Capítulo 57
Ponto de vista da Onika...
Eu voltei pra casa e fui direto ver o Alex. Depois de ter certeza que ele tava dormindo numa boa, fui pro meu quarto.
Minha cabeça dói, meu coração dói, a cara do Jacob não para de passar na minha frente, a expressão de dor dele, os olhos cheios de problemas, como se ele tivesse passado por uma tortura sem fim... tudo por minha causa. Eu não consigo tirar a culpa que tá apertando meu coração com força.
O Jacob passou por toda essa dor, por que ele nunca me contou nada antes?
Ele foi pro inferno, pra quê, pra que o Agustin ficasse feliz. Ah.
A ironia da situação de repente me atingiu como um martelo, eu consigo até culpar o Jacob? Não é isso que eu fiz também, e a pior parte é que o Agustin ainda consegue me fazer sentir mal por ele, como se ele também fosse uma vítima em tudo isso, talvez ele seja, por mais que eu adore jogar a culpa toda no Agustin, em algum lugar eu sei que ele também tá machucado, ninguém pode esperar que a própria mãe e o melhor amigo vão traí-lo dessa forma, tem que ser doloroso, tem que ser difícil.
Na real, até eu fiquei chocada com o comportamento do Xavier, como se tivesse rolado algum mal-entendido, o Xavier não pode fazer isso comigo, com a gente, a gente era muito próximo. Eu, Agustin, Jacob e Xavier, mais que amigos, a gente era tipo uma família feliz, eu achava que todos nós podíamos nos apoiar mesmo quando as coisas estivessem feias, era quase como se eu tivesse ganhado a família que eu nunca tive, e só uma conspiração e tudo foi destruído.
Eu não conseguia acreditar, eu tava mesmo esperando acordar e perceber que tudo era só um pesadelo, ou sei lá, eles tavam só brincando comigo, qualquer hora dessas eles iam começar a rir e falar, 'pegamos você, princesa', igual às inúmeras vezes que eles faziam no passado.
E eu ia brigar com eles e não ia falar com eles por dias, a não ser que eles implorassem pelo meu perdão, porque dessa vez eles tinham passado de todos os limites, por me assustar tanto, por me dar aqueles olhares falsos de nojo que me machucaram tanto, mas eu ia dar o crédito deles por serem ótimos atores!
No fundo eu sabia que eles não podiam estar brincando com algo tão sério, mas de novo eu não conseguia imaginar que o Xavier ia ser tão cuzão, então eu me apeguei à primeira possibilidade.
Foi quando o Agustin começou a me torturar, eu aceitei a verdade, que ninguém ia pular de trás das cortinas e dizer que acabou, que eles se divertiram, por mais que parecesse ridículo, a possibilidade sempre ficava no fundo da minha cabeça, em forma de esperança desesperada, mas eu não conseguia mais negar a verdade, porque eu não conseguia imaginar o Agustin fazendo isso comigo nem nos meus piores pesadelos, então tinha que ser verdade e não encenação.
Pra ser sincera, se eu fosse traída assim pela minha mãe, pra mim não ia ser diferente do que o Agustin fez comigo, então eu consigo entender que o Agustin também passou pela dor de ser traído, traído por alguém que ele amava tanto.
Mas o Agustin me conhecia, como não conheceria, a gente namorou por dois anos antes de casar, me dar pelo menos uma chance de explicar tudo não devia ser tão difícil assim, ele não foi o que me disse que ia estar do meu lado, não importa o que acontecesse, porra, a gente fez todos os votos de estar um pro outro até a morte, e tudo que eu pedi foi pra ele investigar o caso uma vez.
Eu não pedi pra ele acreditar em mim mais do que na mãe dele ou no melhor amigo dele, tudo que eu pedi foi pra ele só me ouvir uma vez, não tinha nenhum problema nisso, ou tinha? Até os piores criminosos têm a chance de se defender.
Ele tinha todo o poder, ele podia ter feito isso em horas... essa é a parte que eu não consigo perdoá-lo, não porque ele não me escolheu, mas porque ele nunca sequer considerou a possibilidade de eu estar certa, mesmo depois de tudo que a gente viveu junto, ele nunca achou que precisava, ele sabia que eu tava mentindo, nunca teve nenhuma dúvida. Foi tão fácil. Foi tão, tão fácil, que conveniente pro Xavier, eu não significava nada pro Agustin, nada.
Mas não vou mentir, tem vezes que eu chego tão perto de perdoá-lo, vê-lo se esforçando tanto pra mudar, pra consertar as coisas, quebrar algo dentro de mim vê-lo tão vulnerável, quase como se estivesse entregando o coração nas minhas mãos pra eu fazer o que eu quiser.
A única coisa que me impede de perdoá-lo é que eu não sou mais tão ingênua. O dia em que ele realmente perceber o erro dele, vai ser o dia em que ele me deixar ir. Qualquer coisa a menos que isso é só culpa inútil sem nenhum significado, genuína ou não. Como se fosse erva daninha que cria raízes no coração dele, sem utilidade alguma.
Se, mesmo depois de me destruir, tudo que ele consegue pensar é que não pode viver sem mim, em vez de reconhecer que eu não posso viver com ele, não depois de tudo que ele fez comigo, não sem lembrar de tudo que ele fez comigo, então a culpa dele é tão inútil quanto o 'suposto' amor dele.
Mais do que as emoções das pessoas, a atitude delas é o que mais importa pra mim agora, dessa vez eu coloquei minhas prioridades em ordem, então o Agustin não vai me quebrar, nem agora, nem nunca, isso é o que eu aprendi com o Agustin. Focar no último. Porque você tem que viver a vida com a atitude da pessoa, as emoções são só sentimentos trancados dentro do seu coração, te deixando fraco.
Dar uma segunda chance pra ele ia ser como entregar a bala que pode perfurar meu coração direto, aquela que ele quase acertou da primeira vez, eu não vou dar outra chance pra ele.
Eu nunca vou viver com uma pessoa que pode representar qualquer tipo de perigo pro meu filho.
Eu vou esperar o dia em que ele perceber que eu não posso viver com uma pessoa que eu tenho pesadelos.
Eu não consigo amar uma pessoa que eu tenho pesadelos.
Tem algo pior que isso, a pessoa que deveria te proteger é quem te assusta. Se eu não consigo me sentir segura e protegida com a pessoa com quem eu vivo, amo ou não, eu prefiro viver sozinha.
Por que você tem que estragar tudo, Agustin? Por que tem que ser assim? Podia ser tão diferente, se você tivesse tentado uma vez considerar a possibilidade de que eu não faria isso com você, em vez de me torturar como um homem possuído, eu podia ter te aceitado de volta, ah, de quem eu tô tentando enganar, eu ia te aceitar de volta num piscar de olhos... Foda-se isso, ficar repetindo a mesma coisa não vai mudar o passado. Ele fez a escolha dele, agora eu tenho que fazer a minha, acabou.
Às vezes eu só quero fugir de tudo, fugir pra longe com o Alex e viver minha vida e fingir que tá tudo bem. Nada aconteceu. Eu preciso desesperadamente fugir de tudo isso. O Agustin precisa entender que, na tentativa de quebrar as paredes ao redor do meu coração, ele está me quebrando de novo, esmagando meu coração em vez disso. Porque eu nunca consigo ser tão fria com ele quanto ele costumava ser comigo.
Eu passei a mão na testa em um movimento suave pra aliviar a dor. Olhei pro meu relógio, já passava da meia-noite. Hora de cair na cama. Eu preciso muito só fechar os olhos e mergulhar num sono profundo.
Suspirei cansada e abri a porta do meu quarto.
Estava escuro, só um pequeno raio de luz entrando no quarto pela janela. Senti uma onda de calafrios percorrer meu corpo, como se algo ruim estivesse prestes a acontecer. Estranho. Ignorei meus instintos, eu tô só paranoica, pensei.
Liguei as luzes e virei pra ver... o Agustin sentado na minha cama.
Na hora eu senti a fúria subir em mim como um vulcão, o que ele tá fazendo aqui? Eu não deixei claro que eu ia fazer o que eu quiser, se ele acha que pode me dar uma bronca por estar atrasada como se fosse meu pai, ele tá muito enganado. Ele não precisa agir como meu marido só porque estamos casados no papel.
Quando eu tava prestes a dar uma bronca nele, percebi que tinha algo estranho nele, ele nem tava me olhando, os olhos dele estavam fixos em frente, como se nem tivesse me visto, como se nem estivesse ciente do que estava ao redor. Como se estivesse em transe.
"Ag-Agustin? O que foi?", perguntei, a preocupação tomando conta da minha raiva.
Ele não disse nada, nem olhou pra mim.
"Agustin, eu tô falando com você." Minha voz mais alta dessa vez.
Nada. Meu coração na hora acelerou.
Corri pra ele e me ajoelhei na frente dele e dei um tapinha na bochecha dele. "Agustin, o que foi?", perguntei suave dessa vez, tentando controlar o pânico.
Ele olhou pra mim como se estivesse reconhecendo minha presença pela primeira vez.
Nossos olhos se encontraram e a respiração travou na minha garganta.
Eu já vi muitas emoções nos olhos dele, frieza, distância, dor, problemas, até amor e admiração, mas nunca algo assim. Parecia... morto, a preocupação me atormentou, um calafrio de medo desceu pela minha espinha.
"Agustin, o que foi? Por favor, fala comigo."
Nada.
Ele só ficou me encarando sem piscar, quase como uma estátua, como se ele pudesse me ver, mas minha voz não estivesse chegando nos ouvidos dele,
Meu pânico aumentou exponencialmente, eu nunca tinha visto ele assim, nem depois que ele achou que eu tinha traído ele, ele ficou devastado, mas nunca assim.
Bati na bochecha dele com força dessa vez.
Ele nem se moveu um músculo.
"Agustin, você tá me ouvindo?" Minha voz rachou dessa vez.
Nada.
"Por favor, Agustin, diz alguma coisa, você tá me assustando, eu tô implorando, por favor" Gritei dessa vez.
Algo mudou nos olhos dele e ele piscou... uma lágrima solitária escapou do lado dos olhos dele assustadoramente vermelhos, me dando vontade de fugir em vez de vê-lo assim.
O que ele disse em seguida me fez me arrepender de ter perguntado o que tava acontecendo.
"Você estava grávida..." Ele fez uma pausa por um momento, outra lágrima descendo pela bochecha dele. "...era uma menina."
Minhas mãos caíram pros lados, de repente sentindo-se dormentes.
Nossos olhos ainda estavam fixos, mas havia um silêncio maligno, ninguém disse nada. Minha respiração estava irregular, enquanto a do Agustin mal era audível.
Eu não sei o que dizer, eu nem queria que ele descobrisse, eu nem queria discutir isso.
"O relatório dizia que havia marcas de abuso por todo o seu corpo..."
"Por favor, pare" Gritei, minhas mãos estavam tremendo, minhas palmas suando muito e a garganta se contraindo dolorosamente, uma indicação de que eu precisava do meu remédio.
"...Dizia que você nunca mais ia conseguir engravidar por causa de complicações."
"Não... por favor, não." Cubri meus ouvidos com as duas mãos, eu conseguia sentir milhares de agulhas perfurando meu coração sem piedade.
Fechei meus olhos, pra deixar a tristeza tomar conta de mim, essa é a coisa que eu sempre tentei evitar. Como se nunca tivesse acontecido, talvez nunca falar sobre isso vai fazer parecer menos real, como se fosse só na minha cabeça, algo que minha mente danificada inventou. Porque eu sabia que esse é meu ponto de ruptura.
O Agustin de repente se levantou e começou a sair do quarto.
"P-para onde você vai?", perguntei, a reação dele me pegando de surpresa.
Ele não disse nada. Eu sei que precisamos conversar sobre isso, eu não posso deixá-lo sair daqui assim... quando ele não tá pensando direito. E sabendo da natureza impulsiva dele, eu sei que ele não pode ser deixado sozinho agora.
Mas antes que eu pudesse impedi-lo, ele já estava fora do quarto, fechando a porta atrás dele. Corri pra porta e tentei abrir.
Estava trancada.
NÃO. Por favor, não.
"Agustin, abre a porta, por favor, você está me ouvindo? Agustin."
Comecei a bater na porta histericamente.
Oh meu Deus, não, por favor.
Tentei abrir a porta de novo e de novo, gritando pra ele voltar até minha voz ficar completamente rouca, a garganta crua e eu não conseguia mais gritar.
Então algo estalou na minha mente.
Jacob. Sim! Corri pro meu celular pra ligar pro Jacob.