Matilda
¡Clara! ¡Clara!" A voz do Kyle grita de longe, ouço ele correndo freneticamente lá fora do meu quarto, tentando achar algo pra arrombar a porta.
"Clara, você consegue abrir a porta?!" A Emma grita, com a preocupação clara na voz dela, mas eu não conseguia ajudá-los a abrir a porta, eu não conseguia me mexer.
No que parece uma eternidade, a porta é chutada pelo Kyle, imediatamente ele está perto do meu corpo frágil e machucado, jogado no chão. Eu tinha acabado de voltar de uma reunião com o Alfa, de acordo com alguns membros da alcateia eu fui desrespeitosa com eles. O Alfa tentou me dar uma lição, eu só fiquei lá, olhando para o rosto preocupado do Kyle sobre mim.
"Vai ficar tudo bem", ele me diz, mas a voz dele logo começa a sumir, eu comecei a ouvir uma voz mais dominante.
"Meu amor, Clara, Clara", a voz falou imediatamente, me tirando da minha memória horrível.
Eu abro meus olhos para ver o Gray sentado perto de mim na cama, ele tinha uma expressão preocupada no rosto, só me olhando. Eu sinto suor descendo pelo meu rosto, uau, aquele sonho foi intenso.
"Flashback, estou bem", eu digo, sentindo meu coração ainda batendo a mil por hora, o Gray não perde tempo me abraçando, me segurando forte.
"Aqueles indivíduos horríveis nunca mais vão te pegar, eles vão ter que passar por mim e essa é uma batalha que eles não vão vencer", ele me tranquiliza, me puxando para mais perto dele, mas então eu me lembro do que preciso falar com ele.
"Gray, preciso te contar uma coisa", eu começo a dizer, olhando para o rosto dele, ele se afasta um pouco, mas ainda está com os braços em volta de mim.
"Não pode esperar, meu amor, está ficando bem tarde e, como você disse, você está cansada?" Ele pergunta, mas eu balanço a cabeça, olhando para baixo.
"Agora que você está aqui, se eu não te contar, não vou conseguir dormir", eu confesso, me afastando dele, ainda olhando para baixo, ele puxa meu rosto para me olhar, onde ele parecia bem confuso.
"Você está começando a me preocupar, meu amor", ele diz, olhando para mim com a mesma expressão, eu balanço a cabeça, só querendo dizer o que eu preciso, mas sem encontrar as palavras para dizer.
"Não, só ouve, ok? Bem, você sabe que eu tenho tido alguns flashbacks de quando eu era pequena, de memórias que eu bloqueei, bem, nas viagens de carro para e de volta da casa do Josh eu tive alguns, meu pai e o Cyrus foram os homens que ajudaram seu pai a queimar a casa do Rupert, matando a parceira dele", eu digo, olhando para ele pela primeira vez desde que comecei a explicar, os olhos dele ficam arregalados quando ele me olha "mas não é só isso, eu estava lá e conheci seu pai! Ele era assustador e pediu para me ver, onde o Cyrus me entregou para ele e ele me forçou a olhar nos olhos dele..." Eu falo sem parar, só querendo botar tudo para fora.
"Meu amor, mais devagar", o Gray tenta me interromper, mas eu balanço a cabeça, eu sinto que vou explodir se não tirar tudo isso do meu peito.
"Ele ficava falando sobre regras e respeito e sabia que seríamos parceiros, ele me disse que eu tinha esse brilho no olhar e como eu preciso fazer você se tornar um bom rei e como eu serei uma rainha durona, então ele fala em ter uma filha, mas por ela ser a mais velha, seria a próxima na fila para o trono, então ele a matou", eu digo, finalmente botando tudo para fora, onde eu, literalmente, caio nos braços do Gray, precisando de um descanso de toda essa conversa.
O Gray não fala, nem se mexe, seus braços permaneceram onde estavam, como se ele estivesse em algum tipo de estado de choque. Eu olho para ele, onde descubro que seus olhos estão um tom mais escuro, eu me sento, olhando para ele.
"Como ousa esse homem tocar na minha parceira, como ousa esse homem falar com a minha parceira, como ousa ele sequer olhar nos olhos dela", ele rosna, levantando-se e começando a andar pelo quarto, ele vai pegar um vaso que estava em cima da cômoda.
Eu imediatamente saio da cama, tirando o vaso dele e colocando-o de volta na cômoda com segurança, ele vai se mover, provavelmente para pegar outra coisa, mas eu o impeço. Eu o puxo para perto de mim, colocando as duas mãos nas laterais do rosto dele, olhando em seus olhos agora assustadores.
"Não vamos repetir o que aconteceu com o Josh e a Daisy, você precisa se acalmar", eu digo, esfregando a bochecha dele com o meu polegar, coloco minha testa na dele, continuando a dizer coisas para acalmá-lo.
Alguns minutos se passam até que seus lindos olhos bondosos voltem a me olhar, eu sorrio, dando um beijo suave no nariz dele com um sorriso.
"Eu consigo ver que você teve uma infância difícil que você nunca conseguiu superar, você evitou qualquer conversa que envolvesse isso, mas agora acho que é hora de você falar sobre isso", eu digo a ele, onde, pela primeira vez, eu vi uma emoção diferente no rosto dele, ele balança a cabeça lentamente, me levando a sentar na cama ao lado dele.
Nós ficamos em silêncio por alguns minutos, eu podia ver que ele estava tentando encontrar as palavras certas para explicar o que aconteceu. Ele pigarreia antes de começar a falar.
"Meu pai matou minha irmã mais velha, Matilda, quando ela tinha apenas cinco anos, quando minha mãe ficou grávida pela primeira vez da minha irmã, meu pai ficou tão feliz, mas essa felicidade parou quando eles descobriram que era uma menina", ele começa a explicar, olhando para as mãos dele "meu pai queria que seu primeiro filho fosse um menino, ele não queria que a próxima na fila para o trono fosse uma mulher, então ele imediatamente forçou minha mãe a ter outro bebê, apenas onze meses depois eu cheguei, meu pai ficou extasiado quando eu nasci, finalmente, ele teve um filho, mas ele ainda tinha um problema, eu era o segundo nascido, o que significava que eu estava atrás da Matilda", ele suspira, tendo que fazer uma pausa na história, eu imediatamente estico a mão, pegando a mão dele na minha com um sorriso.
"Por anos, ele tentou mudar as leis, mas ninguém as aprovava, isso irritou meu pai ao ponto de não ter volta, uma manhã, quando Matilda tinha cinco anos e eu tinha quatro, meu pai entrou pelas portas alegando que ia levar a Matilda para um dia de diversão pai e filha, minha mãe tentou fazê-lo ficar, mas ele pegou minha irmã e foi embora", ele explica, balançando a cabeça "talvez a uma milha do castelo haja um lago, nossa mãe nos levava lá com frequência para almoçar, mas meu pai tinha um plano diferente... o que aconteceu no lago, talvez nunca saberemos, mas no final do dia, meu pai voltou para casa sem a Matilda, como se ele nunca tivesse ido com ela", ele balança a cabeça, sua raiva começando a ferver enquanto ele fala.
"Minha mãe chamou muitas equipes de busca e, depois de uma semana, eles descobriram o corpo dela flutuando no lago", ele murmura, uma única lágrima deixando seus olhos enquanto ele falava, eu envolvo meu braço em volta do pescoço dele, puxando-o para perto de mim, onde ele apoia a cabeça no meu peito.
"Sinto muito que você tenha que passar por isso, Gray, seu pai era um homem horrível, eu sei que isso não vai trazê-la de volta, mas a Matilda está em um lugar melhor agora", eu digo, sem realmente saber o que dizer para confortá-lo.
"A morte dela também foi o que levou à morte da minha mãe dez anos depois", ele disse, ainda apoiando a cabeça no meu peito "ela nunca mais foi a mesma com ele depois da morte da Matilda, todo mundo sabia que ele a matou, mas, como rei, ele não podia ser responsabilizado, no décimo aniversário de sua morte, minha mãe desapareceu", ele explica, fungando enquanto ia, eu o abraço mais forte, sabendo que ele fica muito chateado quando sua mãe é mencionada.
"Meu pai enviou muitas equipes de busca em busca dela, não por ele se importar, mas ele sabia que minha mãe tinha informações sobre ele que o arruinariam, eventualmente, ela foi encontrada em uma casa abandonada a poucos quilômetros do castelo", ele diz, quando sinto algo molhado cair na minha mão, eu dou uma olhada para baixo para ver lágrimas correndo pelo seu rosto, eu pego minha mão, enxugando algumas lágrimas.
"Eu acompanhei meu pai para recuperá-la, quando ele parou do lado de fora da casa, minha mãe já estava esperando do lado de fora, ela imediatamente vai até ele, gritando com meu pai sobre a Matilda e que homem mau ele era e que ela não estava voltando para casa, meu pai a força para dentro da casa e fica do lado de fora da porta e diz para ela pegar suas coisas, ela entra, fechando a porta atrás dela, aquela seria a última vez que eu a veria", ele diz, tentando manter sua voz de choro sob controle, mas eu pude ver através dela.
"Os momentos seguintes pareceram que o tempo acelerou, em um momento estava tudo calmo, mas em uma fração de segundo, uma explosão engolfa a casa, jogando meu pai para trás, eu fui protegido na segurança do carro, minha mãe... pereceu na casa que pegou fogo", ele chora, segurando-me com força enquanto ele chora.
Eu imediatamente me sento, segurando-o com mais força, sussurrando que ele ia ficar bem e como ele é uma pessoa tão forte por me contar.
Depois de uma hora, ele parou de chorar, nós dois estávamos deitados na cama, com a cabeça dele ainda apoiada no meu peito. Nós dois ficamos em silêncio, absorvendo os eventos que acabaram de ocorrer, eu tinha tantas perguntas que eu não sabia se deveria fazer. Seu pai ficou ferido? Ele pagou pelo que aconteceu com algum dos dois? Seu pai ainda está vivo?
"Meu pai ficou gravemente ferido na explosão, essa é a razão pela qual eu assumi o trono tão cedo, aos 14 anos de idade, mesmo que o público nunca tenha descoberto que eu era rei até eu prender meu pai seis meses depois, até hoje ele não pagou pela dor que causou e pelas vidas que tirou, mas quando eu tiver tempo, continuarei com meu caso contra ele e ele está morto, mas não morto", ele me diz, respondendo minhas perguntas, como ele pode estar morto e não estar morto?
"Para o público, ele está morto, mas para mim e para um grupo seleto de pessoas, ele está trancado nas masmorras do castelo enquanto construímos um caso contra ele", ele explica, espere, aquele monstro esteve aqui o tempo todo?
Não é à toa que as pessoas sempre falam dele como se ele estivesse morto, enquanto o Gray nunca fala, eu me pergunto o que as pessoas acham que aconteceu.
Eu ia perguntar ao Gray, mas quando olho para baixo, vejo ele dormindo, deitado no meu peito, acho que essa é uma pergunta para outro dia. Eu me deito confortavelmente e adormeço também, sem saber do dia importante que viria, tudo sobre seu pai.