Capítulo 20: O Café
O Café
Como é que eu ia saber se ele vai levar a sério o lance de me conquistar? Ele falou que ia me conquistar em particular. Que ninguém ia saber ou reparar. Não sei se vou acreditar nele, mas como é que eu vou saber se ele é sincero se eu não deixar?
Mais um dia passou, e parece que ele não tá fazendo nada. Bem, ele faltou ontem e antes de ontem. Sei que ele tá ocupado, e não vou ser eu a tomar a iniciativa mesmo querendo e sentindo falta dele – sim, eu sinto falta dele. Até aceitei meus sentimentos, parece que meu dia não fica completo se eu não ver ele. Estranho, mas é assim que eu me sinto.
Segunda de manhã, a Reina me contou que o Linus viu ela na ala norte, e pediu meu número. Conhecendo a Reina, claro que ela deu. E agora, tô que nem uma tonta esperando uma mensagem ou ligação.
Normalmente não uso meu celular, a não ser que seja meus pais ou a Reina – quando ela não me acha. Mas agora, mais uma mudança acontece. Não sei há quanto tempo tô encarando a tela do meu celular. Soltei um suspiro profundo e a Nena parece que percebeu.
"Aconteceu alguma coisa?" ela perguntou enquanto fechava o livro.
Balancei a cabeça e comecei a arrumar minhas coisas. "Já tô com saudade da Tix e da Evette. Quando elas voltam pra cá?" perguntei pra mudar de assunto.
Ela deu de ombros. "Não sei. Elas falaram que vão voltar daqui a uma ou duas semanas," ela respondeu.
A Trix e a Evette foram pra fora pra representar a escola no desfile de moda. Como os pais delas fazem parte de uma marca de roupa, elas foram obrigadas a desfilar e fazer a exposição. Elas são populares, por isso, quando tão com a gente, não ficam muito tempo. Porque elas sabem que eu e a Nena não curtimos muita atenção.
Não curto quando descobrem que eu sou só uma bolsista, uma pessoa normal. Bom, também mereço respeito, e sei que gente rica – eles são bons em julgar, não todos, mas quase.
Depois da nossa última matéria, eu e a Nena fomos pra lados opostos. Eu fui pro meu trabalho, enquanto ela ficou no dormitório dela ou tentando encher o saco do tio dela – aquele que acredita que o quarto do palácio na Dinamarca existe de verdade.
Fiquei chocada quando vi o Linus limpando a mesa perto da máquina de karaokê. Parece que ele sentiu que alguém tava chegando quando a campainha tocou. Depois, ele levantou a cabeça e parou de limpar. Aí ele sorriu pra mim.
Desviei meu olhar na hora e olhei pros lados pra ver se alguém tava vendo aquilo, mas suspirei aliviada quando vi que não.
Mordi o lábio inferior pra não sorrir. Sei que ele é charmoso, mas não sou fácil – bom, posso parecer exagerada, mas não sou.
Passei por ele e fui direto pro balcão. Prendi meu cabelo num coque e coloquei a touca. A Kara não chegou ainda, então vou trabalhar no balcão sozinha. A dona Dory ainda tá fora do país.
Lembrei que a Kara me falou outro dia que eles iam trabalhar em um trabalho de pesquisa na matéria de Ética.
Tô colocando os guardanapos marrons nas colheres quando alguém colocou uma xícara do meu café favorito do meu lado. Levantei meu rosto devagar.
"Oi," ele cumprimentou.
Não sei, mas acho que tô corando porque sinto minhas bochechas esquentarem. E onde ele arrumou o café? Deixa pra lá.
Só balancei a cabeça e voltei pro que eu tava fazendo.
"Um café pra uma gata," ele disse que quase me fez engasgar.
"Por favor, fica longe?" perguntei, sussurrando e olhando pros clientes. "Eles vão ver a gente," adicionei.
Ele só piscou pra mim e foi embora. Balancei a cabeça e apertei minhas bochechas.
Deus, ele é inacreditável.
Depois de uma hora, a Kara me acompanhou e graças a Deus que o Linus pareceu seguir o que eu tinha falado antes. Não quero que a Kara descubra sobre o lance de me conquistar – a Reina já foi o suficiente. Se ela descobrir, não posso fazer nada. Mas por enquanto, é bom que ela não saiba de nada.
Quando meu turno tava quase acabando, dei a chave pra Kara, porque ela disse que ia ficar mais um tempinho, já que tinha alguns clientes lá dentro. Enquanto o Linus… bom, ele foi pra casa mais cedo do que o meu horário normal.
A Nena me falou que ele tá treinando. Ele luta na sexta. Conhecendo a Nena, ela é fã de luta underground. Claro que ela sempre vai estar por dentro disso. Ela também tá me perguntando se quero ir assistir meu crush – como ela sabe que eu tô afim dele? Sou muito óbvia?
Suspirei quando comecei a andar na rua.
Mais um dia chegou ao fim. O tempo voa. Ontem a gente tava só se virando pra começar a vida na faculdade e agora estamos curtindo, e um monte de coisas aconteceram.
Sei que ele é sincero, que gosta de mim, só que tenho medo. Ele escolheu me conquistar ao invés de namorar. Ele quer me perseguir. E com isso, já aceitei os sentimentos dele, mas quero experimentar o que significa conquistar de verdade. Como os caras dão flores pra uma garota? Como é a sensação quando vocês dois ficam mandando mensagem um pro outro ou ligando um pro outro? Aquelas coisas típicas de conquista.
Hmmm… por que não convido ele pra visitar minha cidade natal? Se ele topar, ele é sincero, e não vou mais duvidar. Mas se ele falar que não, talvez eu pare com essa coisa de conquistar.
Você sabe se um cara é sincero com você quando ele quer conhecer seus pais. Mas como ele vai se interessar se não pode me mandar mensagem e tal. Sei que tô exagerando nas coisas, mas ninguém pode me culpar, isso tá acontecendo comigo pela primeira vez. E às vezes, só confio nos meus sentimentos pra pesquisar no Google. Sim, tô pesquisando no Google, e quase me dá ansiedade, então nunca mais vou perguntar pro Google sobre meus sentimentos.
Ele se atreve a dizer que vai me conquistar, mas não aparece em lugar nenhum? Que tipo de conquista é essa? Isso é conquistar? Resmunguei enquanto chutei a pedrinha com meus tênis brancos.
"Você quer que seja particular e agora tá resmungando?"
Levei um susto quando ouvi a voz dele e desviei meu olhar pra direita na hora. Ele tava encostado na parede e tava no escuro. Quase não vejo o rosto dele, mas reconheço a voz.
"Que tá fazendo aí? Quase me matou de susto," falei enquanto batia no meu peito.
Ele se mexeu e saiu da escuridão; a silhueta dele duplicada nas árvores. "Tô te esperando, e você sempre passa por aqui, então esperei por você. E esse é o único lugar que não tava iluminado por aqueles postes," ele disse.
"Não faz isso de novo. E se você for um viciado, um estuprador ou sei lá o quê?"
"Aí, claro que não vou deixar nada acontecer com você. Vou te proteger, prometo," ele falou, e acho que corei e aquelas borboletas no meu estômago começaram a desmoronar.
Só revirei os olhos, mesmo que ele não veja, e continuei andando. Ia atravessar quando ele pegou na minha mão esquerda.
"Espera aí."
Puxei minha cabeça pra trás na hora. "Nossa, e se alguém ver isso?"
"Desculpa. Só quero te desejar boa noite e te ver amanhã, Becca," ele disse e saiu correndo enquanto me dava um beijo suave na bochecha esquerda e me deixou perplexa.