Capítulo Trinta e Dois
Minha queixada podia ter batido no chão quando aquelas palavras saíram da boca dele, sim, eu estava pensando nisso, mas é diferente ouvir ele realmente confirmar. Eu não fui a única pessoa que ficou de queixo caído, todo mundo daquele lado da fronteira tinha a mesma expressão na cara. Agora olho pro Cody, que só estava me encarando, isso obviamente não era informação nova pra ele.
"Eu queria te contar, mas não podíamos arriscar a segurança do Reece" ele sussurra, se abaixando perto do meu ouvido, eu só mando um sorrisinho, dizendo que estava tudo bem, na verdade, não era pra ele me contar, mas sim pro Reece, e se ele estava de acordo com eu saber.
Viro pro Justin, que lentamente tirou algo do bolso, sem avisar, ele tira uma arma, mas em um segundo, o Reece já estava do outro lado da fronteira.
"Você ousa apontar essa arma pra um membro da minha alcateia que está dentro da minha fronteira, você não vai gostar da guerra que vai começar", Cody rosna profundamente, olhando nos olhos do Justin, essas são as regras que eles estabeleceram quando tudo isso começou.
Justin olha pro Reece, furioso, ainda segurando a arma, meu pai pigarreia, o que faz ele apontar a arma de volta pro chão. Justin meio que recua quando meu pai se aproxima, certificando-se de não cruzar a fronteira como Reece acabou de fazer.
"Espero que entenda, Reece, agora que você cruzou a fronteira, não tem permissão pra voltar, se você fizer isso, será morto na hora", meu pai diz, impondo a lei, eu só reviro os olhos, olhando pro chão, "o mesmo vale pra você, Érica, você mostrou suas verdadeiras cores agora", meu pai me diz com raiva, o que a princípio me chateia, mas eu ignoro, olho pra ele bem nos olhos e dou de ombros, eu não me importava.
"Bem, acho que se eu não posso voltar, é melhor eu te contar, eu sou a parceira do Cody", eu dou um sorriso, olhando pro Cody, que eu podia dizer que estava tão feliz que eu realmente tinha dito aquilo, enquanto meu pai e Justin pareciam chocados e horrorizados, "você pode ter dito isso pra me magoar de alguma forma, mas eu estou onde eu pertenço, com quem eu pertenço, ah, e só pra avisar, eu encontrei a minha mãe, ela também está morando com o parceiro dela, que estranho, né?" eu pergunto docemente, mas rio de novo, a cara dele foi uma pintura, ele merece, eu digo.
Meu pai aponta pra mim e depois olha pro chão, eu podia ver as lágrimas se formando nos olhos dele enquanto ele falava. Ele precisava descobrir sobre a minha mãe de alguma forma, talvez essa abordagem não fosse a melhor. Ethan agora sai da multidão completamente chorando, eu nem sabia que ele estava lá, agora eu realmente me arrependo de ter contado pra ele daquele jeito.
"Você está nos deixando como a mamãe", ele chora baixinho, olhando pra mim com tristeza, Reece se vira, mandando um sorriso pra mim, sabendo o quão mal eu estava me sentindo.
"Pra ser sincero, ela não tem muita escolha, você sabe que se ela tivesse a opção de ir embora dessa alcateia e da sua cidade, ela iria, mas o seu pai, sendo o ditador rigoroso, tornou isso impossível", Reece diz, me defendendo como sempre faz, eu não sabia como melhorar isso, então agradeci que ele estava lá.
"De qualquer forma, não queremos uma pessoa como você na cidade, eu sempre disse que você é igual a sua mãe, uma vadia egoísta e sem espinha!" Meu pai grita, o que me pega de surpresa, bem, essa é uma linda referência de personagem.
Todo mundo do meu lado começa a rosnar, até o Scott. Todos direcionaram seus olhos pro meu pai, que parecia estar se arrependendo de me chamar de todos aqueles nomes, eles foram bem cruéis. Cody anda pra frente, parecendo que ia cruzar a fronteira, Justin levanta a arma, o que me faz pegar o braço do Cody pra impedir.
"Se você falar sobre minha parceira de novo assim, eu vou te estraçalhar membro por membro", ele rosna, seus olhos agora com uma cor escura assustadora, eu sabia que isso significava que o lobo dele tinha assumido totalmente e estava pronto pra atacar.
"Ele não vale a pena, mesmo estraçalhar ele membro por membro seria bom demais pra ele", eu digo, puxando o Cody de volta e ficando na frente dele, eu não era tão forte quanto ele, mas ele não ia passar por cima de mim de jeito nenhum, "o que eu disse lá atrás ainda é cem por cento a verdade, eu nem sei mais quem você é, Ricardo", eu comento, chamando ele pelo nome e não de pai, pareceu tão errado, mas ele não estava agindo como o pai que eu conhecia crescendo.
"A única razão pela qual você está onde está é por causa da mamãe, a família dela fundou esta cidade e, como você se casou, te promoveram a chefe de polícia. Mas o que você está esquecendo é que a mamãe ainda é a líder desta cidade e dá as cartas, eu não sei como, mas vou encontrar uma maneira de te tirar dessa posição, pra que você não machuque mais ninguém", eu digo honestamente, ainda sem ideia de como ia concretizar essa ideia, mas tinha que fazer alguma coisa.
"Isso significaria que sua mãe teria que voltar pra cidade e todos nós sabemos as regras, isso não parece que vai acontecer", meu pai ri, não me levando a sério, isso só faz com que o desejo de fazer o que ele diz que eu não posso fazer fique mais forte, está acontecendo, "como eu amei essa reunião de família, mas preciso ir e resolver as coisas na cidade, como limpar o lixo do lago", ele sorri, olhando pra mim, eu sabia que ele estava falando do Lenhador Tom, que definitivamente não é lixo.
Com isso, ele e o resto da sua turma se viram e foram embora, o único que ficou pra trás é o Ethan. Ele ficou na beira da fronteira, só me encarando com olhos tristes, eu consigo ler ele como um livro, então eu sabia exatamente o que ele estava pensando. Ele acha que me perdeu como perdeu a mamãe, mas, ao contrário da mamãe, eu não vou parar até poder voltar pra ver ele.
"Eu vou encontrar um jeito, Érica, você sabe que vou", ele diz antes de também se virar e seguir todo mundo, indo embora.
Sempre que eu deixo aquela cidade, eu sempre fico preocupada que vou sentir falta, mas eu nunca senti isso, de jeito nenhum. Eu pertenço onde estou, com o Cody e todos na alcateia, eu não tenho nenhuma vontade de voltar. Mas essa é a primeira vez que eu vejo o Ethan desde que eu fui embora, nunca estivemos separados antes disso, ele é a coisa que está me deixando triste que eu não posso voltar.
"Você tem certeza que checou em todos os lugares?" Scott pergunta, me tirando dos meus pensamentos, Reece se vira, me dando um olhar irritado.
"Você pode parar de falar da Marta por cinco minutos?! Ela faz isso o tempo todo, sabe, eu aposto que ela está de volta na cidade, aqui!" Ele exclama, finalmente perdendo a paciência, leva muito pra isso acontecer.
"É melhor você tomar cuidado com o que sai da sua boca quando se trata da minha parceira", Scott rosna de volta, dando passos em direção ao Reece, eu olho pro Cody, pra ver se ele ia fazer alguma coisa, mas ele parece que ainda está se acalmando.
"Vocês dois precisam tomar cuidado com o que sai da boca de vocês, eu sei que a tensão está alta e você deve estar morrendo de preocupação, Scott, mas o que o Reece está dizendo é verdade. Conhecemos a Marta há quase toda a nossa vida, ela faz muito isso, ela faz todo mundo se preocupar quando na verdade ela está em casa o tempo todo. Por que você não corre na frente e vai dar uma olhada na cidade, ela provavelmente vai estar sentada em casa esperando por você?" Eu sorrio, ficando na frente do Reece agora, ele também é alguém que eu sei que não vai simplesmente passar por cima de mim, mas também, o Scott não vai tentar atacar se eu estiver no caminho.
Scott concorda, correndo em direção à parte principal da cidade pra procurar por ela, Cody se aproxima, colocando um beijo na minha cabeça, dizendo que tinha que resolver algumas coisas de trabalho.
"Eu vou cuidar dela, Cody, você sabe que vou", Reece sorri, envolvendo o braço em volta dos meus ombros, Cody sorri, concordando com a cabeça, antes de também correr na direção da alcateia.
"Você tem muito o que explicar", eu digo pra ele, com os braços cruzados, ele solta uma risada nervosa, começando a me levar para longe da fronteira e em direção à cidade.
"Vamos te levar pra casa e colocar em roupas quentes e secas primeiro", ele diz, quando eu me viro pra olhar pra fronteira da cidade, onde eu sou proibida de entrar.