Capítulo 32
Freya
Vai ser lua cheia mais tarde hoje à noite, e Pi me disse que íamos nos transformar em um Lycan. Ela disse que ia ser muito doloroso, e que íamos querer nosso/a par pra estar com a gente se isso acontecesse. Mas o que eu posso fazer? Matteo não tinha voltado, e mesmo que eu quisesse me preocupar com ele, o que Eunice tinha me contado tava repetindo na minha cabeça. Acho que foi mais doloroso do que a nossa transformação.
"Princesa, Lorde Rapha me disse que você não vai treinar hoje. Ele precisa ir a uma reunião muito importante com o rei", disse Camila. Eu tava no nosso quarto, me arrumando. Na real, não tava no clima hoje, e não sei porquê. Não tô afim de fazer nada, e mesmo que eu fique super animada pra treinar todo dia, acho que sempre chega uma hora que eu não tô a fim de fazer isso ou nada.
"Entendo, obrigada", respondi e voltei pro closet e fiquei pensando se devia ou não trocar de roupa. Era muito cedo, e eu tava me perguntando sobre o que eles precisavam conversar. Aconteceu alguma coisa no reino ou com Matteo? Descartei a última opção porque achei que ia conseguir saber se algo realmente acontecesse com ele.
'Relaxa, Frey. Nada aconteceu com nosso/a par.' Pi disse, ela era a única que sabia exatamente o que eu tava sentindo. Não consigo esconder isso dela porque compartilhamos o mesmo corpo. Fiquei feliz que ela me entendeu e tava tentando aliviar minhas preocupações.
'Tomara, mas pensar que ninguém queria que eu soubesse o que tava rolando de verdade me fez pensar que eu não pertenço aqui de verdade.' respondi,
'Isso não é verdade; Rei queria a gente. Tenho certeza que eles estavam bem; ele vai avisar se não estiverem.' ela respondeu,
'Então, ele falou com você depois que eles foram?' eu perguntei, 'Você também tá escondendo algo de mim?'
'Não, claro que não. Ele não entrou em contato comigo depois que foram, e eu também não faço ideia do que tá acontecendo com ele. Provavelmente estavam bem longe do palácio e tendo dificuldades de se conectar comigo. Mas, acredite, Rei queria a gente e se importava de verdade com a gente. Se tinha algo que ele escondeu de nós, foi o fato de que ele podia nos machucar,' ela respondeu. Suspirei fundo. Ela tava bem calma desde então e sempre queria ver as coisas por outro lado.
'Tudo bem, não vamos falar sobre eles. Não queria estragar tudo hoje", eu disse, tristemente. Umas corridas iam, com certeza, aliviar toda a tensão no meu corpo, então decidi sair do meu quarto e esquecer completamente da Camila, que agora tava me seguindo.
"Princesa, pra onde você vai?" ouvi ela dizer de trás.
"Ah, desculpa, esqueci de você. Vou só correr um pouco já que o treino foi cancelado." eu falei pra ela, sorrindo. Também não queria preocupá-la.
"Então me deixa ir com você."
"Não precisa, Camila. Tenho medo de que você não consiga me acompanhar."
"Você só vai correr na sua forma humana, então por que eu não conseguiria te acompanhar?"
"Eu sou bem rápida, sabe", respondi.
"Mesmo assim, eu ainda deveria conseguir ir pelo menos."
"Você só vai se cansar."
"Por favor, princesa", ela implorou, e eu não consegui dizer não pra isso.
"Tudo bem, vamos", eu disse e comecei a correr. Tive que acompanhar o ritmo dela, então mesmo que eu achasse que tava bem devagar, não reclamei. Não queria que ela achasse que eu tava debochando dela ou sei lá.
O reino era grande. Quero dizer, tudo que cerca o palácio. Todos os bandos incluídos no reino são até aqueles que estão a quilômetros de distância de onde eu tô agora. Só temos um reino, e onde quer que a realeza vá, qualquer pessoa que os receba sabe que precisa se curvar pra eles, de qualquer país que sejam. Os Lycans lideravam os lobisomens, e era claro pra todos nós que a realeza tinha deveres e responsabilidades com os lobisomens. Bruxas, fadas e outras espécies se curvam pra eles também, mesmo que tenham seu próprio rei e rainha.
Vampiros são outra história. Eles não queriam ser liderados pelos Lycans. É por isso que eles eram inimigos mortais. Mas mesmo que fosse assim, eles ainda tentavam fazer as pazes e viver em harmonia. Eles fizeram um tratado que protegeria humanos e outros. Quem quebrar o tratado significa começar uma guerra contra o outro.
"Você tá bem, Camila?" eu perguntei quando percebi que ela já tava exausta. Estamos na floresta, e não sei se vou conseguir voltar pra onde viemos.
"Sim, princesa. Eu só tava um pouco cansada", ela respondeu, ofegante, então decidi chegar mais perto dela pra ajudá-la a sentar.
"Vamos descansar primeiro, e vamos dar o dia por encerrado", eu falei pra ela, sorrindo e planejando voltar depois que ela recuperasse suas forças de toda a corrida que tivemos. Ela tava sorrindo enquanto balançava a cabeça, então acho que ela não tá brava comigo por trazê-la tão longe. "Espero que você ainda saiba o caminho de volta", eu disse depois.
"Quê?" ela perguntou, confusa, o que me deixou confusa também. Ela não sabe o caminho de volta? "Eu só te segui e não me preocupei em olhar em volta. Toda a minha atenção tava focada só em você, pensando que você sabia pra onde estávamos indo", ela disse.
"Que bom", eu disse, rindo. "Então acho que é bom dizer que estamos perdidas", eu adicionei,
"Ai, Deusa",
"Não se preocupe. Vamos conseguir encontrar o caminho de volta pro palácio. Já somos adultas e ainda estamos no território do palácio."
"Estamos?" ela perguntou preocupada, enquanto olhava em volta.
"Não se assuste. Se alguma coisa acontecer, eu não deixaria nada machucar você ou a mim."
"Isso é reconfortante, princesa", ela respondeu. Não trouxemos água ou nada pra nos manter hidratadas, e eu tava preocupada com ela. Não achei que ela ia conseguir continuar correndo ou andando de volta pro palácio.
"Você pode fazer uma ligação mental com alguém pra nos trazer pra cá?" eu perguntei,
"Eu já fiz, princesa."
"Obrigada", respondi, sentando ao lado dela e esperando que quem ela ligou por mente viesse nos buscar. Se fosse só eu, tenho certeza que conseguiria voltar em uma peça. Mas tô preocupada com ela. Acho que ela não consegue dar outro passo. Estávamos trocando nossas histórias quando ouvimos o som de um galho de árvore quebrando. Olhamos pra trás e encontramos quatro vadios. Desde quando eles começaram a andar em grupos de quatro? Por que eu pensaria nisso quando tinha que pensar em como ia levar a Camila comigo e correr? Com certeza, eles vão conseguir nos pegar em pouco tempo, e isso não é bom.