Interessante
Depois da minha sessão de choro inicial, a gente sai de casa, mas o Jackson faz questão de tirar fotos de tudo o que ele consegue. A gente sabe que pode não ter chance de voltar pra aquela casa, ou a minha mãe vai descobrir sozinha e vamos ter que agir como se nunca soubéssemos que ela tava lá. Ou, como o Jackson disse, a gente pode ter que mandar tudo isso pra minha mãe de novo, o que a gente não pode deixar ela saber que fomos nós.
Estávamos a caminho de casa agora, o dia começou com a gente no carro indo pra aquela casa, e agora termina com a gente no carro saindo de lá. Mas tanta coisa aconteceu no meio, tanta coisa que meu cérebro nem consegue entender tudo o que rolou.
Meu celular tocando inesperadamente na minha perna me faz pular, isso porque eu tava no meu mundinho, mas também, só três pessoas têm esse número e uma delas tá sentada bem do meu lado. Pego meu celular pra ver que é um número desconhecido, olho pro Jackson que também pareceu meio surpreso.
"Atende, mas coloca no viva-voz pra eu poder ouvir." Ele me diz, colocando o próprio celular no colo, me pergunto se é tipo, caso ele precise ligar pra alguém como a minha mãe.
Faço o que me mandaram e, com uma respirada funda, atendo o celular e seguro ele mais perto do meu rosto, com um "Alô".
"Ally." A voz de um homem sai, o que instantaneamente me faz arregalar os olhos e olhar pro celular em choque total.
"Pai?" Pergunto, meio confusa, mas também muito chocada e assustada por ele estar do outro lado. Vejo o Jackson virar a cabeça pra mim, chocado, antes de pegar o próprio celular e começar a ligar freneticamente pra, aposto, a minha mãe.
"Sim, querida, sou eu. Você está bem?" Ele pergunta, mais preocupado comigo. Ele é o que foi sequestrado e está sendo mantido em condições que são desumanas!
"Pai, eu tô bem. Tenho ficado com a mãe e a equipe dela. Você tá bem?" Pergunto, tentando fazer ele ver que ele é quem a gente tinha que estar preocupado aqui. Nesse mesmo momento, o Jackson estava contando pra quem quer que estivesse no telefone com quem eu tava falando.
"Eu ainda tô vivo, querida. Ia ser muito melhor se eu estivesse aí com você e com sua mãe. Não sei se vou sair daqui, então, por favor, escuta, eu amo você e sua mãe muito, muito mesmo. Não sei se vou ter a chance de dizer isso pra sua mãe." Meu pai suspira, o que só permitiu que as lágrimas idiotas escapassem dos meus olhos, enquanto o Jackson checa se meu cinto de segurança tava preso corretamente antes de fazer a gente acelerar na estrada, com o celular na mão dele.
"Não, pai, não fala isso, você vai sair dessa e a gente vai estar junto, eu prometo, por favor, não desista." Digo, tentando fazer parecer que eu não estava chorando. Tinha que ser forte por ele, pra ele continuar forte até a gente poder resgatá-lo.
"Eu tô tentando me manter forte pelas minhas duas garotas, eu prometo. Você também precisa ter cuidado, querida, eles..." Ele começa a dizer, mas antes que pudesse terminar a frase, ouço o som do celular sendo arrancado das mãos dele.
"Já chega, acho que está na hora de eu ter uma conversinha com a Srta. Ally." A voz de um homem, que eu sabia que era o Mário, principalmente por causa da conversa que ele e eu tivemos na época em que ele esteve na nossa porta da frente, um momento que eu já repeti tantas vezes na minha cabeça desde que me lembrei. "Olá, Srta. Carter, é ótimo que nós dois possamos ter uma conversa, estou observando você há algum tempo." Ele diz com uma voz calma, que de alguma forma era ainda mais assustadora do que se ele estivesse rindo.
"O que você quer, Mário?" Pergunto, não só de saco cheio dele tomando conta da minha vida ultimamente, mas também preocupada com o que ele pode estar planejando, ele não teria simplesmente levado meu pai sem ter um plano de ação antes de devolvê-lo.
"Essa é uma pergunta muito boa, Srta. Carter, mas também é uma pergunta um tanto difícil de responder. Tenho certeza que a Srta. Carter entende, há muitas pessoas que vêm me rastreando há alguns anos." Ele diz, falando comigo tão casualmente, que parecia que ele era apenas um amigo meu tendo uma conversa normal, mas ele estava longe de ser qualquer coisa parecida com isso pra mim.
O Jackson colocando algo no meu colo me faz olhar pra baixo, onde, escrito em um pedacinho de papel, se lia 'faça-o continuar falando'. Olho pra ele, mandando um sinal de cabeça antes de voltar a atenção pro celular.
"Minha mãe sendo uma delas." Digo, esperando fazer o que o Jackson tinha acabado de me dizer, não sabia por que eles queriam que eu continuasse falando com ele, mas não podia perguntar por que naquele momento.
"Você é uma mulher muito esperta, Srta. Carter, tenho que dar algum crédito ao seu pai, ele fez um trabalho muito bom em criá-la sozinha." O Mário diz, parecendo que tava rindo um pouquinho, ele tava tentando entrar na minha cabeça e me colocar contra a minha mãe de novo?
"Como você conseguiu esse número? Minha mãe e a equipe dela fizeram disso a principal prioridade manter minha nova identidade e informações em segredo?" Pergunto, tentando colocar o que ele disse no fundo da minha mente, eu sabia o que ele tava tentando fazer, e não ia deixar.
"Sua mãe e a equipe dela só podem esconder as informações que eu quero saber por um tempinho, mas se eu quiser descobrir informações, farei isso com bastante facilidade." Ele diz, com outra risadinha, tava claro que ele gosta de se gabar de todo o poder que ele tem por aí.
"Aposto que seu amigo, Derek, te ajudou com isso." Digo quando o Jackson vira a última esquina onde a base ficava, um lugar que eu já estive em várias ocasiões diferentes.
"Derek foi útil pra mim por um tempo, mas, infelizmente pra ele, a utilidade dele acabou. Mas não vamos discutir sobre ele, essa é uma pessoa que você verá mais cedo do que imagina, Srta. Carter." Ele diz quando o Jackson para o carro no estacionamento, mas desta vez minha mãe, o Reece e o homem com quem eu posso ter gritado estavam lá esperando por nós. "Se você quiser que seu pai volte pra você ileso, vou precisar da sua ajuda, Srta. Carter." Ele diz quando minha porta é aberta e o Jackson me puxa pra fora pra ficar com o resto, que agora começam a ouvir nossa conversa.
"Por que você precisa da minha ajuda?" Pergunto, um pouco preocupada com o pedido dele, quero dizer, que tipo de coisas ele vai tentar me fazer fazer?!
"Não! Eu não vou deixar você usar minha filha!" Ouço a voz do meu pai no fundo de novo, meus olhos agora vão olhar pra minha mãe que segura a mão na boca, tentando não chorar. "Me mate se for preciso, deixe a Ally fora disso!" Ele grita de novo, o que me faz olhar pro chão, por que ele ia querer se entregar assim?
"Que heroico da sua parte, mas receio que isso não faça parte do meu plano, cale ele." O Mário diz antes que os gritos do meu pai logo acabassem, isso faz meu coração afundar, caso eles tenham machucado meu pai de alguma forma pra mantê-lo quieto.
"O que você acabou de fazer com ele?" Pergunto, ficando bem frustrada com o Mário agora, ele me colocou no telefone dizendo que não ia machucar meu pai, mas aqui acabei de ouvir ele mandando as pessoas calarem ele.
"Ah, não se preocupe, Srta. Carter, seu pai está bem. Mas se você quiser vê-lo vivo e bem de novo, vai fazer exatamente o que eu mandar." Ele me diz em um tom mais sério, olho pra minha mãe e pro Reece, que pareciam preocupados também.
"O que você precisa que eu faça?" Pergunto, sem tirar os olhos da minha mãe, não sabia se era algo que ela queria que eu perguntasse, mas, naquele momento, meu único pensamento era manter meu pai seguro.
"Tem uma série de coisas que preciso que você faça antes de ver seu pai de novo, mas não uma depois da outra. O que seria divertido em você fazer um trabalho pra mim e depois ter seu pai de volta? Precisamos manter as coisas interessantes, você não acha?" Ele pergunta, o que me deu vontade de jogar o celular pra longe no estacionamento, mas isso não ia ajudar ninguém nessa situação. "Primeiro, preciso que você entregue a corrente do meu pai e a arma que a equipe da sua mãe roubou de mim há três anos, ela será colocada em uma sacola e lacrada. Se algum rastreador, dispositivo de escuta ou câmeras forem encontrados nos itens, seu pai vai morrer. Se qualquer outra pessoa, que não seja você, tentar entregar os itens, seu pai vai morrer. Vou permitir que você seja levada ao local pelo seu babá, mas ele deve esperar perto do carro enquanto você faz a entrega." O Mário começa a explicar, viro a cabeça pro lado, onde o Jackson tava me mandando um sorrisinho pra me tranquilizar, a mão dele alcançando lentamente atrás das minhas costas pra pegar minha mão discretamente.
"Você vai me encontrar no Westcombe Park, perto do coreto branco às 9h21, isso dará algum tempo pra sua mãe preparar a corrente e a arma, mas preciso ressaltar, se minhas regras não forem seguidas e a corrente ou arma forem adulteradas, seu pai vai morrer." O Mário diz, me dando um aviso severo, respiro fundo, entendendo o quão perigosa, mas também aterrorizante, essa situação era.
"Eu entendo, estarei lá." Digo, confirmando que eu estaria lá amanhã de manhã, por mais aterrorizante que isso soasse pra mim naquele momento.
"Olha, eu sabia que gostava de você por algum motivo, Srta. Carter. Estarei te vendo em breve." Ele diz antes que a linha telefônica morra em breve, acho que as despedidas acabaram.
"Acho que estou mais envolvida nessa situação do que você pensava." Digo, agora olhando pra minha mãe, que balançou a cabeça antes de gritar ordens pras pessoas ao seu redor.
Viro pra olhar pro Jackson de novo, que estava passando o polegar pelas minhas juntas pra me ajudar a me acalmar.
"Os azarões liderando de novo." Sussurro enquanto minha mãe e os dois homens entram no prédio, enquanto o Jackson e eu permanecemos perto do carro.
"Do jeito que a gente gosta." Ele sussurra de volta, com um sorriso.