Capítulo 8: Sentimento Estranho
| Sentimento Estranho |
A FACULDADE é *hard*, tipo, *hard* mesmo, principalmente quando você não se encaixa no mundo de uma família rica. Não dá pra acompanhar as conversas deles, saca? Tipo, eles falam dos pratos *enoooormes* que comeram num restaurante chique, das viagens pro exterior, das modelos e celebridades que encontraram, e por aí vai. Aqueles assuntos que você só vê na TV. Tentar entrar na conversa é tipo, sei lá, parecer que você tá fora do rolê, saca?
Tomara que eu e a *Reina* estejamos na mesma matéria. Com ela, o dia não fica chato, porque ela te ensina um monte de coisas que ela sabe, e você até tenta fugir, se não conseguir acompanhar o nível da parada. Mas claro, estar com a *Reina* sempre deixa meu dia melhor. Eu já me acostumei. Só que… até agora, sabe? Até entrar na facul.
Suspirei e apoiei o queixo na palma da mão. Olhei pra lousa, limpa e brilhante, e quase vi meu humor refletido ali – sem graça e *boring*.
Sorte que parece não ter ninguém acomodado aqui. Apesar de hoje ser só o segundo dia, eu ainda tô na esperança de que isso dure. Tudo o que eu quero é uma vida tranquila enquanto tô na faculdade. Sem *bullies* no meu caminho, *extreeemamente*.
Ia fechar os olhos e tirar uma soneca enquanto esperava o professor, quando me incomodei com o silêncio repentino. Levantei a cabeça e virei as costas pra porta.
H-H-Ele… beleza, somos da mesma turma nessa matéria. Que curso ele faz, mesmo? Nunca o vejo nas outras aulas. Será que ele é aluno fora da curva, tipo?
Esse cara chama a atenção, viu? Ele consegue transformar a bagunça em silêncio total. Tipo, *shiii*. Por que parece que tudo está em câmera lenta? Que parada é essa desse cara? Todo mundo olhando pra ele, mas ele continua sentado, olhando pra todo mundo.
Segundos depois, o professor chegou. E… começou meu dia. Mas a imagem daquele cara ficou no canto da minha mente. Tipo, *what the*? Essa não sou eu. Eu não deveria ficar pensando em ninguém – principalmente em um garoto.
Mas você sabe que ele não é *só* um garoto, disse a outra voz na minha cabeça. Dei um tapa leve na bochecha. Acorda, *Becca*. Se liga!
Não tenho com o que me preocupar nos estudos, consigo acompanhar. O problema é… esse cara não sai da minha cabeça. Essa sensação estranha – o estômago quase revirando, como se tivesse alguma coisa lá dentro, no momento em que eu o vi. A mesma coisa acontece quando a gente esbarra no café, o toque dele me dá choque.
Por que eu não consigo parar de pensar nele? Aqueles momentos repentinos ficam repetindo na minha mente. Quase sinto uma explosão de emoção e meu coração acelera quando ele tá por perto. Ah, isso não é bom.
Para de pensar nesse cara, *Becca*!
Para. Para. Pa— “Merda, desculpa”, peço desculpas quando esbarro em alguma coisa – especificamente, em alguém. E por que eu estou encarando o cara que acabou de entrar na minha mente?
“De novo?”, murmurei, mas ele só levantou as sobrancelhas e foi embora. Fiquei parada, sem saber o que fazer, enquanto via a silhueta dele sumir de vista. As batidas do meu coração ficaram mais rápidas.
Com todos esses pensamentos me atormentando, eu preciso da *Reina*. Preciso compartilhar isso e talvez pedir ajuda. Não é que eu não saiba o que está acontecendo, só preciso de uma confirmação.
MINHA AULA acabou, mas o quebra-cabeça continuava ali. Apesar de tudo, eu não sou boba de não saber o que estou sentindo.
A aura deliciosa da *Kara* me cumprimentou. “Boa tarde”, ela disse. Sorri e respondi.
“Como foi a aula?”, ela perguntou enquanto limpava a bancada.
“Tranquila. E você?”, perguntei.
“Mesmo. Hmm. Você sabe alguma coisa sobre o Príncipe da Dinamarca? Já o viu?”, ela perguntou, do nada.
Fiz uma careta. “Príncipe?” Por que ficam procurando o príncipe? “Não. Nem sei como ele é. Por quê?”
“O boato de que o Príncipe da Dinamarca está aqui se espalhou como fogo, mas ninguém sabe como ele é”, respondeu ela, pegando uma xícara e enchendo-a com um *latte* de caramelo.
Ri. “Pra que serve a internet? É só pesquisar”, sugeri.
Ela coçou a sobrancelha esquerda e entregou a xícara para a garota que estava na frente. “Esse é o problema. Só sabemos o nome dele, mas não sabemos como ele é. Ele não tem fotos na internet.”
Misterioso.
“Qual o nome dele?”
“Príncipe *Damian*. Ele é o príncipe herdeiro, o próximo no trono. O futuro Rei da Dinamarca. Um ano mais velho que a gente, faz Administração – a mesma matéria que você. Mas ele pode estar num ano mais avançado. Quem sabe? Ou talvez ele já tenha feito mestrado ou sei lá.”
“*Damian*?”
“Sim, só *Damian*”, ela confirmou, a decepção visível nos olhos.
Ah, talvez ele escolha esconder a identidade. Ele quer continuar misterioso. Se você é uma pessoa famosa, é claro que precisa esconder todas as informações. Veja bem, é o príncipe. Talvez ele queira ter uma vida tranquila, sem *paparazzi* nem nada. Vamos nos contentar com essa pequena informação. Você não precisa cavar mais fundo. Se eu estivesse no lugar dele, claro, eu também me esconderia.
“Você vê, a geração de hoje é diferente, os fofoqueiros estão por toda parte. Não se preocupe com isso. Vamos nos concentrar no que estamos fazendo, ok?”, falei.
Ela suspirou fundo. “Você tem razão”, respondeu, e continuou no que estava fazendo.
Eu gosto do jeito que o Príncipe pensa. Vai beneficiá-lo muito. Ser misterioso tem um jeito de criar fantasia na mente das pessoas ao seu redor. *Kara* e o resto, o desejo delas de desvendar a verdade por trás do príncipe é como um presente inegável.
Ser misterioso desperta a curiosidade – e, como humanos, somos naturalmente curiosos. Somos atraídos pelo desconhecido.
As mulheres começam a imaginar todo tipo de coisa sobre o príncipe, e é natural.
TERMINO meu turno um pouco tarde porque o Café estava cheio de clientes. Quando cheguei em casa, encontrei a *Reina* ocupada com o celular.
Fiz uma careta. “Ocupada, hein?”
Ela levantou a cabeça para me ver. “Não consigo achar meu príncipe.”
Pela enésima vez, a palavra príncipe apareceu. “Olha. Ele não quer se mostrar, então por que não para de pensar nele?”
“Pela primeira vez na minha vida, eu quero conhecer um príncipe”, respondeu ela, fazendo beicinho enquanto desviava o olhar para a tela do celular. Fui na direção dela e sentei ao lado. Estiquei o pescoço – me aproximando dela para ver no que ela estava ocupada.
Príncipe da Dinamarca – estava escrito.
“Não consegue achar nenhuma foto também?”, perguntei, enquanto me movia alguns centímetros para perto.
“Infelizmente, não… espera, como você sabe?”, perguntou.
“A *Kara* me contou”, respondi.
Levantei e fui em direção à minha cama, começando a desamarrar o tênis. “*Reina*, tenho uma pergunta”, comecei, ainda de olho no que eu estava fazendo.
“Hmm…”, respondeu ela.
“Por que alguém se sente estranho quando conhece uma pessoa, pela primeira vez? Tipo, quando essa pessoa encosta e sente um choque…”, continuei.
“Espera. Espera. Você não tá falando do que você sentiu, tá?”, ela me interrompeu.
“Não!”, neguei, mas minha voz parecia contradizer o que eu disse.
Ela apertou os olhos pra mim, como se soubesse o que eu estava pensando. “Fala a verdade, *Becca*… você tá afim de alguém?”, perguntou.
“Claro que não!”, respondi, imediatamente. “Como eu ia estar? Eu tô focando nos estudos, você sabe.”
“Sentimentos estranhos… choque… não me diga que é só uma pergunta aleatória que o professor quer que você responda. Essa não é você, *Becca*. Você não precisa da minha opinião se tiver perguntas relacionadas aos seus estudos. Essa não é você, perguntando por que você se sente estranha perto dele…”
“Uau. Para aí, quem disse que é ele?”, perguntei.
Ela deu de ombros e voltou ao que estava fazendo. “Ah, a *Becca* tá afim de alguém…”, cantou e riu.
Joguei um travesseiro na direção dela, mas ela pegou no ar. “Seja o que for, eu não tô afim de ninguém.”
“Vai, nega isso, espera pra ver. Ou você já reconheceu, mas só tá escolhendo negar. Nossa, nossa, *Becca*, isso é só o começo. Mal posso esperar pra ver você se ferrando porque começou a gostar de alguém”, ela disse como se fosse uma maldição.
Não! Não pode ser. Eu não vou deixar. Nunca.