Capítulo 3
POR CORAÇÃO DE AMAH.
Mais um ano chegou pra mim fazer o vestibular, mas meus pais falaram que eu tinha que segurar a onda porque não tinha grana pra pagar as taxas, por causa da grana que foi gasta na nova escola internacional da Raquel, que ela foi transferida.
Eu tava perdendo a paciência, mas esperar mais um ano não ia ser tão ruim, né? Só que a questão é, como faço?
Esperar até o ano que vem quase vai me matar, porque eu tô cansada de ficar em casa, sem fazer nada e sendo acusada sem necessidade.
Se meus pais deixarem, eu quero arranjar um emprego, não tô nem aí pra grana, o que eu mais quero é sair de casa todo dia.
Talvez eu consiga um pouco de reconhecimento e respeito.
Juntei toda a coragem e falei pro meu Pai, mas ele me cortou.
"Pra quê você quer um trampo? Eu ou sua Mãe te demos a responsabilidade de pagar o aluguel ou a comida? Não te entendo, Abril, qual é a sua razão de querer um emprego? A gente só pediu pra você segurar um pouco em relação à escola, porque precisamos estar financeiramente preparados. As taxas da sua irmã, Raquel, são bem altas e a gente acabou de pagar as taxas com outras coisas. Estamos com pouca grana e precisamos estar bem firmes antes que apareçam outras despesas grandes. Explicamos nossos motivos pra não concordar com a sua entrada na Universidade esse ano e tudo o que pedimos foi tempo pra resolver as coisas. Eu espero que você entenda, Abril, e não venha com essas ideias sem noção..."
"Mas, Pai, eu já estou em casa há dois anos. No ano passado foi por causa da mesma história financeira, no ano retrasado foi por causa da Raquel e agora de novo... Eu só tô cansada de ficar em casa. Preciso fazer alguma coisa antes de enlouquecer. Tô pronta pra esperar, mas não posso ficar em casa esperando até ter grana suficiente pra começar a estudar. Por favor... Eu realmente preciso disso, Pai. Só vou pegar qualquer emprego que me faça voltar pra casa cedo... Não vou ficar fora até tarde nem me tornar rebelde, se é isso que o senhor tá com medo. Por favor... Eu preciso disso, Pai"
Depois ele prometeu pensar sobre isso e, no dia seguinte, ele já tinha pensado.
Ele me deu as regras dele, que iriam guiar qualquer tipo de trampo que eu arranjasse e quando eu deveria estar em casa.
Eu aceitei tudo e nada mais importava, porque eu ia sair de casa.
Levei uma semana pra sair procurando emprego, não muito longe, mas com certeza onde eu pudesse ir de transporte.
Depois arranjei um numa padaria e pediram pra eu começar imediatamente, porque precisavam de uma mão.
Comecei animada e foi assim que comecei meu primeiro emprego
Eu ainda tenho a escola em mente e se eu conseguir economizar grana suficiente na padaria, vou poder ajudar meus pais a pagar minhas taxas.
Depois de um mês, recebi meu primeiro salário e não consegui segurar minha alegria.
Fui incentivada por uma colega a abrir uma conta bancária, o que contei pros meus pais.
Meu pai falou que eu devia fazer o que eu quisesse com a grana que eu tava recebendo.
Abri a conta bancária e comecei a economizar.
Estava gostando do meu trampo e também aprendendo a fazer todo tipo de lanche.
As acusações constantes e meus irmãos me criticando por qualquer coisa diminuíram.
Às vezes, até levo lanche pra casa.
Um dia, meu Pai ligou e me perguntou se eu podia ajudar minha irmã com a fantasia de teatro que ela queria comprar pra ela e pros membros do grupo dela.
Ela, obviamente, era a líder de torcida do teatro e tinha prometido comprar fantasias pra cada pessoa da turma dela de teatro pro concurso de teatro que tava chegando.
Mas a questão é que a Raquel não tinha grana, mas tava fazendo todas aquelas promessas.
Quando ela contou pra minha Mãe, minha Mãe falou com meu Pai sobre isso e ele concordou em dar a grana pra ela, mas de novo ele não tinha na hora e decidiu pedir pra eu ajudar.
Quando meu Pai pediu pra eu ajudar minha irmã, eu queria muito fazer isso, mas depois de perceber o valor total, era demais.
Não ia só comer toda a minha economia de meses, mas também ia acabar com meus planos.
Tenho planos e coisas que eu queria fazer com a grana, que é principalmente a minha entrada na universidade, e eu estava economizando pra isso, pra também poder ajudar meu Pai a evitar outras desculpas.
E agora todo mundo tava contando comigo pra ajudar a Raquel a cobrir todas as despesas das fantasias.
Depois de muita insistência, cedi e todo mundo ficou feliz.
Depois de dar minhas economias, não sobrou muita coisa, mas já que todo mundo tá feliz, eu tô feliz.
Vou começar a economizar de novo e logo vou dar um jeito.
Continuei seguindo as regras do meu pai e tentando não fazer nada que o fizesse me impedir de trabalhar.
Mas isso foi até eu conhecer o Luís.
Ele era fofo e bonito, e também inteligente.
Nos demos muito bem até que nossa amizade comum virou algo a mais.
Guardei tudo pra mim e não falei pra ninguém, porque se meu Pai descobrisse, eu ia estar em sérios problemas.
A Raquel tava terminando as provas finais do ensino médio e meu Pai já tinha comprado a ficha de inscrição pra universidade pra ela.
Fiquei chateada quando descobri que ia fazer o mesmo vestibular que minha irmã mais nova.
Meu Pai disse que, mesmo que a grana não estivesse realmente disponível, ele inscreveu nós duas.
Eu sei que se alguma coisa acontecesse ou se a grana não fosse suficiente, uma pessoa tinha que desistir e não ia ser a Raquel, com certeza ia ser eu, porque iam esperar que eu, como a irmã mais velha, entendesse.
Comecei a fazer meus próprios planos, porque o favoritismo tava ficando demais.
Sacrifiquei minhas economias pela minha irmã, mas ninguém tá considerando isso.
Não tenho grana suficiente de reserva, caso alguma coisa aconteça.
O Luís vai viajar pra outra cidade em breve pra começar o novo escritório dele e ele tem me implorado pra ir com ele.
Ele me ama e eu o amo também, porque ele é o único que entende e escuta quando eu preciso de um ouvido.
Falei pra ele que não posso, é impossível.
Mas depois de pensar muito, comecei a reconsiderar.
Não quero estar numa casa ou família onde não sou desejada ou amada e nem o meu pequeno esforço é reconhecido.
Tenho um plano melhor e quando minha mente estiver totalmente decidida, não vai ter volta.