Capítulo Trinta e Três
Reece veio pra casa comigo e esperou até eu tomar banho. Me certifiquei de não demorar muito, pra ele não ficar esperando uma eternidade. Já era bem tarde, então decidi só colocar um pijama quentinho. Quando desço as escadas, o Reece tava sentado em um dos balcões. Tinha duas xícaras do que parecia chocolate quente na frente dele. Ele também tinha trocado de roupa, será que ele fugiu pra casa sem me avisar? Isso me lembra, preciso perguntar onde ele mora pra poder visitar ele.
"Aposto que você tá se sentindo bem melhor. Fiz um pouco de chocolate quente, não se preocupe, perguntei pro Cody antes", ele sorri, me entregando a bebida quente. Eu sorrio, me juntando a ele no balcão.
Ninguém fala por um tempo. Eu ainda tava me acostumando a morar aqui com o Cody, mas agora, tenho que me acostumar com o Reece estando aqui e com quem ele é. Não muda nada entre a gente, mas é meio triste que ele não tenha conseguido me contar. Se ele tivesse falado antes de tudo o que aconteceu, provavelmente eu não teria acreditado nele. Imagina ter que esconder algo assim. Será que ele já quase me contou durante esses anos?
"Seu pai não quis dizer o que ele falou ali", ele diz, quebrando o silêncio. Eu olho pra cima, mandando um sorrisinho pra ele, mas volto a olhar pro balcão. "Bem, pro Justin, ele tá meio louco agora, deixou o poderzinho que tão dando pra ele subir na cabeça", ele fala, tomando um gole da bebida. Parece que a cidade passou por muita coisa desde que eu fui embora.
"Eu sei que meu pai deu um pouco de poder pra ele antes de eu sair, por que ele tá usando aqueles ternos e agora anda com uma arma?" Eu pergunto, que era uma pergunta que eu tentei fazer na cidade, mas os policiais chatos atrapalharam.
"Na noite que você foi embora, seu pai, o Justin e eu estávamos conversando. Seu pai tava falando que as coisas estavam saindo do controle e que ele precisava botar ordem. Aparentemente, você ir embora foi porque você já tava de saco cheio de todos os problemas que tavam rolando na cidade, então ele tava de saco cheio disso. Ele falou pra gente que queria que o Justin fosse o braço direito dele e queria que eu ajudasse a comandar o acampamento de treinamento que eu te contei. O Justin levou isso ao extremo e apareceu de terno!" Ele exclama, balançando a cabeça enquanto fala. Todos nós sabíamos que o Justin gostava quando meu pai pedia pra ele ajudar quando eu tava lá, mas eu não sabia que ele se alimentava do poder.
"Eu sabia que as coisas estavam piorando quando eu saí, mas eu não sabia que ia tomar essa proporção! Talvez se eu tivesse ficado, eu poderia ter impedido isso", eu suspiro, olhando pra bebida na minha frente. Essa sensação tava rodando na minha cabeça desde que eu descobri todas as coisas ruins que aconteceram lá. Agora, ouvindo tudo isso, eu não podia negar o fato.
"Não, Érica, você não podia ter feito nada pra impedir, tudo começou a desandar quando seu pai descobriu que sua mãe ainda tava viva", ele explica, o que eu sabia que era meio verdade. Alguma coisa mudou no meu pai naquele dia, ele não teria tentado me manipular usando a minha mãe se ele fosse o mesmo. "Ah, um detalhe, eu achei que você foi muito foda enfrentando seu pai ali. Eu vou te ajudar de qualquer jeito a encontrar sua mãe. Eu tenho mais acesso às informações dos membros da matilha do que o Scott, vai ser mais rápido e fácil se eu ajudar", ele fala, sentando de volta na cadeira. Eu olho pra ele confusa, depois meus olhos se arregalam.
"Você é o Gama do Cody?!" Eu pergunto, tão chocada com o que eu tava ouvindo. Então ele não é só um lobisomem, mas alguém de alto status!
"Eu sabia que a pesquisa ia ser útil. Sim, eu sou o Gama dessa matilha, o que significa que ainda somos vizinhos", ele sorri, apontando pra parede, mas acho que ele quis dizer a direção da casa dele. "Me desculpa por nunca ter te contado quem eu sou. Minha família e eu fomos enviados pra cidade pelo pai do Cody pra conseguir informações. Eles não queriam que vocês humanos descobrissem sobre a gente. Era pra gente ficar lá só alguns anos, mas eu implorei pra não ir embora", ele sorri, olhando pra mim com um sorriso. Eu fico feliz que ele não foi embora, senão a gente não teria se tornado como irmãos.
"Teve tantas vezes que eu quis te contar e simplesmente acabar com isso, mas eu sabia o quanto isso ia mudar sua vida e eu não queria te perder", ele suspira, foi a vez dele de olhar pro balcão. Eu estico a mão, pegando a mão dele com um sorriso.
"Você não precisa pedir desculpa, Reece. Eu entendo 100% por que você não podia me contar. Nada nunca vai mudar entre a gente, você tá preso a mim pra sempre", eu sorrio, dando uma apertadinha na mão dele. Isso faz um sorrisão surgir nos lábios dele quando eu falo isso.
Antes que a gente pudesse falar mais alguma coisa, a porta começa a bater. Eu dou uma olhada confusa pro Reece, depois viro pra olhar pra porta. Eu sei que parece loucura eu ficar confusa por causa da porta batendo, mas isso nunca aconteceu desde que eu tô aqui. Se alguém precisa falar com o Cody, eles usam a ligação mental. Se eles fizessem isso agora, eles descobririam que o Cody não tava em casa e não apareceriam na casa. Isso só pode significar uma coisa, a pessoa deve estar na casa pra me ver. Quem ia querer me ver tão tarde da noite?
"Eu acabei de perguntar pro Cody, ele não tava esperando ninguém, então ele tá meio alarmado que tem alguém aqui", o Reece me fala enquanto eu me levanto do balcão e vou em direção à porta. "Isso é a última coisa que ele quer que você faça", ele fala, correndo pra mim e pegando meu braço.
"A pessoa que tá lá não pode ter nenhum plano sinistro contra mim, senão ela não teria batido. De qualquer forma, eu tenho o Gama da matilha pra me proteger, não tenho?" Eu pergunto, toda docinho, enquanto a porta bate de novo. O Reece olha pra porta, depois pra mim, com um suspiro.
Ele balança a cabeça relutantemente, deixando eu ir em direção à porta. Não me entendam mal, ele tava literalmente grudado em mim o tempo todo. Assim que eu abro a porta, uma garota jovem tava nervosamente parada lá, brincando com as mãos. Como eu disse antes, já era muito tarde, então isso me preocupou, por que ela estaria aqui sozinha, especialmente com tudo o que tá acontecendo agora.
"Katy, você sabe que não pode ficar na área restrita sem permissão, mas você não é de quebrar as regras, então qual é?" Reece pergunta de trás de mim. Era estranho pra mim que ele tivesse um papel tão importante como ele tem.
"D-desculpa, eu só precisava falar com a Luna, mas não é nada, desculpa", ela gagueja antes de se virar e ir embora. Espera, não vai embora, eu tô intrigada!
"Nem pense em fazer o que eu sei que você tá pensando em fazer", Reece fala de novo de trás de mim. Ah, ele me conhece tão bem.
"Mas você também sabe que eu vou fazer", eu falo antes de sair correndo da casa e descer os degraus. Eu ouço ele falar meu nome, irritado, atrás de mim, mas eu já tava fora do portão.
Eu posso ser rápida quando eu quero, o que não é muito frequente. Eu corro pelo caminho um pouco, onde eu vejo a garota nervosa indo embora. Eu chamo por ela, o que faz ela pular e se virar pra me olhar.
"Katy, não é? Você não precisava ir embora, eu ainda teria escutado", eu falo, finalmente alcançando ela. Ela murmura que não era importante, mas eu dou uma olhada pra ela. "Se não fosse importante, você não teria andado tudo isso, no escuro, pra uma área restrita, teria?" Eu sorrio suavemente pra ela. Eu não queria que ela achasse que tava em algum tipo de problema, eu realmente não me importava que ela tivesse passado pela área restrita, pra ser sincera.
"Ok, é alguma coisa, mas eu não sabia se eu devia te contar ou não, mas se eu não contar, eu vou perder seu tempo", ela tropeça nas palavras dela. Eu, por outro lado, espero que ela conte mesmo, porque ela só tá fazendo minha curiosidade crescer a cada segundo. "É sobre seu amigo, aquele que mora onde você morava antes, aquele com o terno e a arma", ela fala, tendo que me dar mais dicas porque, a princípio, eu não sabia quem ela tava tentando dizer, mas assim que ela falou terno, eu soube na hora.
"Justin", eu falo, confirmando que eu sabia sobre quem ela tava falando. Ela concorda com a cabeça, mas começa a ficar nervosa de novo. "Ele fez alguma coisa que eu preciso saber?" Eu pergunto, tendo que trabalhar duro pra fazer a conversa rolar. Eu espero que não seja algo chato que eu não precisasse saber.
Ela balança a cabeça e continua a me contar uma história, algumas perguntas perdidas foram respondidas, mas isso partiu meu coração ao mesmo tempo.