Capítulo Oito
Já era tarde naquele dia, o dia todo a cidade tava lotada de polícia, que tava garantindo que todo mundo ficasse em casa. Meu pai não parava de me ligar, exigindo que eu contasse o que eu sabia, claro que eu respondia docemente que não fazia ideia do que ele tava falando. Eu não sou como o Justin, de jogar meus amigos debaixo do ônibus sem motivo, ou melhor, sem um motivo justificável.
O que o Reece falou mais cedo me fez pensar, o que o Justin tava fazendo fora da porta do meu quarto? Mas ele também devia ter grudado a orelha na minha porta pra ouvir o que a gente tava falando, o que ele achou que eu e o Reece estávamos fazendo lá em cima?! Ele já fez isso antes quando eu tava no meu quarto? Essa situação toda só trouxe um monte de perguntas novas, principalmente sobre as intenções do Justin.
O Reece tinha acabado de ir pra cama quando eu tranquei a porta do meu quarto, enquanto o Justin dormia num colchão inflável no meu chão. O Reece insistiu que ele dormisse no porão, ele me disse que não queria que eu me sentisse desconfortável enquanto dormia. Sinceramente, eu não ia ficar, mas achei legal ele estar levando em consideração meus sentimentos, algo que eu não tenho certeza que o Justin já fez. Eu tava prestes a subir na cama pra dormir quando a maçaneta da minha porta começou a chacoalhar, no começo achei que fosse o Reece, mas lembrei que ele sabe destrancar a porta por fora, a porta quebrou algumas vezes, obrigando ele a fazer isso.
"Não vou te deixar entrar, Justin", eu digo, movendo meu cobertor pra me deitar, não ia deixar aquele traíra chegar perto de mim por um tempo, em vez de ouvir a voz do Justin eu ouvi a do meu pai: "Você também não vai entrar", eu digo, subindo totalmente na cama, quando eu ficar confortável, não vou abrir a porta pra ninguém.
"Só me deixa entrar, Érica, precisamos conversar", ele diz, com uma voz diferente, não como uma pessoa diferente, mas emocionalmente diferente.
Eu olho pra porta e de volta pro meu cobertor, eu podia simplesmente ignorar e dormir, mas provavelmente não ia conseguir dormir. Meu pai nunca soa triste ou mostra nenhuma emoção de verdade, não mostra desde que minha mãe sumiu. Então ouvi-lo falar assim despertou meu interesse, por que eu tenho que tomar grandes decisões deitada na cama?!
Eu suspiro, saindo da minha cama quentinha e indo até a porta, assim que eu abro vejo ele parado sozinho, olhando pro chão. Não o via assim desde que minha mãe sumiu, eu sei que fico repetindo isso, mas é verdade! Meu pai é o tipo de pessoa que não demonstra emoção, ele era assim até antes da minha mãe sumir, só piorou depois de todo o drama.
Eu me afasto pra ele poder entrar no meu quarto, por sorte eu tinha movido a minha cômoda sobre a tábua do chão onde eu escondia os cadernos, sim, eu sei que estou tratando esses cadernos como se fossem um tesouro escondido, mas também sei como as pessoas dessa cidade são. Diferente do Justin, eu gosto de proteger meus amigos e não jogá-los debaixo do ônibus quando as coisas ficam difíceis, ou quando eu acho que vou ganhar alguma coisa com isso. Eu olho para os dois lados pra ter certeza que o Justin não estava espreitando nas sombras, como ele provou que faz!
Eu tranco a porta do meu quarto, me virando pra olhar pro meu pai, o encontro sentado na minha cama, olhando para uma das minhas fotos na minha mesa de cabeceira. Era a última foto que minha mãe e eu tiramos juntas antes dela sumir, se eu soubesse na época que seria uma das últimas vezes que eu veria minha mãe. Mas acho que não é assim que o mundo funciona, se ao menos pudesse, né?
"Eu tirei essa foto sua e da sua mãe, foi logo depois que você ganhou um prêmio na escola, qual foi o prêmio mesmo?", meu pai pergunta, olhando pra mim pela primeira vez, durante essa conversa toda ele só ficou olhando pro chão ou pra aquela foto.
"O melhor cabelo, sim, eu sei que a escola dá um prêmio pra qualquer coisa", eu rio, sentando do lado dele na cama, ele ri um pouco, mas olha pra foto de novo, triste.
"Você é a cara da sua mãe, a cada dia que passa você se parece mais e mais com ela", ele diz, pegando a foto nas mãos e sorrindo, "até na sua personalidade, o que aconteceu hoje com a Marta e você não me contou as informações que descobriu, ela teria feito a mesma coisa pra proteger as pessoas que ela ama", ele suspira, ainda olhando pra foto.
"Eu ainda não faço ideia de que informações você está falando", eu digo, ainda fingindo, mas sabendo muito bem que ele sabia que eu sabia de alguma coisa, mas nós dois sabíamos que eu não ia contar o que eu sabia, ele me dá um olhar dizendo: "Ok, eu posso saber de alguma coisa, mas não posso, pai, a Marta é uma amiga de longa data e realmente não fez nada de errado", eu digo, meio que admitindo pela primeira vez que eu realmente tinha alguma informação que o pai vai querer ver.
"Eu vou garantir que nada aconteça com a Marta, ainda preciso ver as informações que você encontrou, vai nos ajudar a proteger melhor a cidade, não é só sobre a Marta, é sobre toda a cidade que está sendo afetada pelo que está acontecendo", ele diz, enquanto eu me levanto e começo a andar de um lado para o outro, uma parte de mim queria dar os cadernos pra ele, pra que toda essa besteira pudesse ser deixada para trás, mas outra parte de mim estava dizendo que eu precisava proteger a Marta, mas não só a Marta, por alguma razão eu estava superprotegendo esses cadernos.
"Você não pode prometer isso, pai, sim, você pode ir nisso pensando que está fazendo o melhor pra Marta, mas assim que alguém disser algo contra, você vai com eles e vai esquecer a Marta!", eu digo, sentando na minha mesa com a cabeça nas mãos, todo esse estresse não é bom pra minha saúde.
"Se o que está nesses cadernos estiver incriminando a Marta por algo ruim, então sim, eu vou ter que fazer alguma coisa, mas se forem só coisinhas, então eu nem ligo", ele diz, se levantando pra tentar chegar a um acordo comigo, essa opção pareceu ótima, mas eu ainda não tinha certeza. Aquela voz dentro de mim continuava dizendo para não, mas meu pai continuava dizendo: "Eu acabei de dizer que você se parece com sua mãe e, confie em mim, você se parece, mas até sua mãe me daria informações que pudessem ajudar a cidade, ela veria o quadro maior como eu preciso que você veja", ele diz, o que me faz olhar pra o rosto dele, ele mais uma vez pareceu bem triste.
Ele fica assim toda vez que alguém fala sobre a mãe, por isso tentamos evitar o assunto a todo custo. Minha mãe não desistiria sem lutar por algo que ela acreditava. Uma vez eu vi uma foto da minha mãe brigando com um homem depois que ele disse que ela não podia fazer algo que ela queria, não me pergunte por que alguém estava tirando uma foto daquilo. Eu tenho esse lado meu que eu tento segurar em momentos sérios. Eu continuo tentando me lembrar de como era minha mãe, só pra eu saber o que ela faria se fosse colocada em uma situação como essa. Bem, sejamos realistas, minha mãe não seria colocada em uma situação como essa, aposto que ninguém na história do mundo já foi colocado em uma situação como essa. Eu realmente posso pegar conselhos da internet sobre isso, né?!
Mas eu também sei que o que meu pai está dizendo é certo, minha mãe sempre lutaria pelo que ela acreditava e realmente não desistiria por ninguém. Mas minha mãe também sabia quando parar, ela sabia que não podia vencer todas as batalhas e que havia momentos em que ela tinha que ser a pessoa maior e dar um passo atrás. Assim como ela, eu acho difícil ceder e ver que o meu jeito não é o jeito que vai ajudar as pessoas, há muitas outras batalhas que vou lutar e definitivamente não vou desistir por amor nem dinheiro, mas dessa vez não era a hora.
Eu desisto e digo ao meu pai que ele precisa esperar do lado de fora enquanto eu pego os cadernos, ele diz que estou fazendo a coisa certa antes de sair do quarto. Assim que soube que ele não voltaria, eu empurro minha cômoda pra fazê-la se mover, eu realmente não pensei na hora que eu precisaria mover essa coisa de novo! Depois de mover com sucesso a cômoda, depois de quase machucar minhas costas várias vezes. Eu levanto a tábua do chão, revelando os cadernos e livros escondidos. Eu os pego nas mãos, olhando pra porta, ainda não tinha certeza se essa era realmente a coisa certa a fazer, mas não tive tempo suficiente para pensar nisso de novo. Decido não dar todos os cadernos pra ele e pego três, colocando a tábua do chão de volta com cuidado, mas decido não mover a cômoda, essa também seria uma batalha que eu perderia se tentasse de novo.
Eu vou até a porta, entregando os cadernos, os cadernos do Reece estavam com os que eu dei pro meu pai. Eu não sabia que tipo de informação ele tinha descoberto, espero que nada muito incriminador.
"Você está fazendo a coisa certa, Érica, o que está dentro disso vai realmente nos ajudar a proteger melhor a cidade", meu pai sorri, segurando os cadernos com força nas mãos, provavelmente sabendo o quanto eu queria arrancá-los de suas mãos. "Agora você vai dormir um pouco", ele sorri, colocando um beijo na minha cabeça antes de se virar para sair, mas eu rapidamente o interrompo antes que ele pudesse sair completamente.
"Só por favor, certifique-se de manter a Marta fora disso", eu digo, segurando a porta enquanto falava, ele balança a cabeça com um sorriso antes de me deixar completamente sozinha.
Sem saber do problema que eu estava prestes a causar para a Marta... e para o meu futuro eu.