Episódio 7
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SAM
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A gente chega no templo e juro que já tô exausta. Minha bunda dói de tanto sentar. Levamos uns bons 45 minutos pra chegar aqui. Tipo, não tinha outro templo por perto que a gente precisava vir até aqui, mas não vou reclamar. A gente sobe as escadas que levam pra área de oração.
Igual a gente, a maioria das pessoas já tava aqui, sentadas com as mãos juntas, falando umas coisas que eu não entendi nada. A Payal tira as sandálias e levanta um pedaço do sari pra cobrir a cabeça e eu faço o mesmo.
A mãe então toca o sino e a gente entra.
Eles oferecem a bandeja de oferendas e fecham os olhos pra rezar. Depois, o padre veio passar um pó vermelho na cabeça do ADI e na nossa também. Aí ele abençoa eles.
"Payal, por favor, traz os materiais pra gente distribuir", a mãe manda e a Payal concorda rapidinho, enquanto a Charu segue ela.
"ADI, preciso muito dar uma olhada nesse lugar", eu falo.
Ele olha em volta e depois volta a me olhar.
"Não sei, Sam. Tá bem cheio hoje, porque ouvi dizer que vai ter um festival logo depois das orações."
"Mas eu trouxe minha câmera", eu faço beicinho. "Devia ter ficado em casa", finjo tristeza.
"Uma hora, só isso que você tem", ele fala com voz firme e eu faço a continência, o que faz a gente rir. Agradeço a ele, com um beijo na bochecha, antes de sair correndo.
Meus olhos passeiam pela área e eu vejo a mãe do ADI e a Payal de longe, dando roupas e comida pros menos favorecidos, sentadas do lado de fora do templo.
Eu me viro e continuo andando, tirando fotos de tudo e qualquer coisa que me fascina. Umas pessoas estavam apontando pra mim e cochichando, enquanto outras fingiam que eu não existia. Não tô nem aí.
"Quem é ela?", ouvi uma mulher perguntando pra outra, mas eu agi como se não estivesse ouvindo o que elas estavam falando.
"Ouvi dizer que ela é a nova esposa do ADI, de fora."
A outra mulher engasga. "Baap re. (Meu Deus)", não entendo o que significa, mas... "Então a Ganga deixou o único filho dela casar com uma estrangeira? Que vergonha. Como ela vai manter a honra e as tradições da família? A Ganga cometeu um erro muito grande, te digo", ela conclui e eu suspiro, me sentindo corada.
"Mas ouvi dizer que ela é da Índia, só foi criada fora", a primeira mulher acrescenta.
"E daí que ela foi criada fora? Ela não é humana como todos nós?", ouvi alguém falar.
"Ela não é como a gente. Espero que o ADI volte a si e perceba que tá cometendo um erro muito grande. Tem um monte de mulheres bonitas aqui na Índia com quem ele podia ter casado, se quisesse mesmo. Então não sei por que ele tá tão obcecado em casar com uma estrangeira. Por isso que nunca se manda filhos pra fora. Eles vão pra lá e voltam achando que sabem de tudo", a primeira mulher zomba e elas vão embora.
Não sei o que eu tava pensando em vir pra esse lugar. Quem eu tava enganando? O estereótipo é demais. Devia ter ouvido a mãe. De qualquer forma, o que tá feito, tá feito e não posso mudar nada.
Sou tirada da minha viagem por cantos e gritos intensos. Vejo uma multidão reunida de longe e todo mundo tá cantando, enquanto umas meninas estão dançando com tudo. Eu vou em direção à multidão e me empurro pro centro.
No meio da multidão, num chão de concreto, tá a mulher mais linda que eu já vi. Ela tá cantando e dançando, mexendo os quadris, o corpo e as pernas no ritmo da música. Rapidinho pego minha câmera e tiro umas fotos dela.
Um grupo de homens tá batendo nos tambores enquanto ela continua cantando e dançando. O cabelo dela voando pra todo lado.
"A Archisha é uma dançarina linda", uma menina elogia.
"Com licença, você conhece ela?", pergunto na hora e elas concordam.
"Ela dança no templo em várias ocasiões. Ela é tão bonita e bem culta e educada também."
Foi aí que caiu a ficha. Culta? Educada? Acho que finalmente encontrei minha guru. Um sorriso de satisfação aparece nos meus lábios.
Entro na multidão pra bater palmas pra música. Esperei até ela terminar, porque queria muito falar com ela. Assim que a música acaba, ela junta as mãos e diz obrigado, enquanto a multidão se dispersa. Pego isso como meu sinal.
"Boa tarde, moça", cumprimento e ela sorri pra mim.
"Boa tarde", ela responde, enquanto guarda as coisas dela.
"Eu, hum... preciso muito falar com você", continuo e ela concorda.
"Meu nome é Sam, a propósito", estendo a mão e ela ia pegar, quando a voz do ADI surge no ar.
"Sam", ele corre na minha direção e me abraça. Percebo que as bochechas dela ficam vermelhas. "Achei que tinha acontecido alguma coisa ruim com você", ele fala.
"Ah, qual é, ADI. Não sou criança", eu protesto.
"Mas eu falei que você só podia ficar uma hora. Sabe o quanto eu tava preocupado? Vamos, todo mundo tá te esperando. Vamos", ele pega na minha mão e me puxa na direção dele.
"ADI, espera, preciso falar com ela", eu falo, tentando me soltar.
"Falar com quem?", ele pergunta e eu me viro na direção de onde ela tava, mas ela não tava lá. Ela sumiu. Como ela se moveu tão rápido? Ela é algum tipo de fantasma?
Aponto pro lugar onde ela tava. "A moça."
"Para de falar besteira, Sam. Que moça?"
"Não me olha como se eu tivesse enlouquecendo, tinha uma moça ali. Ela tava dançando agora há pouco e eu precisava da ajuda dela, mas você veio e estragou tudo, agora ela sumiu. Espero que esteja feliz agora. Mxxxm", estalo a língua e saio andando, mas ele corre atrás de mim até me alcançar.
"Desculpa por ter interrompido."
"Não esquenta. Ela já foi. Graças a você", digo revirando os olhos.
"Não fica assim. Eu nem sabia que você tava falando com ela. Quem é ela, de qualquer forma?"
"Ela é dançarina e eu precisava da ajuda dela pra ela ser minha guru", digo com a cara fechada.
"Guru?"
"Sim, ADI, a Payal insistiu que eu arrumasse uma pra ela me ajudar a impressionar sua mãe e aprender a cultura", explico enquanto começamos a andar devagar.
"Você não precisa impressionar minha mãe. Eu vou casar com você, ela aprove ou não o relacionamento", ele acrescenta.
"E esse é o ponto. Não quero um casamento em que eu fique em conflito com minha sogra. Goste ou não, ela é sua mãe, ADI, e eu quero que ela goste de mim, assim como minha mãe gosta de você, e é por isso que eu aceitei o desafio, lembra?"
"Sim, lembro e sei que você vai impressioná-la. E acredito que você vai encontrar alguém pra te ajudar, não se preocupe. Posso te ajudar a procurar, se você prometer não fazer mais essa cara feia", ele implora e eu dou uma risadinha.
"Prometo. Obrigada, ADI", digo e dou um abraço nele.
"Bom. Agora vamos pra casa. Eles estão nos esperando."
"Ok", pego na mão dele e vamos na direção de onde o carro tá estacionado. Espero muito encontrar uma guru logo, porque o tempo tá acabando.
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Amor Com Benefícios
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