ela lembrava da conversa com o Doutor John no dia anterior. Ela não sabia se deveria contar pro Juola ou não. Lá no fundo, Ike sabia que ele merecia saber, mas ela nem conseguia se forçar a contar.
O que ela ia dizer? "E aí, Juola, eu tenho leucemia e vou morrer em duas semanas." Ele não ia rir da piada dela?
Ike balançou a cabeça enquanto entrava na sala de aula e imediatamente botou um sorriso no rosto.
"E aí, galera", Ike cumprimentou, enquanto Glória e Chidima acenavam pra ela.
"Vocês viram o Juola?" Ike perguntou, já em pé, enquanto os olhos da Glória arregalavam.
"Ike, hoje é dia 16 de outubro", disse a Glória, e Ike deu de ombros.
"E daí? O que isso tem a ver com o Juola?" Ike perguntou, e a Glória soltou um chiado.
"Você não sabe que hoje é o aniversário da mãe do Juola? Ele nunca vem pra escola", respondeu a Glória, e Ike congelou.
Ela engoliu a saliva enquanto saía da sala, xingando mentalmente por ter esquecido. Pegou o celular e discou o número do Dare.
A escola dele também permitia celulares, então Ike só podia rezar pra que as aulas ainda não tivessem começado. Deus pareceu ter respondido à oração não rezada dela, pois o Dare atendeu bem na hora que a ligação ia cair.
"Dare, bom dia", Ike cumprimentou.
"E aí, Ike? Tudo bem com você?" Dare perguntou.
"Tudo. Preciso te perguntar uma coisa, Dare", disse Ike, descendo as escadas.
"Você parece séria. O que foi?" Dare perguntou.
"Onde a mãe do Juola foi enterrada?" Ike perguntou, ouvindo silêncio do outro lado e parando de andar.
"Dare, por favor. Preciso ir até ele, tá?" Ike pediu de novo, com a voz suplicante.
"Vou te mandar o endereço", disse Dare depois de outro silêncio, e desligou a ligação.
Ike mordeu o lábio inferior e começou a ir pra porta da escola quando o celular vibrou no bolso, e ela pegou pra ver uma mensagem do Dare. Ela mostrou o cartão na catraca pro porteiro enquanto saía da escola. Ainda com o uniforme, ela chamou um motoqueiro e mostrou o endereço no celular.
"Você conhece esse lugar?" Ela perguntou pra ele, e o homem, um pouco mais velho, olhou pra ela estranho antes de concordar com a cabeça.
Ike não pensou duas vezes antes de subir na moto. Ela não ficou surpresa que o motoqueiro olhou pra ela estranho. Afinal, ela estava indo pra um cemitério.
Ike andou rápido pelo cemitério particular, olhando em volta procurando pelo Juola. Suspirou porque não conseguia ver, e quando ia ligar pra ele, o viu longe, sentado em frente a uma lápide.
Juola encarava a lápide na frente dele, a desolação nos olhos, e suspirou antes de apoiar o queixo na palma da mão.
"Tudo tem ido bem, Mãe. Eu encontrei alguém que consegue me fazer sorrir sem tentar. Mas eu tô com medo; que ela possa desaparecer bem na minha frente", disse Juola lentamente, fechando os lábios.
"Do jeito que você fez", acrescentou Juola, tirando o braço do peso do queixo e se movendo pra deitar no chão, mas sua cabeça foi parar no colo de alguém. Chocado e surpreso, ele se virou pra ver os olhos pretos de carvão, sempre familiares, encarando ele de volta. Ele olhou pra ela, incapaz de formar palavras.
"O que você tá fazendo aqui?" Ele finalmente perguntou, e ela deu de ombros.
"Fazendo companhia?" Ela perguntou, fechando os lábios e afagando a cabeça dele.
"Vai ficar tudo bem", Ike murmurou, enquanto Juola ajeitava a cabeça no colo dela, e uma lágrima escorreu pela bochecha dele. Outra lágrima escorreu do outro olho, e as lágrimas começaram a jorrar. Nenhum som escapou dos lábios do Juola, mas a Ike sabia que ele estava chorando.
Cinco anos atrás, ele perdeu a mãe. Embora o pai fosse um bilionário de respeito, a mãe também era uma advogada brilhante e uma escritora brilhante. Nenhum dos casos dela ficava sem vitória ou solução. Juola gostava de ver a mãe no tribunal e, durante os casos, ele gostava de estar lá, assistindo ela. Ele fazia questão de ler todos os artigos e blogs dela.
Foi quando Juola foi aceito no ensino médio que ele chegou em casa um dia e encontrou a mãe em casa. Surpreso, ele perguntou pra mãe por que ela estava em casa em um horário tão estranho do dia, e a resposta dela foi que ela tinha parado tudo o que estava fazendo e agora ia cuidar dele.
Juola ficou muito feliz, pois os dois pais eram pessoas influentes e ocupadas, raramente estavam em casa. Então o fato de que, se ele saísse de casa de manhã, veria a mãe, e se voltasse à noite, ainda a veria, deixou o jovem Juola feliz. E por sete meses ele foi feliz. Muito feliz, ele saiu de férias com ela, foi a parques, visitou muitos lugares e Juola? Ele sentia que tinha a melhor mãe do mundo e queria que durasse para sempre.
Mas para sempre não existia.
Um dia na escola, um dos motoristas de repente foi buscá-lo e o levou ao hospital. Juola ainda estava se perguntando por que ele estava lá até ser levado a um quarto e ver a mãe com tubos conectados ao corpo dela.
Abalado com a reviravolta dos acontecimentos, a verdade finalmente foi dita a ele. Depois de ser diagnosticada com câncer, a mãe queria passar os meses restantes com o filho de 12 anos. Isso explicava o entusiasmo repentino, os grandes sorrisos, o cuidado, a atenção. Juola não conseguiu aceitar e correu pra igreja mais próxima. A mãe tinha dito que Deus respondia às orações, especialmente às orações das crianças pequenas.
Ele orou o dia todo e correu de volta pro hospital acreditando que Deus tinha respondido às suas orações, mas quando voltou, havia apenas um corpo imóvel na cama com um pano branco cobrindo-o.