Capítulo 53
Ponto de vista do Agustin.....
Eu tava roubando uns olhares pra ela durante a volta pra casa. Os olhos dela grudados na estrada, olhando pra frente. Ela tava com a cabeça longe, pensando um monte de coisa. Acho que sei o que ela tá pensando, a cara de sofrimento puro entrega tudo, ela tá lembrando daquela vez que veio até mim chorando e arrasada, implorando pra eu acreditar nela... mas eu não acreditei.
Minha garganta apertou, doendo pra caramba só de pensar naquele dia, como se eu tivesse engolido um monte de lâminas afiadas, fazendo tudo por dentro sangrar.
Daria tudo pra só poder abraçá-la e fazer ela acreditar que não vai acontecer de novo.
Nenhuma desgraça vai acontecer com ela, nunca mais, jurei pra mim mesmo.
Assim que estacionei o carro, ela saiu na velocidade da luz, indo pro quarto dela, me evitando. Sei que ela tá com medo de desabar na minha frente, se não sair dali.
Corri atrás dela e antes que ela pudesse bater a porta na minha cara, coloquei meu pé entre a porta e a parede.
"Agustin, agora não, por favor, some daqui", ela disse, a voz quase um sussurro, tremendo no final, me fazendo sentir um nó no estômago com a fragilidade na voz dela.
"Não", falei, firme. "Não vou a lugar nenhum antes de ter certeza que você tá bem", falei e entrei à força, fazendo a estrutura frágil dela cambalear pra trás, mas antes que ela caísse, a peguei nos meus braços, fazendo ela soltar um choque.
"Eu tô bem", ela disse com a voz fria, tentando se soltar, mas falhou miseravelmente.
"Não, você não tá", falei, meus olhos presos nos dela.
"Eu. Tô. Bem. Agustin, qual parte você não entendeu?" ela rosnou pra mim com raiva, me empurrando com toda a força que conseguiu reunir.
"Já vi coisa pior, já passei por coisa pior, já sobrevivi antes, posso fazer o mesmo de novo... sem você", ela adicionou, os olhos nunca deixando os meus, a voz nunca tremendo nem um pouco, deixando claro que ela tava falando sério, e eu sei que tá, a força que ela desenvolveu me deixou completamente chocado, dois anos atrás eu nunca imaginaria que ia ver ela assim.
Ela costumava ser tão despreocupada e sorridente, podia te animar só com um sorriso, e agora eu podia morrer só pra ver ela sorrir mais uma vez, o mesmo sorriso que eu desvalorizei.
Fui eu que fiz isso com ela, e eu sei que quanto mais ela tenta parecer forte por fora, mais ela quebra por dentro.
Não sei como quebrar essa barreira impenetrável que ela criou em volta dela, uma parte de mim sabe que ela nunca vai deixar isso acontecer, mas como eu quero ter minha antiga Onika de volta.
Como eu queria me ajoelhar e implorar pra ela só me dar uma chance de consertar tudo, mas sei que essa é a última coisa que ela precisa agora, não é hora de pensar em mim e deixar as coisas mais difíceis pra ela do que já são.
Respirei fundo e falei, "Tudo bem não estar bem às vezes, sabe. Tudo que você precisa fazer é admitir pra si mesma... você ainda vai ser a mulher mais forte que eu conheço", eu disse.
Ela deu um passo pra trás, como se tivesse se queimado com o meu toque. Olhando pra mim como se estivesse me vendo pela primeira vez.
"Tô cansada, Agustin, quero ir pra cama, por favor, vai embora", ela disse, a voz dela soando tão estranha nos meus ouvidos.
"Posso ficar com você... por hoje... eu..." ela me interrompeu com grosseria.
"Não, eu te falei que consigo lidar com isso sozinha, e de qualquer jeito, o que você quer que eu faça? Fazer conchinha com você pra me consolar -" ela disse com deboche, fazendo uma facada profunda no meu coração "-as coisas mudaram, não busco refúgio em você mais",
Dizendo isso, ela se virou murmurando um "boa noite", de um jeito que não ligava.
Peguei o pulso dela, fazendo ela se virar pra mim.
"Tudo bem, se eu ir embora é o que te traz paz... então eu vou fazer isso, mas antes de ir, só tenho uma coisa pra dizer, quero que saiba, toda vez que te vejo chateada, meu coração dói, me tirando a sanidade, mas essa não é a pior parte, saber que talvez eu seja o motivo disso, é o que me faz sangrar a cada respiração que dou.
Sei que, não importa o que eu faça, você não vai me deixar entrar, não que eu te culpe por isso... é só que não aguento mais, tá me matando aos poucos, por favor, Onika, eu imploro, para de nos machucar assim, só vai piorar as coisas pra nós dois... se não por mim, pelo menos você merece ser feliz, se você não largar o passado, não vai conseguir seguir em frente."
Dizendo isso, dei um beijo leve na testa dela e fui embora.
No momento em que saí do quarto dela, o som de um 'baque' ecoou nos meus ouvidos, indicando que ela caiu no chão, seguido pelos soluços que cortavam meu coração. Precisei de tudo que tinha pra ir embora dali, quando eu só queria cair de joelhos, minhas pernas se recusando a me sustentar mais.
Quando cheguei no meu quarto, meu telefone vibrou, mostrando uma mensagem do Jacob.
Tudo resolvido, aquele filho da puta tá atrás das grades.
Respirei fundo pra me acalmar, como eu queria matar aquele desgraçado.
Obrigado.
Respondi.
Como a Onika tá?
Jacob perguntou. Olhei pra tela por muito tempo, sem saber o que responder pra essa.
Sei que o Jacob se importa de verdade com ela e merece uma resposta.
Ela vai ficar bem.
Respondi.
Tomara, eu queria adicionar.
~~~
Acordei com o bipe do meu celular. Olhei a hora e xinguei, são 10 da manhã. Não conseguia lembrar quando tinha dormido. A última coisa que lembro é a expressão de dor da Onika ocupando meus pensamentos.
Atendi a ligação e rosnei, "fala".
"Chefe, o Jacob tá aqui, ele não vai embora mesmo com nossos avisos, ele tá irredutível em encontrar a Sra. Onika, ele diz que não vai embora até ter certeza que ela tá bem. O que a gente faz, Chefe?" Kane perguntou.
Xinguei baixinho e falei, "Tô indo".
............................
Ponto de vista do Jacob......
Vi o Agustin vindo na minha direção com uma expressão fechada.
Ele parou na minha frente com as mãos cruzadas, os seguranças dele em pé entre nós dois.
Ele perguntou com a voz irritada, "Por que você tá aqui, Jacob?"
Ergui uma sobrancelha pra ele, "Onde foi que você deixou o bom senso, não consegue adivinhar, vim ver a Onika", eu disse com a voz fria.
"Eu dou conta dela, é só o que você precisa saber."
Não consegui evitar de soltar uma risada sem graça com isso, "Nós dois sabemos muito bem como você cuidou dela no passado".
Ele apertou os dentes com tanta força, que fiquei com medo que desmanchasse em outro minuto.
"Quero que você fique longe da minha esposa, entendeu?" Ele rosnou com um tom de raiva na voz.
"Só recebo ordens sobre negócios de você", declarei.
"É sobre negócios, minha esposa é o meu negócio e de mais ninguém, então some daqui", ele disse com os dentes cerrados.
"Fala isso na cara da Onika, eu duvido", eu disse em tom de deboche.
Ele fechou as mãos pros lados e eu sabia que tava pegando ele. Bom.
"Chega disso", ele explodiu, a pouca paciência dele acabando rápido.
"Posso te demitir, não me provoque, Jacob. Você tá brincando com fogo. Quando eu falo pra ficar longe dela, é isso que você faz", ele me avisou com seu tom de chefe.
"E você não esquece, Agustin, não sou nenhum mendigo desesperado por esse emprego que vou lamber seus pés, tenho uma grana fudida apodrecendo na minha conta bancária, então para com essa merda de ameaças inúteis e, além disso, cuido de metade do seu trabalho, sei de tudo sobre essa empresa, você precisa de mim pra tocar seus negócios e, pra não esquecer... posso te arruinar em questão de minutos".
Ele me fuzilou com os olhos e perguntou, "Você tá me ameaçando?" Mas o tom dele não era de alguém que se sentia ameaçado, era mais de deboche, os olhos brilhando em diversão.
Canalha. Sei que ele consegue ver através do meu ato, ele sabe muito bem que eu nunca vou trair a empresa, não importa o que.
Respirei fundo, se ele quer jogar sujo, é isso que ele vai ter em troca, "Se você não me deixar entrar agora, vou contar pra Onika que você tá lendo os diários dela pelas costas".
Os olhos dele arregalaram em choque. "Co..como..vo.." parece que ele não consegue mais formar palavras coerentes.
Ele se recompôs imediatamente. "Você tá me espionando?" Ele exigiu.
"Dois podem jogar esse jogo, Agustin, nunca confunda meu silêncio com minha burrice".
"Por que você não contou pra ela ainda, me pergunto?" ele perguntou com confusão genuína na voz.
"Porque você merece cada pedaço do inferno que tá passando... pode morrer na sua própria culpa por tudo o que me importa", eu disse.
Esperei que ele ficasse bravo ou talvez... magoado, mas a expressão dele não entregou nada.
Caminhei pra frente e o Agustin sinalizou pra seus seguranças me deixarem entrar, e foi o que eu fiz.
......................