Não Machucaria Uma Mosca
Voltamos pro castelo de manhãzinha, honestamente, achei que ia ser moleza igual foi sair do castelo, mas, caraca, me enganei! Era pra gente ter saído da casa segura hoje de manhã, mas o Gray ficou sabendo que o Rupert descobriu a localização da casa segura, ele bota a culpa na mãe dele por ter aparecido. Então, ontem à noite, depois de ser LITERALMENTE arrastada da cama e jogada num carro, chegamos no castelo bem de madrugada. O Gray não tava de brincadeira quando falou que aumentaram os Guarda presentes por todo o castelo, eles tão em cada corredor e escritório, eu até vi eles num espaço rastejante quando tava andando por aí! Só espero que não fiquem demais, mas eu sei que o Gray só faz isso porque se importa.
Eu tava mega nervosa pro dia que tava por vir, se vocês lembram, o Erik me falou que precisava conversar comigo sobre o Cyrus. Tudo sobre a mãe do Gray meio que jogou esse assunto pra escanteio por um tempinho, enquanto eu tava me arrumando hoje de manhã, a gente teve uma conversa por ligação mental. Ele continuou dizendo que, com as poucas testemunhas que a gente tem contra o pai do Gray, é muito difícil que ele pegue alguma pena de prisão. Ele pode tentar distorcer tudo e fazer o tribunal acreditar que ele tava só fazendo isso pelo povo dele, a gente sabe com certeza que ele vai pegar alguma acusação pelo que fez com a Matilda, são só os outros crimes que a gente precisa prender contra ele, pra não ter como ele sair daquela cela. Só temos meu Pai nesse ponto, ele contou pro Erik algo que eu achei que não ia ser muito problema, mas, de acordo com o Erik, foi um baita problema. Meu Pai tava lá quando eles estavam executando os atos horríveis, mas, ele nunca tava lá quando o pai do Gray dava as ordens. O Erik explicou que o Preston podia distorcer tudo e fazer parecer que ele nunca mandou esses caras fazerem nada, eles fizeram por amor ao Rei deles.
Se a gente quer que ele caia com o mínimo de complicações possível, o Cyrus vai ter que testemunhar contra ele. Quando me contaram isso, tive que sentar por um segundo, se o Cyrus fosse testemunhar, a gente ia ter que fazer algum tipo de acordo com ele. O único jeito dele testemunhar contra o Preston era se soltassem ele da prisão, o que significaria que ele nunca ia pagar pelos crimes que cometeu e ia poder sair numa boa. Mas, como eu já falei, o Preston é um peixe muito maior nesse mar de gente horrível, então, depois de um minuto, eu finalmente concordei em tentar persuadir o Cyrus a testemunhar.
O Erik se ofereceu pra ter a conversa com o Cyrus, mas eu disse não, ele provavelmente ia rir do Erik pra fora da sala, mas eu sei que se eu fizer isso, provavelmente vou pegar ele de surpresa. Ele sabia que, quando eu crescia, morria de medo dele, talvez na cabeça dele ele ainda acredite nisso. Honestamente, tem vezes que eu penso na minha infância e fico com medo, mas, nesses últimos meses de Rainha, aprendi a abraçar as vezes em que estou com medo. Consegui fazer coisas que nunca sonhei que seriam possíveis, quase não fico nervosa falando com gente nova agora, consigo sair e falar na frente de multidões, me posicionei numa sala de reuniões cheia de homens que realmente não me respeitavam de jeito nenhum. Se eu consigo fazer tudo isso, consigo ter uma conversa a sós com meu tio.
Eu tava parada do lado de fora da entrada das masmorras, um lugar onde estive mais vezes do que imaginei. O Gray não sabe que eu tô fazendo isso, porque eu sei o que ele diria, na verdade, não teria como ele me deixar fazer isso. Os Guardas estavam só garantindo a segurança de todos os prisioneiros pra não ter chance de ninguém escapar, é aqui que eles guardam o pior do pior, de acordo com o Erik. A porta abre, o Guarda principal faz um sinal pra mim com a cabeça, eu olho pro Erik que me manda um aceno com um sorriso. Respiro fundo antes de entrar nas masmorras escuras, sigo atrás do Guarda pela escada em caracol. No final da escada, outro corredor escuro, era tão pequeno que tínhamos que andar em fila indiana até abrir totalmente. Várias celas diferentes enchem a sala, alinhadas nas paredes, como antes, um único Guarda em cada porta de cela.
Sigo o mesmo Guarda de antes mais fundo na sala enorme com as celas, bem no meio da sala das celas tinha outra escada escura. Mais uma vez, sigo o Guarda pela escada muito menor que dava pra uma salinha tipo cela. De fora, eu vi o Cyrus sentado na mesa com as mãos algemadas nas costas, soltei meu Pai das algemas quando tivemos nossa reunião, não tem como isso acontecer com o Cyrus.
Chegamos a uma parada do lado de fora da salinha, podíamos ver dentro, mas ele não conseguia ver fora. O Erik tava do meu lado mais uma vez me mandando um olhar encorajador, ele sabe todas as histórias da minha infância, então sabe o que eu tô sentindo.
"Você pode esperar do lado de fora da porta, só por garantia?" pergunto baixinho, olhando pra ele, ele me manda um aceno sorrindo mais uma vez.
"Eu vou estar aqui o tempo todo, se eu sentir que ele tá prestes a fazer alguma coisa, eu e esses Guardas vamos estar lá dentro em segundos" ele sorri, enquanto o Guarda alcança a maçaneta esperando por mim.
"Preciso que você ligue o modo Rainha pra mim" eu digo pro meu lobo, ela ri na minha cabeça gostando da ideia.
"Modo vadia ativado" ela faz uma cara de quem sabe de tudo na minha cabeça, imediatamente sinto mais poder passando pelas minhas veias, me fazendo sentir muito mais poderosa.
Eu mando um aceno pro Guarda que abre a porta pra revelar o Cyrus, ele levanta o olhar com uma cara de choque quando me vê. Começo a entrar na sala, quando entro a porta fecha atrás de mim, mas eu não me importei, não tava com medo dele quando eu tava assim.
"Você é a última pessoa que eu imaginei que ia passar por aquela porta" ele dá um sorriso de canto tentando me intimidar, mas ele não sabia que a intimidação ia ser ao contrário dessa vez.
"Eu tô cheia de surpresas" eu respondo notando que minha voz soava um pouco diferente, o modo Rainha tá a todo vapor "Eu ia perguntar se você tava confortável, mas eu não tô nem aí, agora vamos ter uma conversinha e é melhor você dizer o que eu quero, ou as coisas não vão ser boas pra você" eu digo pra ele, olhando bem nos olhos dele, o que, quando criança, eu nunca teria feito.
"Como o público ia se sentir se soubessem que a Rainha deles é assim, como você sabe que eu não vou contar pra imprensa como você realmente é?" Ele pergunta mais uma vez tentando me intimidar, mas fracassando dramaticamente.
"Você podia, mas quem eles iam acreditar, num homem do mal com um histórico criminal de espancar e assassinar pessoas sensatas, ou em mim, a Rainha deles, que não faria mal a uma mosca?" Eu pergunto com um sorriso de canto, indo pra perto da mesa, ele olha pro lado por um segundo.
Eu vou andando e sento na cadeira em frente a ele, sem saber o resultado dessa conversa.