Capítulo 40
POV da Onika...
"Cê vai pro escritório, né? Me deixa lá também? Tô atrasada e meu chefe não curte muito atrasos." Eu perguntei pra ele com a voz firme, orgulhosa de não ter gaguejado.
Nossa, eu pratiquei essa fala umas cinquenta vezes.
Mas, em vez de responder, ele só começou a olhar pros lados, incrédulo. Aí deu um beliscão em si mesmo. Ih, lascou, provou que ficou maluco.
Tic, tac, tic... Por que ele não responde?
"Então é sim ou não?" Eu perguntei impaciente e um pouco ansiosa.
"S...sim...eu...eu não vejo por que não." Ele falou, parecendo pasmo.
Então eu sentei no carro na hora, antes que ele mudasse de ideia. Mas, em vez de dar a partida, ele ficou plantado no lugar, tipo paralisado.
"Bem que você podia começar a dirigir... Tô te avisando, meu chefe é muito grosso e eu não quero ser a vítima dele hoje." Eu falei, zoando.
Isso pegou ele, um sorriso preguiçoso apareceu nos lábios e ele falou: "Bem, acontece que eu conheço seu chefe pessoalmente, ele não vai ousar ser muito grosso com você, garanto." Agora o sorriso dele virou convencido e eu retribuí com meu sorrisinho doce e inocente.
Ele estreitou os olhos pra mim, quase imperceptível, mas não falou nada. Eu sei que ele não tá engolindo... ainda. Mas ele vai engolir. Vou fazer de tudo pra que engula.
Ele entrou no banco do motorista. Me olhando intensamente, com as sobrancelhas franzidas, procurando algum sinal que entregasse o que tá rolando.
Meu coração começou a bater rápido.
Relaxa, respira fundo e fica calma.
Não entra em pânico.
Não entra em pânico.
Você consegue!
Ai, meu Deus, agora isso tá me dando arrepios... ele tá me olhando faz MUITO tempo. Por que ele não desvia o olhar?
Por favor, Deus, não deixa ele descobrir meu plano. Por favor.
Será que ele sacou o que tá rolando? Eu sabia que tava brincando com fogo. Tô morta!
Ele finalmente falou, depois de um longo silêncio de um minuto.
"Coloca o cinto." Aí olhou pra frente e começou a dirigir, e eu soltei o ar que nem tinha percebido que tava prendendo.
De vez em quando ele continuava me dando umas olhadas de canto, como se estivesse esperando que eu sumisse no ar, tipo um sonho.
Eu finalmente quebrei o silêncio constrangedor, falando: "Você pulou o café da manhã hoje... então eu preparei pra você."
Ele virou a cabeça na minha direção tão rápido que eu fiquei com medo de ter deslocado a vértebra cervical.
Ele só ficou me encarando, com a boca aberta, e eu fiquei me remexendo no banco, me sentindo desconfortável com o olhar penetrante dele. Que climão!
Eu finalmente decidi intervir. "Agustin, você tá dirigindo... tem que olhar pra frente, sabe?" Isso tirou ele da bad.
"Ah... hum... ah... ah, é! ... Bem, obrigado por... por... ser tão atenciosa?" Ele falou, parecendo inseguro, e gaguejou.
"De nada." Eu falei com um sorrisinho e olhei pra frente pra perceber que a gente nem tava no caminho certo!
"Agustin, você tinha que fazer a rotatória." Eu falei, incrédula.
Ele olhou pros lados, incrédulo, e falou: "Ah, porra... estou ferrado." A última parte foi quase um sussurro, não era pra eu ouvir, mas ouvi mesmo assim.
Isso é só o começo, Agustin De Luca, eu sussurrei pra mim mesma.
Finalmente chegamos ao nosso destino e saímos do carro.
Nossa, foi melhor do que eu pensei. Bom começo, Onika, eu me elogiei. Pelo menos ele não tá desconfiando de nada, ou pelo menos é o que eu acho.
Entramos nas dependências do escritório, os seguranças deram aquela dupla olhada quando me viram saindo do carro do Agustin e eu quase não aguentei de rir das expressões de pasmo deles quando o Agustin respondeu com um aceno e um sorriso pro
'bom dia, senhor.'
Acho que as etiquetas normais não servem pro Agustin.
As reações dos meus colegas foram parecidas, a mandíbula deles quase caiu no chão ao ver um Agustin sorridente. Eu sorri por dentro. Meu Deus, que impressão o Agustin causou na cabeça deles, não é à toa.
Quando chegamos ao elevador pra ir pros nossos escritórios, eu fui em direção ao elevador comum, já que o elevador privativo é só pra CEO e Diretor de Operações usarem, que seria o Agustin e o Jacob, mas o Agustin agarrou minha mão, me fazendo virar pra ele.
"Você pode usar o elevador privativo, sabia?" Ele falou, como se fosse a coisa mais natural do mundo
É, claro, o que você quiser por enquanto.
Então, eu balancei a cabeça sem discutir e entrei com ele murmurando um "obrigada".
Ele pareceu um pouco surpreso com a minha falta total de resistência. Merda, espero que não esteja exagerando, dá passos pequenos, Onika. Eu me repreendi por dentro, mas ele se recuperou rápido e falou
"Por nada" com um sorriso convencido, estampado nos lábios.
Ótimo, eu disse pra mim mesma.
Ih, falei cedo demais, percebi quando vi o Jacob entrando no elevador. Que baita hora, Jacob, e eu achando que as coisas não podiam ficar mais chatas. Foda-se a minha vida.
Uma pontada de culpa me atingiu a barriga quando olhei pra cima e vi o nariz enfaixado do Jacob.
Agustin e Jacob se encararam, como se estivessem prontos pra cortar a garganta um do outro a qualquer momento, e a temperatura do ambiente ao nosso redor subiu vários graus. Olhando pra eles, ninguém diria que até ontem eles eram melhores amigos... eles parecem arqui-inimigos no momento, prontos pra se destruir.
Não tá bom. Eu apertei os números do andar na correria, antes que eles começassem a brigar.
Vi o olhar do Jacob descer pra minha cintura e a expressão dele escurecer visivelmente, segui o olhar dele, foi aí que percebi que o Agustin tava com a mão na minha cintura e me puxou pra perto dele, como se estivesse marcando território.
Custou tudo em mim não dar um tapa na mão dele. Eu não sou sua porra de posse, eu queria gritar na cara dele, mas me controlei, não querendo voltar pra estaca zero.
A tensão era palpável no ar, grossa e sufocante.
Depois do que pareceu uma eternidade, o elevador abriu com um "ping" e eu imediatamente saí daquele inferno e entrei no meu escritório, com velocidade sobre-humana, fechando a porta atrás de mim e respirando fundo, tentando acalmar meus nervos. Ufa!
Fui trabalhar e, tipo, dez minutos depois meu celular tocou, revelando uma mensagem do Jacob.
Encontra comigo do lado de fora da cafeteria, agora.
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O Jacob tava encostado na parede do lado da cafeteria, com a camisa branca e a calça jeans desbotada, com duas xícaras de café na mão.
"E aí, como tá indo? Vejo que você fez um bom progresso em um dia..." Ele perguntou. Ele parece... bravo?
"Ele tava com as mãos em você como se você fosse porra nenhuma dele" ele falou, dessa vez com os dentes cerrados.
Eu olhei pra ele, confusa.
Ele devia estar feliz, né? Afinal, é esse o nosso plano. Então por que eu sinto uma ponta de raiva na voz dele?
"Bem... eu não sei..." Eu falei, insegura... ele tava me olhando, esperando uma explicação.
"Ok, beleza, eu vou te contar a verdade... simplesmente não tá certo... tô morrendo de medo dele, fora de mim, e tô me sentindo tão culpada... ai, meu Deus... tô uma pilha de nervos... por que a vida tem que ser tão complicada? Eu só queria nunca ter nascido... Jesus, surto a cada minuto... Por que ele não pode me deixar em paz? Por que..."
Eu parei de falar de repente, sentindo os lábios do Jacob pressionando suavemente minha bochecha direita, bem de leve, como se estivesse tocando algo delicado e... de grande valor?
Eu só fiquei ali, chocada. Que porra foi essa que acabou de acontecer? Eu olhei pra ele, incrédula, com os olhos arregalados. Ele, aparentemente, parecia não ter se abalado e só deu de ombros e perguntou "O que você tava dizendo?"
O que você tava dizendo?
O que você tava dizendo?!
É só isso que ele tem pra dizer em sua defesa?!
Eu olhei pros lados pra ver se alguém tinha notado essa palhaçada, se a notícia fosse pro Agustin, então... Mas, por sorte, não tinha ninguém por perto.
Eu suspirei aliviada e fuzilei o Jacob com o olhar.
"Que foi? Você precisava respirar pra não sufocar, e, com a velocidade que você tava tagarelando, eu tava com medo de você sofrer de falta de oxigênio. E eu vi que funcionou bem" Ele falou com um sorriso malicioso e levantou as mãos no ar em um gesto de rendição.
"Essa foi sua forma de me calar?!" Eu perguntei e estreitei os olhos pra ele, tentando parecer intimidadora. Ele só sorriu e falou "gostou? Então posso fazer mais vezes?" ele falou com um sorriso galanteador no rosto, mostrando as covinhas, fazendo com que minha fachada de intimidadora caísse e me fazendo sorrir de volta pra ele. Nossa, funcionou mesmo.
"Só relaxa, Onika, e esquece o certo e o errado... Agustin que causou isso. Então para de ter pena dele. E ele não tem poder nenhum sobre você... abusar de uma mulher não é sinal de poder, é só sinal de covardia... ele só vai ter poder sobre você na medida em que você permitir. Não deixe ele mexer com sua cabeça. Joga o medo dele pra FORA do seu cérebro. Ele não merece nada seu... nem o seu medo.
Em qualquer momento que você sentir que as coisas não estão indo bem, ou algo está errado, não importa o quão irrelevante você ache, você me liga. Estarei lá assim que você perceber. Eu prometo que não vou deixar ele te tocar dessa vez. Seja forte. Lembra o que ele fez com você? Ele não é alguém pra ter pena, ok?"
Eu balancei a cabeça em concordância e compreensão, enquanto eu lembrava de todas aquelas memórias amargas dele me torturando brutalmente. Todo o meu ódio pelo Agustin ameaçando ressurgir de novo. Se ele não consegue nem afastar uma criança inocente de suas maldades, então por que eu tenho que simpatizar com ele?
Fui tirada dos meus pensamentos perturbadores quando meu celular tocou de novo. Dessa vez, pra revelar a mensagem do Agustin.
Você pode vir na minha sala, por favor? Preciso conversar com você.
Qual é essa de "por favor" agora? Ele não deve ter falado "por favor" tantas vezes na vida dele quanto falou na última semana.
Eu estremei e concluí que ia ser um dia longo.
"Agustin?" Jacob perguntou, me olhando com as sobrancelhas franzidas.
Eu balancei a cabeça.
"Bem, então continua, não queremos que ele fique esperando..."
"É... ok, então eu vou indo e... obrigada." Eu falei, me sentindo genuinamente grata a ele por todo o apoio.
"Bobagem, obrigada por quê?... é a sua luta e você que tá lutando... é você que tá fazendo tudo aqui. Eu não fiz nada. Então agradeça a si mesma, mulher." Ele falou, com os olhos mostrando uma mistura de sinceridade e admiração.
Meu coração derreteu ali.
"Bem, eu tava te agradecendo pelo... café." Eu brinquei e nós dois rimos muito.
Agora eu comecei a notar o padrão. Sempre que eu vou pro Jacob, preocupada, acabo sorrindo, não importa o quão sério seja o assunto. Ele tem essa grande capacidade de me acalmar e me tranquilizar só com a presença dele. Algo nele faz tudo parecer certo, embora eu saiba que as coisas estão longe de estarem certas.
Eu suspirei pesadamente e fui pra sala do Agustin. Lá vou eu, Agustin. Aproveita o seu bom momento porque ele não vai durar muito.
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