Capítulo 68
Terceira Pessoa
Eles estavam relaxando no meio de uma tranquilidade serena, um contraste gritante com os pensamentos turbulentos que giravam dentro dele. O que estava errado com eles? Como eles podiam continuar com um torneio despreocupado e se alegrar com isso? Uma sensação distorcida de descrença o invadiu enquanto ele os observava relaxando, rindo e desfrutando de um senso de camaradagem que ele acreditava que eles não tinham o direito de ter. Eles não sentiam nenhuma ameaça iminente - a tempestade se formando no horizonte, pronta para estilhaçar sua existência idílica?
Um desejo esmagador surgiu dentro dele, obrigando-o a torná-los muito conscientes do perigo iminente que espreitava, velado por sua atual ignorância feliz. Ele mal podia esperar para testemunhar o tormento gravado em seus rostos quando a realidade de sua situação caísse sobre eles. Eles tinham tomado o que era dele por direito - seu título, sua parceira e a oportunidade de ter uma família própria. O trono deveria ter passado para seu filho, não para o deles. A injustiça de tudo isso corroía seu âmago.
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No meio de sua inquietação, uma voz rompeu o turbilhão de pensamentos que giravam em sua mente. "Meu Senhor", entoou com um tom respeitoso, mas firme.
Ele voltou sua atenção para a fonte da voz, seu olhar penetrante fixando-se em Calvin, seu fiel confidente e braço direito. Ele era o canal através do qual ele recebia atualizações sobre Matteo e sua parceira, aqueles que pareciam se deleitar em um oásis de tranquilidade em meio à tempestade iminente. Sua presença sempre lhe proporcionou uma sensação de segurança, e agora ele olhava para ele em busca de insights sobre o enigma que era a paz recém-descoberta de Matteo.
"Você tem certeza disso?", ele perguntou, sua voz carregando o peso da curiosidade e da determinação.
Calvin encontrou seu olhar sem hesitar e acenou com convicção. "Sim, meu Senhor", ele afirmou. Ele era conhecido por sua sagacidade e competência, qualidades que lhe renderam um lugar de confiança e estima em seu círculo íntimo. O fato de ele ter relatado esse desenvolvimento incomum em relação a Matteo só serviu para intensificar sua intriga. Era como se a superfície calma de um lago tranquilo escondesse profundezas de turbulência não vistas que pediam para ser desenterradas.
Ele sempre se destacou em reunir informações cruciais, uma habilidade que muitas vezes o impressionava. Quanto à mudança repentina de comportamento de Matteo, ela permaneceu um enigma perplexo. O relatório indicava que Matteo e seus guerreiros haviam descoberto esconderijos ocultos perto do palácio e dos terrenos da alcateia. No entanto, seu foco havia mudado inexplicavelmente de seu alvo pretendido, a alcateia oriental. O desvio abrupto em sua estratégia despertou seu interesse e despertou uma sensação de urgência dentro dele.
Por anos, ele abrigara planos, meticulosamente elaborados, para reclamar o que era legitimamente seu. Essas ambições permaneceram dormentes, limitadas pela presença sombria de um adversário desconhecido que havia se oposto clandestinamente ao poder do palácio. A identidade e as motivações desse traidor o haviam iludido, deixando-o a ponderar as profundezas sombreadas de sua intriga. No entanto, chegara a hora de entender e aproveitar a presença do traidor para servir a seus propósitos. A trilha de suas ambições o havia levado a outro conselheiro traiçoeiro, um impulsionado por desejos cobiçosos que ameaçavam minar suas ambições. Era um obstáculo que ele não podia se dar ao luxo de ignorar.
Sua determinação era inabalável. Ele se importava pouco com o destino do traidor, mas não podia permitir que eles colocassem em perigo a santidade de seu palácio, um domínio que era inequivocamente seu. O intruso não tinha o direito de cobiçar o que era legitimamente seu, um legado que ele havia herdado por sangue e direito de nascimento. Ele resolveu usar Calvin, seu guerreiro mais confiável e eficiente, para desmantelar os projetos do traidor e desenterrar sua identidade. Sua lealdade era uma constante inabalável, uma garantia de que a tarefa seria executada com precisão e discrição.
Horas depois, ele retornou, carregando o peso de seu relatório e a gravidade das decisões que logo se seguiriam. "Os Vadios estão em posição, aguardando suas ordens", Calvin o informou.
Ele assentiu com aprovação. "Excelente", ele respondeu, reconhecendo a eficiência de Calvin. Os Vadios, uma força clandestina sob seu comando, eram um instrumento formidável, prontos para executar sua vontade. Agora, ele procurou empunhá-los com precisão e propósito.
Seu olhar se estreitou quando ele contemplou os próximos passos de seu plano. "Agora, quero que você elabore um plano para Ronaldo", ele instruiu, uma nota de determinação inabalável sublinhando suas palavras. Ele atendeu ao seu comando com uma afirmação conhecedora.
"É hora agora, meu Senhor?"
Uma determinação firme se instalou sobre ele quando ele confirmou sua intenção. "Sim", ele respondeu com determinação inabalável. "E certifique-se de que ele sofra."
Calvin aceitou sua diretiva com uma postura estoica, sua lealdade resoluta. "Entendido, meu Senhor", ele reconheceu antes de partir mais uma vez, carregando o peso das ações iminentes e suas consequências de longo alcance.
Enquanto ele observava sua partida, ele não pôde deixar de refletir sobre a trajetória de sua vida, um caminho marcado por traição e perda. Seu pai, o rei anterior, havia emitido um decreto que cortava seus laços familiares, uma diretiva que ele havia desafiado com lealdade inabalável. A traição final de seu pai havia sido o momento crucial que definiu sua vida em seu curso atual, privando-o de sua herança legítima e de sua amada parceira. A memória daqueles eventos era tão vívida como se tivessem ocorrido apenas ontem.
*** Flashback ***
As lembranças daquele dia fatídico, um dia gravado em dor e traição, se desenrolaram diante de seus olhos com clareza assustadora. "Pai, você deve acreditar em mim. Eu nunca faria tal coisa", ele implorou, desespero prendendo suas palavras. As acusações de seu pai pairavam pesadas no ar, uma acusação que havia destruído os frágeis laços de confiança entre eles. Seu pai o acusou do ato imperdoável de roubar a parceira de Marco, um crime que ele havia negado veementemente.
"Chega de bobagens", seu pai declarou, sua voz inflexível. A verdade do assunto havia sido distorcida além do reconhecimento, transformada em uma narrativa que o retratava como o vilão, um antagonista em um conto de traição. O preconceito de seu pai havia sido evidente ao longo de sua criação, favorecendo Marco com uma intensidade que o havia deixado perplexo e afastado.
A fenda que havia crescido entre eles, alimentada pelo favoritismo de seu pai, o havia levado a buscar maneiras de ganhar a aprovação de seu pai. No entanto, seus esforços foram em vão, e ele foi recebido com uma parede implacável de indiferença. Seu pai se recusou a reconhecer seu valor, reconhecendo apenas as realizações de Marco. A amargura desse favoritismo lançou uma sombra sobre seus anos de formação.
Sem outro recurso, ele recorreu à rebelião, uma tentativa desesperada de afirmar sua independência e provar seu valor. Ele procurou desafiar as noções preconcebidas de seu pai, mas as consequências foram muito mais graves do que ele poderia ter antecipado. Em sua busca por desafio, ele, sem saber, abriu o caminho para a ascensão de Marco, um caminho que agora o levava a sua situação atual.
"Estou dizendo a verdade, Pai. Ela não é a parceira de Marco; ela é minha!" Ele implorou, sua voz trêmula de frustração e desespero. Ele havia reivindicado seu direito, mas caiu em ouvidos moucos.
O veredicto que seu pai havia proferido foi final, entregue com uma firmeza que não deixou espaço para discussão. "Se você deseja reivindicar o trono, deve lutar por ele. Eu não posso simplesmente entregar o reino a alguém tão imprudente quanto você. Você e Marco competirão pela coroa", seu pai decretou, um julgamento que abalou os próprios fundamentos de seu mundo.
"Eu sou seu primogênito, e o título de rei é legitimamente meu!" ele declarou, sua voz ressoando com a verdade inegável de seu direito de nascimento. A coroa deveria ser dele em virtude de seu status como o mais velho, um legado transmitido por gerações.
A batalha iminente contra seu irmão pesava muito em sua mente, lançando uma sombra sobre os dias que se seguiram. A noção de competir contra Marco, outrora um irmão amado, agora um rival, o encheu de uma profunda sensação de desconforto. Ele havia sido confinado ao seu quarto, prisioneiro de seus pensamentos, e uma sensação de desamparo começou a permear seu espírito.
Então, quando a batalha se aproximava, Marco o visitou, sua interação carregada de tensão e verdades não ditas. "Por que você pretende lutar contra mim quando sabe que não pode vencer?" Ele fez a pergunta, suas palavras pesadas com o peso de uma revelação perturbadora.
"O que você quer dizer?" ele respondeu, as palavras entrelaçadas com uma sensação de pressentimento.
"Você está enfraquecido", Marco declarou categoricamente, "e não há como o acônito e a prata que eu introduzi em suas refeições não terem afetado você." A revelação o atingiu como um golpe físico, e as implicações da traição de Marco foram como uma faca afiada torcida em seu coração.
"Como você pôde?" ele rosnou, sua voz tremendo de raiva. Ele olhou para Marco, sua visão nublada por uma raiva avassaladora que ameaçava consumi-lo.
Em resposta, Marco pronunciou palavras arrepiantes que alteraram para sempre o curso de suas vidas. "Você pode ser um rei melhor do que eu", ele afirmou, uma profecia velada de escuridão envolvendo sua reivindicação. "Eu já vislumbrei o futuro, e ele revela você como um tirano. Eu não podia permitir que isso acontecesse. Eu não podia deixar o reino inteiro sofrer por sua causa."
A acusação o deixou atordoado, lutando com uma verdade que ele não conseguia compreender totalmente. Seu irmão havia pintado um retrato sombrio de seu futuro reinado, um reinado caracterizado pela tirania e opressão. A noção atingiu o cerne de sua identidade, desafiando os valores com os quais ele havia sido criado.
"Isso é absurdo!" ele retrucou, desespero evidente em sua voz. "Eu fui criado para acreditar que somos protetores de todas as espécies e que devemos manter o equilíbrio no mundo para garantir a paz e a harmonia. Como você pode alegar que eu me tornaria um rei tirano?"
No entanto, Marco permaneceu resoluto, seus motivos obscurecidos por insinuações enigmáticas. "Você não vai entender agora, mas vai com o tempo", ele afirmou de forma enigmática. Então ele se aproximou, sua voz assumindo um tom sinistro. "Agora que estamos sozinhos, deixe-me dizer algo. Sim, eu tirei tudo de você - seu título, sua parceira. Você sabia como ela me implorou quando eu a deitei, sem saber que era eu e não você? Poções de bruxas estão prontamente disponíveis hoje em dia."
A revelação foi uma adaga em seu coração, uma confirmação de seus medos mais profundos. Ele havia perdido sua parceira por causa da traição de Marco; sua amada alma gêmea foi enredada por um feitiço e submetida a uma manipulação indescritível. A dor da revelação o perfurou até o âmago, deixando cicatrizes que nunca cicatrizariam de verdade. A única mulher destinada a estar com ele havia sofrido e tormento, tudo por causa das ações traiçoeiras de seu irmão. A agonia dessa realização deixou uma marca indelével em sua alma, uma ferida que festerava a cada dia que passava.