Capítulo 16
PELO CORAÇÃO DE AMAH.
Eu decidi que vou dar um jeito de pegar meu dinheiro do Luís, depois arranjar um lugar só meu e vazar pra um lugar desconhecido, onde o Luís nunca vai me achar.
De lá, eu vou começar minha vida de novo, começar a correr atrás da minha matrícula e entrar na escola.
Qualquer grana, tipo uma gorjeta de um cliente ou qualquer presente em dinheiro que eu conseguir daqui pra frente, vai pra minha conta nova.
Depois de mais uma semana, minha colega, que eu usei o telefone dela na semana anterior pra ligar pro Phillip, me contou que ela mandou, sem querer, pro número do Phillip que já estava discado e que ele atendeu, aí ela desligou na hora.
Ele ligou de volta perguntando quem era, e ela desligou de novo e decidiu vir me contar primeiro.
Eu falei pra ela que ele não era mais importante. Que era pra ela tentar despachar ele toda vez que ele ligasse.
Na mesma semana, eu criei coragem pra ir falar com o Luís, exigindo meu dinheiro, porque eu queria começar a escola.
Eu falei pra ele que a inscrição já tinha saído e que eu precisava fazer a minha logo, antes que acabasse.
Ele falou que eu precisava trabalhar mais alguns meses, pra que a grana desse pra tudo que eu ia gastar na escola.
Ele disse que o meu dinheiro na conta dele não era suficiente pra tudo que eu falei e que não era que ele não queria me dar tudo, mas que eu ia torrar se ele me desse e ficasse na minha mão.
Ele pediu pra eu trabalhar mais pra juntar mais dinheiro pra escola.
Eu quase cuspi na cara dele por causa dessas coisas, mas me segurei.
Eu falei pra ele que eu queria um celular novo, porque o velho que ele quebrou tava todo detonado e não tinha como consertar.
O Luís negou na lata. Ele falou que era pra eu dar um jeito e pegar um celularzinho, porque nem um centavo ia sair da minha conta.
Ele disse que tinha um plano pra isso e que tirar qualquer coisa ia atrapalhar o plano.
Eu fiquei me perguntando se ele tava fazendo planos pra ele mesmo com a grana que eu ralei pra ganhar ou se ele tava fazendo planos pra mim, sobre a escola.
Eu não quero ficar focando na negatividade disso tudo, eu quero acreditar um pouco na esperança de pegar meu dinheiro.
Por que ele não podia me dar só um pouquinho pra eu pegar um celular, afinal, foi ele mesmo que quebrou, até a tela de vidro tava espalhada por tudo?
Eu tirei o meu chip e joguei o celular no lixo, tudo que eu preciso é um pouquinho do meu dinheiro pra pegar outro celular.
Ele também pode comprar, a única coisa que me importa é ter um celular. Mas o Luís negou na lata.
Ele tava claramente fazendo planos com o meu dinheiro, eu fiquei torcendo pra não ser verdade, porque quase dois anos de trabalho duro e suor não podem ser em vão.
O Luís ainda perguntou se eu tava procurando um lugar melhor, com um salário gordo, e eu falei que sim.
Eu queria dar um tapa nele, bem forte, por tudo que ele tava me fazendo passar emocionalmente e fisicamente também, por não querer me dar o meu dinheiro, mas fingindo que queria.
Se eu tivesse uma chance de fazer isso, eu ia aproveitar muito bem e ia fazer o Luís sentir a dor até na medula.
Eu não vou deixar ele pegar meu dinheiro. Eu vou lutar por isso, mesmo que seja a última coisa que eu faça.
Depois de mais uma semana, naquele sábado eu tava no mercado pra comprar as coisas pra casa, porque o Luís não tava mais fazendo isso e o fim de semana é o meu único tempo livre pra comprar as compras com o dinheiro que o Luís me dava.
Depois de comprar as coisas, o meu próximo plano era ir pra casa e cozinhar.
Voltando do mercado, chegando no portão, eu vi um carro estacionado perto da nossa casa, parecia muito com o carro do Phillip.
Eu parei pra olhar o carro direito.
Não é possível, não pode ser o Phillip.
Eu não queria acreditar.
Eu queria virar e ir me esconder em algum lugar, mas como eu não tinha certeza e o carro podia ser de qualquer um e não precisava ser do Phillip, eu decidi ir em frente.
Eu decidi entrar, fui andando devagar até a casa.
Eu encostei a orelha na porta e senti um medo repentino me pegar.
Dava pra ouvir barulho e risada.
Eu abri a porta devagar e entrei.
Lá estava ele, sentado com o Luís, com um copo na mão, conversando e rindo como amigos.
Os olhos do Phillip brilharam no momento em que eu entrei.
"E aí, Abril, meu Deus... que bom te ver de novo", o Phillip falou animado.
Eu fiquei parada olhando, tentando entender o que tava acontecendo.
"... você tá me olhando como se tivesse visto um fantasma. Bom, sinto muito mesmo. Eu perdi meu celular na segunda semana da minha viagem. Consegui recuperar meu chip depois. Fiquei muito preocupado por não poder te ligar, o erro que eu cometi foi não ter salvo seu número na minha cabeça, me arrependi disso. Tinha muita coisa pra fazer e precisei ficar pra terminar antes de voltar. Eu tentei te ver desde que voltei, mas não consegui, não tive outra escolha a não ser vir pra cá. Conheci seu primo Luís, ele é simples e legal e eu fiquei pensando por que você tinha tanto medo de me convidar pra vir. Eu e o Luís ficamos batendo papo e eu tô tão feliz e livre também, Abril. De verdade... eu senti muita falta de você e tenho um monte de coisas pra você... estão no carro..."
Eu olhei pro Luís, ele tava sentado com o copo na mão, perna cruzada e com um sorriso malicioso.
O Phillip continuou:
"... infelizmente, eu não consegui nada pro Luís porque tô conhecendo ele agora, pela primeira vez, mas espero que ele não se importe com um presente em dinheiro..."
Antes que o Phillip terminasse a frase, o Luís respondeu:
"presente em dinheiro? Não precisa, Phillip, mas se você insiste, eu vou aceitar. Você já é como um amigo da família..."
Isso não tá nada bom. Eu preciso fazer alguma coisa, mas a questão é, o que exatamente eu preciso fazer agora?