Buraco do Inferno
Eu acordo, tipo, deitada no sofá do Jackson. Eu olho pra cima, esfregando meus olhos, e vejo que tinha um cobertor branco por cima de mim, o que me fez sorrir. O Jackson deve não ter querido me acordar. Começo a olhar ao redor, mas não consigo ver ele em lugar nenhum. O quadro com o mapa ainda tava lá, onde tava da última vez. Tinha umas coisas escritas com tinta vermelha, mas antes que eu pudesse começar a ler o que dizia, ouço um barulho vindo, acho, da cozinha.
O Jackson tava tocando música, e eu podia ouvir ele cantando. Eu balanço a cabeça, sentando mais um pouco antes de uma memória começar a encher a minha cabeça. Quando eu subi as escadas na noite em que o meu pai foi sequestrado e minha vida mudou pra sempre, eu ouvi ele cantando na cozinha enquanto cozinhava. Isso me faz olhar pra baixo, suspirando um pouco. Talvez se eu tivesse esperado um pouco mais na cozinha, eu pudesse ter ajudado.
Antes que eu pudesse pensar mais nisso, a cantoria chega mais perto e, em segundos, o Jackson, com uma cara feliz, aparece na porta, segurando comida e usando um avental.
"Bom dia, Ally, que bom te ver acordada." Ele sorri, andando até mim com a comida. Ele coloca o prato quente de ovos com bacon no meu colo.
"Alguém tá bem animado hoje de manhã." Eu sorrio, a minha voz ainda rouca de sono. Ele dá de ombros, indo de volta pra cozinha, mas logo volta com outro prato de comida pra ele e uma xícara de bebida. "É tipo uma regra que as pessoas que trabalham pra minha mãe insistem em fazer café da manhã fresco todo dia? Tipo, eu não tô reclamando, mas não é muito trabalho?" Eu pergunto, rindo um pouco. Ele senta do meu lado, colocando minha bebida na mesa com um sorriso.
"Tipo, dizem que o café da manhã é a refeição mais importante do dia, mas você tá certa, normalmente eu só pego uma barrinha de cereal e já era, isso foi até a sua mãe começar a fazer café da manhã e a minha vida toda mudar." Ele diz, enfiando ovo na boca enquanto fala. Eu balanço a cabeça, pegando o meu garfo pra comer. "Mas, tipo, quando eu liguei pra sua mãe ontem à noite e falei que você dormiu aqui em casa e que acho melhor você ficar aqui hoje à noite, ela falou que eu tinha que garantir que você comesse um bom café da manhã. Ela também mandou eu tirar uma foto sua dormindo pra provar que você tava bem. Quando você terminar, a gente tem que ir na agência pra eu bater o ponto, mas também pra sua mãe te ver." Ele continua, com pedaços de comida caindo da boca enquanto fala. Por que a minha mãe deu todo esse trabalho só pra ter certeza de que eu tava bem?
"Por que a gente tem que ir lá?" Eu pergunto, dando a primeira mordida na comida. Eu sabia que ia ter que voltar naquele lugar em algum momento, mas tava tentando ficar longe o máximo possível.
"Confia em mim, se tivesse alguma chance de a gente ficar longe daquilo, eu ficaria, mas a gente realmente não tem outra escolha. Sua mãe quer te ver por algum motivo. Vou garantir que a gente não fique lá muito tempo." Ele diz, me dando um sorriso antes de voltar pra comida dele, enquanto eu só fico olhando pra frente, pensando.
Por que a minha mãe quer me ver? Talvez ela tenha descoberto que eu e o Jackson fomos ver a mãe do Mário? O que vai acontecer se ela descobrir? Não, não tem como ela descobrir, porque a gente foi bem discreto sobre tudo isso, mas, pensando bem, ela é uma espiã secreta. Talvez ela tenha feito algum progresso e esteja prestes a me dizer que sabe onde o meu pai tá!
"Ally, come o seu café da manhã antes que esfrie." O Jackson me cutuca de leve, o que me tira dos meus pensamentos. Eu sorrio, dando outra mordida na comida enquanto ele repete a dose.
Depois que eu terminei o café da manhã, a gente foi rapidinho pra casa da minha mãe pra eu poder me arrumar e pegar minhas lentes. Eu sei que aceitei usar os óculos escuros ontem, mas eu sabia que quase ninguém ia me ver, mas se eu vou pro trabalho da minha mãe, um monte de gente vai me ver! Em pouco tempo, a gente tava passando pela segurança do lugar onde ela trabalha. O Jackson manda um olhar de raiva pro cara na mesa antes de me levar pelas portas principais.
"Que foi aquilo?" Eu pergunto, olhando pra ele enquanto a gente ia. Ele só responde com uma balançada de cabeça antes de colocar a mão nas minhas costas pra me levar pra cima ainda mais escadas.
Antes que eu pudesse perguntar mais, os escritórios de antes aparecem e eu sou levada rapidinho pelo corredor. A porta do escritório da minha mãe tava aberta quando a gente se aproximou, ela e o Reece lá dentro, tendo uma conversa bem baixa. Mas quando os dois percebem que a gente tava ali, a conversa para e eles sorriem pra gente. Será que ele e ela já fizeram alguma coisa que não deviam? Se sim, isso significaria que ela traiu o meu pai!
"Bom dia, vocês dois, a gente tava falando de vocês." A minha mãe sorri quando o Jackson finalmente para de me empurrar e eu fico no meio da sala. Eu olho pra ele, que me manda um sorrisinho.
"Eu quero saber?" Eu pergunto, me virando pra olhar pra minha mãe. Ela me manda um sorriso antes de dar uma olhada no papel dela. "Agora, o que aconteceu? A única razão pela qual eu sou chamada aqui é porque alguma coisa horrível aconteceu?" Eu pergunto, cruzando os braços. Não vou mentir e dizer que a ideia dela traindo o meu pai me deixou irritada.
"Não, nada de horrível aconteceu, mas a gente precisa conversar." Ela diz, abrindo um arquivo que tava na mesa. O Reece olha pro relógio antes de olhar pro Jackson.
"Por que você não vai bater o ponto, e já pega um café pra gente?" O Reece diz, olhando pro Jackson com uma expressão entediada. O Jackson ia se mover, mas eu pego ele pela mão e puxo de volta.
"Você não pode fazer isso, ou você é tão importante que não consegue pegar o seu próprio café? Eu não tô vendo 'garçom' escrito na testa do Jackson." Eu digo com uma sobrancelha levantada. O Reece parece surpreso por eu ter respondido, e olha pra minha mãe. "Se você tá mandando ele embora porque não quer que ele ouça essa conversa, eu garanto que eu não vou poupar nenhum detalhe." Eu dou um sorriso, o que também faz os olhos da minha mãe arregalarem. O Reece limpa a garganta antes de sair da sala pra provavelmente pegar o café.
"Eu já volto, preciso bater o ponto." O Jackson diz enquanto eu olho pra ele. Ele faz um "obrigada" com a boca antes de sair da sala, deixando só eu e minha mãe sozinhas.
"Eu não quero presumir, mas tá rolando alguma coisa entre você e o Jackson?" A minha mãe pergunta, o que me irritou. Eu me viro pra olhar pra ela, com nojo na cara.
"Bem, obrigada, mãe, que bom que você acha que eu sou do tipo que sai com qualquer homem que eu conheci há uma semana, não, não tá rolando nada entre eu e o Jackson. Eu só não gosto que o seu colega de trabalho ache que pode tratar o Jackson como se fosse o, servo dele." Eu respondo, cuspindo tudo por causa de toda essa situação, antes mesmo de começar. Eu sabia que não queria vir aqui por um motivo. "Agora, pode se apressar e me dizer por que eu tô aqui, quanto antes eu sair desse inferno, melhor." Eu digo, cruzando os braços mais uma vez. Ela também limpa a garganta antes de olhar pros papéis dela.
"A gente precisa discutir o que tá acontecendo em casa. O seu amigo Peter ligou pra polícia e reportou que você tá desaparecida. A polícia já me ligou e eu expliquei a situação pro delegado. Ele colocou quem costumava ser o melhor detetive dele no caso, isso tá mantendo ele e também o seu amigo ocupados. Mas eles tão chegando perto demais, a gente precisa criar uma distração que os afaste disso. O que significa que a gente precisa da sua ajuda." Ela me diz, mas eu só dou um olhar pra ela. O Peter tá passando por tudo isso pra me encontrar. "A gente precisa tirar uma foto sua em algum lugar, como o seu cabelo tá de outra cor agora, você vai ter que usar uma peruca. A gente tá pensando em você-" ela diz, mas eu a interrompo, levantando a mão.
"Eu vou te interromper aí mesmo, eu não sei por que você achou que eu ia te ajudar de alguma forma a fazer o meu amigo acreditar que alguma coisa ruim aconteceu comigo." Eu digo, balançando a cabeça pra ela. Talvez ela esteja bem em fazer as pessoas acreditarem em algo ruim, mas eu não sou assim.
"Mas você precisa fazer isso, Ally, se a gente não resolver esse problema-" ela diz, mas de novo eu a interrompo antes que ela pudesse terminar.
"Esse problema não teria sido um problema se não fosse por você, você é quem decidiu fazer esse trabalho, então é sua responsabilidade resolver toda essa bagunça. Eu não queria fazer parte disso, como você disse, eu não tenho a autorização nem a experiência pra te ajudar na sua investigação, então eu não vou te ajudar aqui. Eu só vou ficar na sua casa, como você quer, enquanto você encontra o meu pai." Eu digo, olhando pra trás pra ver o Jackson parado ali, sorrindo. Sim, eu posso ir embora agora. "Agora eu vou sair desse inferno, mas desejo toda a sorte do mundo com esse problema." Eu digo com um sorriso final antes de sair da sala, onde o Jackson me manda uma piscada antes de me seguir.