Capítulo Trinta e Oito
Mandei uma mensagem pro Ethan e falei pra ele que eu precisava MUITO conversar com ele e com o meu pai, que não era sobre a cidade nem fronteiras, mas sim sobre uma parada de família. Eu sei que o Ethan ia vir de qualquer jeito, mesmo que o meu pai falasse pra ele não vir. O problema era se o meu pai ia vir, ele podia achar que era alguma armadilha ou algo assim. Só preciso me preparar pra tudo, pensando nisso, começo a ir em direção à fronteira.
Foi a primeira vez que fiz essa jornada sozinha, ainda bem que já tinha feito algumas vezes, então não ia me perder. Quando chego na fronteira, vejo o Ethan e só o pai esperando por mim do outro lado. Mando um sorriso pra eles quando um dos guardas da fronteira vem na minha direção.
"O Alpha informou a gente que você vai conversar com a sua família, a gente vai ficar ali longe o suficiente pra não ouvir a conversa de vocês, mas perto o bastante pra, se acontecer alguma coisa, a gente estar lá pra te proteger", ele me informa com uma reverência, eu sorrio, mas sabia que eles não precisavam me proteger do Ethan ou do meu pai.
"Muito obrigada", eu sorrio antes de ir pra onde o meu pai e o Ethan estavam, me certificando de não cruzar nenhuma fronteira.
"Viemos assim que recebemos a sua mensagem, tá tudo bem?", o Ethan pergunta todo preocupado antes que eu pudesse impedir, o meu pai por outro lado não parecia muito feliz.
"É, qual é, a gente tem coisas importantes envolvendo a cidade que precisa resolver. Você saberia disso se não tivesse nos abandonado pra viver com a sua parceira", o meu pai resmunga, cruzando os braços, isso meio que me chateia, pra ser sincera.
"Dá pra parar com isso, por favor?! Você acha mesmo que eu quero ficar longe da minha família, morando em um lugar onde eu não conheço ninguém, tirando a Marta e o Reece? Eu só quero acordar de manhã, descer as escadas e ver vocês dois brigando de ovo", eu digo, com lágrimas nos olhos enquanto falo, não sabia que ia ficar tão emotiva, a minha mãe nem chegou ainda "Eu quero que a minha vida volte ao que era antes, mas você, pai, tornou isso impossível pra mim. Então, por favor, não me trate com frieza e pare de me tratar como uma traidora", continuo, mas viro pra poder enxugar as lágrimas idiotas que eram as verdadeiras traidoras aqui, respiro fundo antes de me virar de novo.
"Então volta pra casa, atravessa a fronteira. Ninguém na cidade vai te julgar ou culpar", o meu pai fala, estendendo a mão, como era grande a vontade de pegar a mão dele, mas eu não peguei.
"Eu não posso e você sabe disso, eu estou com o Cody, sou parceira do Cody. Pra ser sincera, eu amo o Cody", eu digo, que foi a primeira vez que eu falei que amava o Cody, mas parecia certo e eu sabia que sim.
"Como você pode amar uma coisa dessas?", o meu pai pergunta, o que, pra ser sincera, me irritou pra caramba.
"O Cody não é uma coisa, nenhuma das pessoas da matilha são coisas, talvez se você desse uma chance pra eles, você veria isso", eu digo, defendendo o Cody e toda a matilha, não podia ficar ali ouvindo ele falar mal das pessoas que eu me importo "Mas estar com o Cody não é o motivo de eu estar aqui, como eu disse antes, encontrei a minha mãe, bem, mais ou menos, eu sabia que ela morava na matilha e só, mas agora eu tenho o endereço dela", eu digo, o que imediatamente faz a cara do Ethan cair, acho que todos nós estávamos secretamente torcendo pra que ela não estivesse lá.
"Entendi o que tá rolando, você e a sua mãe conversaram e agora estão aqui pra tentar nos atrair pra uma armadilha. Viu, eu falei que não devíamos confiar nela", o meu pai disse, se virando pro Ethan enquanto apontava pra mim, não era isso, mas foi uma boa ideia.
"Não é nada disso, sim, eu tenho o endereço dela, mas não falei com ela. Achei que era algo que deveríamos fazer em família, a gente a perdeu juntos, a gente encontra ela juntos", eu digo, o que pega o meu pai de surpresa "Confia em mim, pai, eu não quero te enganar com nenhuma armadilha", eu digo enquanto a atenção deles se volta de mim pra trás de mim, eu me viro e vejo o Cody vindo na minha direção.
Ele me manda um sorriso tranquilizador, indo um pouco pro lado, e, olha só, a minha mãe tava vindo. Evito contato visual e me viro pro meu pai e pro Ethan, o Ethan parecia que ia vomitar e o meu pai, ele tinha uma expressão indecifrável, eu realmente não sabia o que estava se passando na cabeça dele agora.
Eu vou pro lado um pouco, então fico perto do Ethan, enquanto o Cody vem ficar bem do meu lado. Ele pega na minha mão, dizendo que tava tudo bem, eu olho pra ele sorrindo antes de me virar pra olhar pro Ethan. A minha mãe para completamente antes da fronteira, essa é a maior proximidade que tivemos desde que ela foi embora.
Ela não tinha mudado muito, o cabelo ainda era o mesmo, o rosto tinha mudado um pouquinho com a idade e a roupa. De jeito nenhum ela ia usar roupas que pareciam tão caras, o novo marido dela deve estar nadando na grana!
"Ah, meus gêmeos, como vocês estão crescidos", ela sorri, olhando pra mim e pro Ethan enquanto fala, eu olho nos olhos do Ethan e sabia que ele ia chorar, talvez isso seja demais pra ele.
"Você teria visto eles crescerem como uma mãe deveria fazer, mas você decidiu que eles não eram bons o suficiente pra você ficar", o meu pai diz, provocando ela, espero que ela não estivesse esperando nenhum comitê de boas-vindas.
"Richard, você sabe que não é verdade, eu amava e ainda amo muito os gêmeos. Eu não queria ir embora, mas realmente não tinha outro jeito", a minha mãe diz, tentando se defender, pra constar, os nossos pais, quando a gente tava crescendo, costumavam nos chamar de gêmeos, então vocês podem ouvir isso bastante.
"Ah, essa é a piada mais engraçada que eu ouvi desde, bem, essa aqui fez uma boa na outra semana", o meu pai diz, apontando pro Cody, que imediatamente ficou tenso.
"Eu vou deixar essa pra lá, eu sei que você tá passando por umas paradas agora", ele diz, olhando nos olhos do meu pai antes de desviar o olhar.
"Por que você deixou a gente acreditar que você morreu, mãe?", o Ethan pergunta, interrompendo uma discussão que inevitavelmente ia acontecer, a minha mãe suspira, olhando pra baixo antes de falar.
"Eu realmente falei sério quando disse que não queria ir embora, por que eu ia querer deixar os meus dois filhos e o homem com quem eu me casei? Mas vocês não vão entender o sentimento que eu tenho quando estou perto do Raymond, é o pior sentimento do mundo quando eu preciso ficar longe dele por muito tempo, é como se alguma coisa estivesse me cortando fundo. A única de vocês que ia entender esse sentimento é a Érica, agora ela encontrou o parceiro dela", ela diz, olhando pra mim e pro Cody, mais uma vez evito contato visual com ela e viro a minha atenção pro chão.
"Antes de ir, vocês não vão acreditar na quantidade de horas que eu passei planejando levar vocês dois comigo. Foi só na noite anterior que eu decidi deixar vocês com o pai de vocês, eu não podia tirar a vida inteira dele em um segundo. Então, por mais que tenha me machucado muito ir embora, eu fiz isso por vocês", ela diz, mas eu balanço a cabeça, eu não tava acreditando em nenhuma palavra que ela tava falando.
"Você só sabe falar de você, de como te machucou ir embora, de como foi difícil pra VOCÊ. Você nem para pra pensar no trauma que você causou na gente, você só está interessada na sua nova vida com o seu parceiro, e isso é algo que eu não entendo. Porque quando eu tiver filhos, não vai ter nada nesse planeta que me faria abandoná-los, porque eu sei como é isso", eu digo, olhando nos olhos da minha mãe pela primeira vez nesse encontro "Você quer saber tudo que aconteceu enquanto você tava vivendo a vida com a sua nova família? O pai quase se matou procurando por você. Ele passou cada hora que podia procurando, passou semanas longe de casa só tentando trazer a nossa mãe de volta. O Ethan agora tem estresse pós-traumático e ansiedade intensa por sua causa, ele se preocupa em garantir que nenhum membro da família dele desapareça de novo, ele não consegue dormir à noite a menos que faça várias contagens da gente só por precaução. Então você vai ficar aí e dizer o quanto foi difícil pra VOCÊ lidar com isso, você nunca vai saber como é isso", eu digo, o Cody pega nos meus dois braços pra eu não ir pra cima dela, era só o que eu queria naquele momento, uma parte de mim tava com tanta raiva e eu podia sentir que ia explodir e não conseguia parar.
"É o seu lado loba, só tenta se acalmar", o Cody me mandou uma mensagem mental, respondendo a minha pergunta, se acalmar era mais fácil falar do que fazer.
"Você é filha do seu pai", o meu pai sorri do meu lado, eu meio que ignorei esse comentário por enquanto.
"Talvez isso não tenha sido uma boa ideia, talvez fosse melhor quando todos nós achávamos que você tinha morrido, mas, de novo, a pessoa que a gente conhecia morreu, tudo que eu vejo é uma vadia sem coração na minha frente!", eu digo antes de sair andando e voltar pra matilha, eu não precisava desse estresse na minha vida.
O Cody logo me alcança, pegando na minha mão, eu não falo e só continuo a minha jornada pra nossa casa. Quando chegamos lá, a Marta e o Scott estavam do lado de fora como se estivessem esperando.
"Como foi?", ele pergunta quando chegamos no portão, eu só balanço a cabeça enquanto o Cody explica um pouco "Bem, você tem que ir conversar com ela, essa é a única forma de resolver a bagunça com a cidade e com a matilha", ele diz quando abro o portão, mas quando ele diz isso, eu congelo, me virando pra olhar pra ele.
"Se não fosse por você e pelas mentiras que a sua parceira contou pra você, a gente não estaria nessa bagunça. Você causou essa bagunça, você que resolva", eu digo, olhando nos olhos dele, a Marta fica bem na defensiva do lado dele.
"Eu não menti sobre nada, eu contei pro Scott o que aconteceu no lago naquele dia e contei o que o seu ex-namorado tentou fazer!", ela grita, tentando vir pra cima de mim, eu só dou um sorriso, olhando nos olhos dela enquanto vou.
"Mas você contou pra ele o porquê?", eu pergunto, olhando pra ela quando ouço o Reece sair da casa dele atrás de mim, a Marta olha pro Scott e depois pro chão "Eu não acho que você contou, você quer que eu explique, prometo que não vou deixar nenhum detalhe de fora?", eu pergunto, olhando pra ela com uma cara de nojo, os sentimentos que eu senti quando aconteceu apareceram na minha mente de novo.
"Os fatos vão ser confirmados por mim", o Reece diz, ficando bem do meu lado, a Marta parece aterrorizada, olhando pra mim e pro Reece.
"Do que vocês estão falando?", o Scott pergunta, olhando pra gente e depois pra Marta, que tava tentando pegar na cabeça dele e puxá-lo pra longe.
"Ah, Scotty-boy, parece que você não conhece a sua parceira tão bem quanto pensa", eu digo, sorrindo docemente pra ele.