Não É Sua Culpa
🚨 ATENÇÃO - Este capítulo envolve suicídio. Se isso te causar gatilho, por favor, pule este capítulo.
Eu fico sozinha no depósito escuro por uns minutinhos. Tava puxando as cordas apertadas que prendiam minhas mãos, mas não adiantava. Também fiquei tentando mandar um mind-link pro Gray, mas nunca ia, seja lá qual química o Rupert jogou na minha cara fez alguma coisa pro meu lobo. Tava tudo estranhamente quieto, o que me dava um nó no estômago. Eu não sabia pra onde ele levou a Lizzy nem o que ele tava fazendo com ela.
Mais uns minutos silenciosos se passam até a porta abrir de novo. O Rupert entra sozinho, o que de novo me dá um enjoo. Cadê a Lizzy?
"Agora, isso tá resolvido", ele sorri, se ajoelhando na minha frente. Eu não sabia o que tava passando na cabeça dele, mas não tava gostando. "Eu e você vamos dar uma volta", ele sorri, tirando a faca do bolso, me libertando da cadeira.
Ele pega meu braço, me puxando pra fora do depósito. Eu sabia que só tinha que concordar com o que ele tava planejando, mas eu ainda tava boiando! Assim que a porta do depósito abre, eu vejo um carro estacionado lá fora. Começo a olhar pros lados na esperança de dar uma olhada na Lizzy ou ter alguma indicação do que aconteceu com ela, mas não vi nada. Sou levada pro carro, onde ele abre a porta do passageiro. Ele manda eu entrar, e eu entro, sem querer brigar nem um pouco. Começo a olhar pra trás do carro, na esperança de ver a Lizzy, mas de novo, nada. Por favor, não me diga que ele machucou ela feio.
Ele entra rápido do lado dele do carro, com um sorriso no rosto. Eu mando um sorrisinho de volta pra ele, que não era nada real, mas ele tinha minha vida nas mãos. Ele liga o carro e começa a nos levar pra longe do depósito, pra sei lá onde. Ele ficava me olhando, sorrindo, e depois voltava a olhar pra estrada.
"Pra onde você tá me levando?", pergunto, querendo saber a resposta, mas também não querendo. Tava com medo dele me levar pra algum lugar pra me machucar.
"Pra onde tudo começou", ele murmura, fazendo uma curva fechada. A cara dele mudou um pouco quando respondeu essa pergunta, como se não tivesse expressão nenhuma.
Dirigimos em silêncio por uns minutos. Eu tava aterrorizada e não sabia como juntar as frases. Não faço ideia do que tava passando na cabeça do Rupert. Isso não fazia parte do plano dele, eu acho, então ele provavelmente tá pensando no que tem que fazer. Começamos a passar por um monte de árvores e realmente saímos da estrada principal. Não viramos em outra rua, mas estávamos dirigindo por algo que parecia uma florestinha. O carro tava quicando pra todo lado, teve vezes que eu pensei que o carro ia atolar.
"Você me lembra tanto ela", ele diz aleatoriamente depois de ficar quieto. Eu olho pra ele, sem entender direito o que ele quis dizer. "Você é tão gentil, como ela era. Você é tão corajosa, como ela era. Você até tem o mesmo sorriso", ele suspira, olhando pra mim por um segundo. Continuamos quicando pra cima e pra baixo, enquanto a floresta ia ficando cada vez mais fechada.
"Quem?", pergunto, olhando pra ele, quando algo brilhando na distância chama minha atenção. Pelo menos sei que provavelmente estamos indo pra algum lugar!
Já tava começando o crepúsculo, o que deixou a experiência ainda mais arrepiante.
"Ellie", é tudo que ele diz, enquanto o carro começa a fazer uns barulhos estranhos. Depois de mais uns segundos, paramos.
O Rupert xinga, batendo no volante repetidamente, com raiva. Depois de todo o ataque de fúria, ele coloca a cabeça no volante, com os olhos fechados por um segundo. Fico ali, olhando pros lados, pra área em volta, mas não conseguia ver nada que me desse uma pista de onde estávamos. Só tinha árvores, árvores e mais árvores. Ele abre a porta, saindo, indo pra trás, pra ver a mala. Ele passa uns minutos ali, antes de vir pro meu lado do carro. Mas o que ele tinha no ombro me aterrorizou e meio que respondeu uma das minhas perguntas: a Lizzy tava pendurada no ombro dele, quando ele abriu a minha porta.
Eu saio, como ele mandou, antes de ser levada mais pra dentro da mata. A mão dele tava segurando firme meu braço, enquanto a outra segurava a Lizzy no ombro dele. Na minha cabeça, eu tava pensando em várias rotas de fuga, mas nenhuma envolvia eu ajudar a Lizzy. Não tinha nada em mim que quisesse largar ela. Quem garante que, se eu fugir e ele me pegar, eu não acabo como a Lizzy? Agora, eu tô no lado bom dele, que é onde eu quero ficar, por enquanto.
Acho que demorou uma eternidade, mas as árvores começam a afinar. A fonte da luz que eu vi lá no carro vinha de um lampião num poste, sabe, aqueles postes de luz bem antigos. Um lago enorme tava no meio do campo aberto, tinha um daqueles píeres de madeira que você podia pescar. Foi aí que caiu a ficha: o Gray disse que a Matilda foi morta no lago, não muito longe do castelo. O Rupert tava lá quando tudo aconteceu, que é um dos motivos pelo qual o Preston queimou a casa dele. É aqui que tudo começou!
Ele continua me puxando em direção ao lago e pro píer de madeira. Quando chegamos ao fim, ele joga a Lizzy com um baque no chão. Isso fez o píer todo balançar e tremer. Não dá pra saber a idade desse píer, tomara que ele não continue jogando coisas pesadas nele. Tava chegando o outono, o que significava que não tava tão quente como antes. A água não ia estar tão morna, especialmente à noite!
Ele me leva pro lado, mandando eu sentar. Eu faço o que ele manda, onde ele pega outra corda grossa do bolso e amarra minhas mãos, que já estavam amarradas, num dos postes. Depois que eu tava bem presa, ele levanta, colocando as mãos nos quadris, só olhando pra água aberta.
"Sabe, é aqui que tudo aconteceu. É um lugar tão bonito, o que deixa triste que todos os acontecimentos estragaram tudo", ele diz, ainda admirando a vista.
"O que estamos fazendo aqui, Rupert?", pergunto, finalmente começando a me sentir mais confiante pra falar com ele. Ele só suspira, se ajoelhando na minha frente.
"Isso nunca ia ser o plano, mas ela teve que abrir a boca", ele diz, olhando pra trás, pra Lizzy. Eu ainda não tinha visto ela se mexer, o que me aterrorizou, por causa que ela tava muito machucada. "Me desculpe por ter te trazido pra isso. Eu ia deixar você ir, mas sei que você vai voltar pro seu parceiro e me impedir de fazer o que precisa ser feito", ele suspira, colocando a mão na minha bochecha, como fez lá no depósito. De novo, quero me afastar, mas sei que é melhor não fazer isso.
"Por favor, seja lá o que você tá planejando, não precisa fazer isso. Deixa eu e a Lizzy irmos embora, e eu conto pro Gray não tentar te encontrar mais", sugiro, tentando negociar com ele. Eu sabia que, se isso acontecesse, o Gray não ia parar até pegar ele.
"É tarde demais pra isso. Não se preocupe, Clara, não vou te machucar. Você é muito parecida com a Ellie, não teria como eu me forçar a te machucar, mas ela...", ele diz, mais uma vez, olhando pra trás, pra Lizzy, é disso que eu tenho mais medo. "Eu e ela finalmente vamos fazer o que é certo, depois de todos esses anos. Só preciso que você me prometa que não vai deixar a memória da Ellie morrer. As pessoas precisam se lembrar dela pela pessoa incrível que ela foi, e não pelo que vai acontecer agora", ele suspira, com as lágrimas mais uma vez se formando nos olhos. Isso só fez o sentimento horrível crescer mais e mais. Você só fala isso pra alguém se estiver planejando não estar mais por perto.
"Por favor, Rupert, podemos resolver tudo. Você não precisa fazer o que está prestes a fazer", imploro, principalmente pela Lizzy e, bem, pelo Gray. Ele não pode perder a mãe de novo, depois de ter acabado de tê-la de volta. Ele nem teve uma conversa completa com ela ainda.
"É o que precisa ser feito, Clara. Por favor, só diz que vai me prometer", ele diz, com as duas mãos agora nas laterais das minhas bochechas. Eu balanço a cabeça devagar, com lágrimas rolando pelas minhas bochechas, na esperança de que, se eu concordar, isso me dê mais tempo.
Ele sorri, dando um beijo na minha testa antes de se levantar. Ele mais uma vez olha pra distância antes de dizer que precisava pegar umas coisas no carro. Eu fico olhando ele sair, indo pra dentro das árvores densas. Quando ele some, começo a puxar as cordas, na esperança de afrouxá-las um pouco.
"Lizzy, por favor, você precisa acordar antes que ele volte. Tô com uma sensação muito ruim de que ele vai te machucar, por favor", choro, esticando meu pé pra mexer nela um pouco. Eu não podia deixar que levassem ela assim. "Por favor, Lizzy, o Gray precisa de você. Ele não pode te perder de novo, só acorda, por favor!", imploro, repetidamente chutando ela. Eu precisava que ela abrisse os olhos. Não sabia quanto tempo eu tinha até ele voltar.
Com meus chutes, vejo os olhos dela abrirem um pouco. Isso me faz sorrir, dizendo pra ela que precisava correr e pedir ajuda, mas ela parecia que ia fechar os olhos de novo.
"Lizzy, não, o Gray precisa de você!", começo a chorar de novo. Não podia deixar que ela fechasse os olhos de novo!
"N-não precisa, ele tem você", ela murmura, com os olhos começando a fechar. "Cu-cuida do meu bebezinho pra m-mim", ela diz antes de fechar totalmente os olhos e ir embora de novo.
"Não, por favor, acorde!", choro, quando vejo movimento nas árvores e o Rupert sai. Ele tinha o que pareciam ser sacos de pedras nas mãos.
Ele me manda um sorriso quando começa a amarrar alguns dos sacos de pedras nos pés da Lizzy. É aí que a ficha cai na minha cabeça. Não, não, não!
"Rupert, por favor, você não precisa fazer isso. Se você parar agora, posso resolver tudo, ok? Vou tirar o Gray da sua cola, vou tirar todo mundo da sua cola. Posso te arrumar uma casa legal em algum lugar longe daqui. Essa não é a resposta", começo a implorar pra ele, mas ele balança a cabeça, indo amarrar os sacos de pedras nos próprios pés.
"Mesmo que eu fosse embora, eles ainda iam seguir, Clara. Não se preocupe, nada disso é por sua causa", ele sorri pra mim antes de olhar pros pés. "Só preciso que você cumpra a promessa comigo, ok?", ele pergunta, se levantando e olhando de volta pra água, depois pra Lizzy.
"Eu vou cumprir a promessa de qualquer jeito. Podemos contar a história da Ellie juntos, por favor, você não precisa fazer isso", imploro pra ele mais uma vez, mas ele balança a cabeça, como sempre faz.
"É algo que você precisa fazer sozinha", ele sorri antes de se abaixar pra pegar a Lizzy. Ela tava bem mais pesada agora, por causa das pedras, mas ele consegue pegá-la.
Ele dá passos lentos em direção à beira do píer, olhando de volta pra água. Ele suspira, virando pra me olhar.
"Por favor, Rupert, a Ellie não ia querer que você fizesse isso, por favor, pense nela!", choro, forçando as cordas pra me soltar, mas não consegui.
"Obrigado, Clara, você foi tão gentil comigo, você não entende o que isso significou. Lembre-se que a culpa não é sua", ele sorri antes de pular do píer. Um grande splash me faz gritar o nome dele várias e várias vezes.
"Rupert! Lizzy! Não! Não!", grito, quando as bolhas que surgiram da água pararam.
"Não!", choro, caindo pro lado, só chorando sem parar, sozinha na noite fria de outono.