Capítulo 95
POV de Terceira Pessoa
Três batidas na porta da frente interromperam Lucas, que estava trabalhando no seu laptop na sala de estar. Ele franziu a testa, imaginando quem estaria lá fora por volta das duas horas da tarde, quando não esperava ninguém naquele dia. Já fazia um mês que eles tinham se mudado para aquela casa e apenas algumas pessoas de confiança sabiam daquele lugar.
Ele concluiu que era a faxineira deles, mas ela já tinha ido lá para limpar no outro dia. Ele não teve escolha a não ser verificar quem era, porque eles não tinham nenhum servo por perto depois que ele mandou ela e o motorista buscarem as compras.
Ele foi até a porta da frente. Quando estava a poucos passos da porta, a pessoa lá fora tentou bater de novo. Lucas abriu a porta e seus olhos se arregalaram ao ver quem estava do lado de fora.
Um curto silêncio se passou entre os dois. Ele não conseguia acreditar que a veria novamente depois de visitar as Filipinas há alguns meses. Ele não conseguiu esconder o quanto ficou cativado pelo quanto ela tinha mudado desde então e, como Elyana não se preocupou em se maquiar naquele dia, sua beleza natural brilhou perfeitamente em seus olhos.
"Desculpe por vir sem avisar. Eu só vim aqui para ver Helen." Elyana foi quem quebrou o silêncio, porque não conseguia suportar o desconforto que estava sentindo com a maneira como Lucas a encarava.
Mas o homem na sua frente não conseguiu dizer uma única palavra depois que ela disse aquelas palavras com tanta frieza.
"Ela está lá?" Elyana perguntou quando ele não conseguiu responder. Cada palavra era como uma faca apunhalando seu peito, porque ele sentia que era um estranho total para a mulher em sua frente, mas nada era mais doloroso do que ver os olhos de Elyana sem nenhum traço de afeto por ele, quando ele os olhava.
"S-sim, ela está lá dentro. Entre," Lucas respondeu casualmente, tentando esconder sua dor naquele momento. Ele não percebeu imediatamente que Elyana estava acompanhada.
Felipe seguiu Elyana, carregando duas das coisas mais amadas por Helen; uma caixa de girassóis que eles compraram nas Filipinas e o caro vaso de porcelana de tamanho médio que Marietta pediu a sua filha para levar para a senhora doente.
Os olhares de Lucas e Felipe se encontraram. A nova aparência de Felipe não enganou os olhos de Lucas. Ele sabia quem ele era - era o gay que o humilhou antes, com uma coisa que ele não tinha na vida, e ver o casamenteiro naquele dia foi um tapa na cara para ele, mas ele tentou ignorá-los porque os dois pareciam estar lá para ver sua mãe morrendo.
Ele os levou para uma sala espaçosa. As paredes eram todas feitas de vidro, permitindo que a luz entrasse livremente. Dava para um rio e um jardim com um monte de plantas floridas. Um lugar tão perfeito para relaxar a mente de alguém e para quem só quer escapar da vida agitada e barulhenta da cidade.
Helen, que estava descansando naquele momento, ouviu que eles tinham visitantes. Ela não esperava que fossem eles que vieram para ver.
"E-Elyana," ela chamou Elyana depois de vê-la.
Sua voz fraca perfurou o coração de Elyana. Ela permaneceu tão doce quanto era, mas vê-la naquela cama com tanto peso que ela perdeu e olheiras ao redor dos olhos a fez derramar lágrimas antes mesmo de se aproximar dela.
"E-estou feliz em te ver, Helen." A voz de Elyana estava tremendo.
Lucas chamou a enfermeira para tomar um lanche na cozinha como desculpa para que os dois tivessem tempo sozinhos. Felipe não teve escolha a não ser sair também. Ele seguiu Lucas para o jardim para dar aos dois tempo a sós.
O ar lá fora estava frio porque a estação do outono já estava começando naquele mês, outubro. Lucas enfiou as mãos no bolso da calça depois que esqueceu de usar um casaco mais grosso antes de sair, mas ele pensou que não era o momento perfeito para voltar, especialmente porque ele perderia a chance de ter uma conversa particular com a pessoa que ele havia estado secretamente odiando por ser o chamado melhor amigo de Elyana.
A acrescentar a isso, ele vinha recebendo notícias sobre os dois que o estavam irritando tanto sempre que se lembrava.
"Eu não acredito que você se transformou," Lucas disse quando ouviu os passos atrás dele já parados. Ele se virou para encará-lo e, com a distância que tinham, podia vê-lo. Foi o suficiente para ele olhar para ele da cabeça aos pés, tentando encontrar qualquer coisa que pudesse rotular como seu defeito, mas ele não conseguiu encontrar um, o que só aumentou a razão para ele ficar bravo.
Felipe viu o que ele fez. Ele endireitou as costas ainda mais para mostrar seu belo corpo, que estava longe da forma atual de Lucas depois que ele ganhou um pouco de peso e sua barriga estava um pouco saliente devido à bebida frequente.
"Eu também—"
"Nossa! Você até mudou sua voz?" Lucas ficou surpreso com sua voz de barítono, que era ainda mais cheia em comparação com a dele. "Droga! O que mais mudou? Não me diga que você não gosta de homens agora e gosta de mulheres," ele acrescentou com uma pitada de insulto.
Felipe estava ciente do quão irritado ele estava. A forma como ele reagiu e falou foi suficiente para provar isso.
Ele tentou manter a calma para evitar uma discussão, olhando para a distância por um momento e fazendo uma pausa de alguns segundos antes de responder sua parada de perguntas.
"Francamente, acho que estou bem perto disso ou talvez eu já esteja," ele respondeu.
Ele se virou para encarar Lucas, querendo ver como ele reagiria ao que estava prestes a dizer. "Eu honestamente gosto de ser assim - um homem agora e um pai para meu filho. Sinto que sou muito apreciado pelas pessoas ao meu redor quando decidi mudar e, acredite ou não, o número de clientes que tenho recebido ultimamente tem crescido muito rápido. Para não me gabar, mas tenho ganhos e economias suficientes para começar minha própria família - isso se a mãe do meu filho concordar."
Lucas enrijeceu com o que ouviu. Ele cerrou os punhos quando sentiu tanta raiva dentro dele que despertou. Se ao menos ele pudesse dar um soco, ele já teria feito, mas sua mãe doente podia ver o lugar onde eles estavam parados.
Mesmo que ele quisesse responder com algo para mostrar sua desaprovação, ele sabia que não daria em nada. Não havia sentido em agir de forma imprudente, porque ele sabia como os dois se davam bem e como os pais de Elyana favorecem o que os dois têm. Eles já têm um filho que merece uma família completa e isso era algo que ele nunca daria a ela, não importa quanto dinheiro ele gastasse com isso.
A ideia dessas coisas o fez sentir-se cansado por dentro. Ele sabia que ele era a razão de ter chegado onde estavam agora. Ele foi quem falhou com ela e Felipe não teve nada a ver com isso. Se ele deixasse essas coisas de lado, ele teria que ser grato a ele em vez disso; ele foi quem estava lá quando ele precisou de alguém - ele estava lá quando ele a machucou.
Por causa disso, ele tentou se acalmar. Ele soltou um suspiro pesado antes de proferir sua resposta: "Desejo-lhe boa sorte."
Foi uma mensagem curta, mas teve um grande impacto em suas vidas. Lucas, que se sentiu derrotado, deu a Felipe um tapinha no ombro antes de deixá-lo ali para preparar algo para o convidado comer. Ele foi direto para a cozinha, onde a enfermeira já estava preparando alguns lanches e bebidas para todos.
A enfermeira estava lhe dando um olhar estranho porque Lucas parecia estar mal. Era evidente em seus olhos o quão assustada ela estava de perguntar, dando-lhe olhares de tempos em tempos.