Capítulo 30
"Então?"
"Então o quê?"
"Não podes só dizer isso e esperar que eu não queira saber mais."
Eu e Kate estávamos no quarto dela depois de termos feito uma das sessões de "alongamento" dela, para as quais eu era só espectadora. Parecia fácil, mas depois do que aconteceu da última vez... eu já sabia.
"Kate, já te contei tudo o que há para contar. Não vou dizer mais nada."
"Okay. Que seja. Não me importo."
"Achas mesmo?"
Nem um segundo depois, a Kate começou a implorar por mais informações.
"Lyra, podes, por favor, por favor, diz-me mais? Só um bocadinho."
"Tá bom. Mas só um bocadinho."
"É tudo o que peço."
"Acho que gosto de um gajo, mas ele..." Fiz uma pausa, à procura da palavra certa. "Ele é diferente. Não, não é isso. Bem, é, mas esse não é o problema." Fitei os meus dedos, que brincavam com uma linha solta nos meus jeans. "O problema é que ele não parece ser um gajo interessado nessas coisas. Compromisso." Tentei contar-lhe como a mãe dele podia ser a principal causa disso, mas desisti.
"Já lhe disseste o que sentes?" Olhei para ela alarmada.
"Estás maluca?"
"Bem, como é que esperas que ele saiba que gostas dele?"
Não tive resposta para isso.
"Devias pelo menos dizer-lhe o que sentes. Talvez ele goste de ti também e a única coisa que vos mantém afastados seja o teu orgulho."
"Kate, o problema é esse. Ele não gosta de mim. De todo. Mas, por alguma razão que me escapa, não consigo parar de pensar nele e quanto mais penso nele, mais crescem os meus sentimentos por ele."
"Queres estar com ele? Ou queres esquecê-lo?"
"Não sei." Gemei, atirando-me para a cama, a olhar para o teto como se uma resposta pudesse surgir dali.
A Kate juntou-se a mim e disse: "Eu sei quem é o gajo."
"Ya, eu imaginei."
"Não acho que haja nada melhor para fazeres do que dizer-lhe o que sentes."
"Mas e se eu for rejeitada?"
"Eu sei que a rejeição é a pior experiência, mas Lyra, essa é a única maneira de saberes o que ele sente por ti e assim não vais morrer a perguntar como teria sido se lhe tivesses dito em primeiro lugar."
Quando voltei da casa da Kate, decidi abandonar a ideia de dizer ao Owen o que sentia e adiei para outra data.
"Lyra?" Imediatamente fiquei parada com a voz familiar.
Devagar, virei-me e tentei sorrir, mas tenho a certeza de que pareceu mais uma carranca.
"Dustin, olá. O que estás a fazer aqui?"
"Vim aqui falar com o Owen. O que estás a fazer aqui?" Disse ele um pouco confuso.
"Eu, hum... Eu estava só." Suspirei, a tentar inventar uma mentira. "A mãe pediu-me para trazer uma coisa. Somos vizinhos." Dei-me uma palmadinha mental nas costas pelo meu feito.
"Boa sorte, porque não acho que haja ninguém em casa. Já estou a bater à porta há algum tempo."
"Ah. Obrigada. Já vou voltar para casa."
"Até logo."
"Até já." Acenei-lhe levemente e, depois de ter a certeza de que ele tinha ido embora, entrei em casa com a chave suplente.
**********
Eu e Owen estávamos sentados no carro dele e eu estava literalmente a contar os minutos para chegarmos à escola.
Senti-o a dar umas olhadas de vez em quando, às quais tentei fazer-me desentendida, mas as minhas capacidades de atriz são quase inexistentes. Provavelmente parecia uma daquelas vezes em que tentas aguentar uma tosse.
"Estás bem?"
"Quem? Eu?"
"Não vejo mais ninguém aqui além de ti e de mim."
"Bem, sim. É que está calor."
"Então, provavelmente devias tirar aquele casaco, estão tipo trinta graus."
"Estou bem."
Por alguma razão desconhecida, o Owen estava falador durante a viagem. Owen e falador não combinam, mas vi-me bombardeada com perguntas aleatórias e a única coisa que ele conseguiu foi um "sim" ou "não" e, às vezes, um "talvez".
Fiquei tão aliviada quando chegámos à escola que tentei fugir a correr, só para voltar a cair no meu assento, ligeiramente sem fôlego.
"Chamam-se cintos de segurança por uma razão. Não vês as pessoas a carregá-los." Disse ele com um sorriso atrevido que me deu vontade de bater-lhe na cara com a minha mala, mas lembrei-me do quão pesada era a minha mala e desisti completamente da ideia.
Depois de desapertar o cinto de segurança, saí do carro com a minha autoestima ligeiramente ferida.
"Lyra, falo a sério quando digo que ele não é um gajo com quem queiras te envolver."
"Ele não é mau, Dustin."
"Tu não sabes disso."
"Não, tu é que não sabes disso. E se soubesses não falarias dele dessa maneira."
"Estamos os dois a falar do mesmo Owen? Porque, se bem me lembro, ele nunca te tratou com respeito. Desde o primeiro dia."
"Realmente não preciso disto." Ia virar-me quando ele agarrou no meu cotovelo para me impedir.
"Só estou a tentar ajudar-te. Não queres criar laços com ele." Com isso, ele foi-se embora, deixando-me confusa.