Capítulo-9: Ficar
Ponto de vista da Sya:
Eu tava deitada na minha cama pra ter uma 'boa noite de sono', como o Kane dizia. A ideia da carinha dele, de tão gato, botava um sorrisinho no meu rosto.
O jeito que ele se importa comigo, o jeito que ele sorri, as coisas fofas que ele faz e que deixam meu coração numa loucura, e os olhos lindos dele sempre me puxando pra dentro. Quando eu tô com ele, como eu esqueço toda a dor da minha vida, é demais, sério. Nunca pensei que alguém ia me fazer sentir tão especial.
Mas será que ele sente que eu sou especial pra ele mesmo? Ou será que sou só eu que tô viajando demais porque ninguém nunca me tratou tão bem assim? Até na escola, todo mundo surtava quando me via. Nenhum cara nunca me tratou bem. Ah, qual é, Sya! Tratou?! Nenhum cara nunca nem falou contigo!
Ai! Essa doeu! Revirei os olhos mentalmente. Mas agora, quando alguém me trata bem, não quer dizer que ele gosta de mim. É, tipo, certo! Ele não parece ser burro o suficiente pra gostar de alguém como eu. Principalmente depois de saber que eu tô sendo maltratada por um cara chamado John, que ele nem conhece.
Essa ideia deu uma pontada no meu peito. Meu coração pareceu quebrar. E se ele me odiar agora que ele sabe o quão destruída e covarde eu sou? Eu não tinha percebido que umas lágrimas quentes tavam descendo pelo meu rosto. Eu não devia estar sentindo isso!
Minha linha de pensamentos foi interrompida e o medo correu pelas minhas veias de novo quando eu ouvi um clique. Alguém tava abrindo a porta do meu quarto e, ouvindo isso, eu fechei os olhos na hora, fingindo que tava dormindo. Eu não tava a fim de ouvir nenhuma bronca ou xingamento. Eu já tava me sentindo péssima e a Helena e o John não precisavam piorar.
Eu ouvi a porta abrir e depois fechar atrás da pessoa. Meu corpo ficou duro, mas eu fiquei onde tava. Seja forte, Sya. Você consegue. Ouvi passos e logo percebi que a pessoa tava perto da minha cama agora. Um arrepio correu pela minha espinha quando eu percebi que tinha mais uma pessoa no meu quarto, além de mim. O medo correu pelas minhas veias enquanto a possibilidade de algo horrível acontecer passava pela minha mente.
De repente, senti meu coração parar por um segundo com o que aconteceu em seguida. Senti alguém acariciar o lado do meu rosto e eu pulei na cama. Um cara tava parado perto da beira da minha cama, sorrindo. Diversão passou pelos olhos dele ao ver minha expressão confusa.
"Calma, pequenina. Eu não vou morder. Ainda não", a voz dele era grave e rouca. Eu me encolhi com o uso do apelido 'pequenina'. Tô com um mau pressentimento sobre isso.
"Q-quem é você? O-o q-que você t-tá fazendo a-aqui?" eu falei, tentando parecer brava, mas minha voz tava nitidamente embargada de medo. O cara só deu de ombros e sentou na cama, de boa. Eu na hora me afastei pra manter um pouco de distância entre ele e mim. Ele pareceu gostar disso.
"Meu nome é Elijah", ele continuou, a voz rouca, enquanto examinava meu corpo. "Meu querido amigo Johnny disse que eu posso passar o tempo que eu quiser com você hoje à noite." Deu uma sensação nojenta no meu estômago. Se eu dissesse que eu tava com nojo disso, seria pouco. Porque minhas entranhas tavam gritando pra dar um tapa nesse babaca sentado na minha cama e depois matar o John com as minhas próprias mãos.
"SAI DAQUI AGORA! Eu não sei que acordo nojento você e aquele babaca fizeram, mas não vai acontecer! AGORA SAI!" Eu gritei pra ele com toda a força dos meus pulmões. Eu tava tremendo de raiva. Aquele idiota! Ele acha que pode me vender! Essa biscatezinha!
Elijah deu uma risadinha com a minha explosão, como se eu tivesse contado uma piada muito engraçada. "Fervorosa. Exatamente meu tipo. Eu sabia que você valia o dinheiro que eu paguei. Deus te abençoe, John-John."
Isso fez a raiva chegar no auge e eu percebi que já tinha dado um tapa nele. Minhas mãos realmente pareciam ter vida própria. Tipo, sério, elas fazem isso direto, né?
A expressão dele mudou de divertida pra brava. Aparentemente, eu tava um pouco demais pro gosto dele. Ele me pegou pelo pescoço e me jogou na cama, me prendendo num mata-leão
"Se fosse você, eu não faria isso. Eu tava pensando em me divertir um pouco com você primeiro. Mas agora, acho que eu devia simplesmente fazer o trabalho que eu vim fazer." E com isso, ele aumentou a pressão em volta do meu pescoço, e o ar tava sendo sugado dos meus pulmões. Minha cabeça começou a rodar, enquanto eu sentia minha consciência indo embora. Lágrimas encheram meus olhos, enquanto eu lutava pra respirar, mas as mãos do Elijah eram fortes demais. Eu mal conseguia me mexer. De repente, eu comecei a ter visões.
Da Hannah.
Do Kane. O rosto do Kane olhou pra mim com determinação. 'Você consegue, Sya! Você consegue sobreviver. Você não é vítima, você é uma lutadora!" ele parecia gritar. O rosto da Hannah entrou em foco. Ela tava chorando. 'Não desista, Sya! Tem gente que se importa com você! Não desista, por favor!"
Eu me forcei e estiquei minha mão pra alcançar a mesinha de cabeceira na esperança de pegar alguma coisa, qualquer coisa! Eu peguei um porta-retratos que provavelmente foi minha última foto com a Mãe e o Pai antes deles morrerem. Mas naquela hora, a única coisa importante pra mim era salvar minha vida. Pelos meus amigos. Por mim mesma. Eu tinha que viver.
Eu apertei o porta-retrato com força na minha mão. Meus pulmões tavam queimando e minha garganta tava implorando pra deixar o ar entrar. Com a última pontinha de força que eu consegui juntar, eu esmaguei ele na cabeça dele. O vidro do porta-retrato quebrou e sangue começou a escorrer pelo lado do rosto dele. A força em volta do meu pescoço afrouxou e eu aproveitei a chance pra empurrá-lo pra longe de mim. Dei um chute na barriga dele. Ele caiu no chão com um baque alto e, antes que ele pudesse levantar, eu saí correndo do quarto e desci as escadas, pronta pra abrir a porta e sair desse inferno.
O John tava perto da porta, com uma expressão de choque depois de me ver descendo as escadas correndo. É, biscate! Seu plano não deu certo!
Era o agora ou nunca. Ou eu ia ser pega e morta aqui por esse maldito babaca ou eu ia sair desse buraco miserável de uma vez por todas. Por alguma razão, a ideia de morrer aqui não tava tão legal agora, diferente de antes. Eu queria viver por mim, por alguém.
Eu fui pra cima dele direto, o que surpreendeu ele, já que ele não tava esperando que eu fosse tão ousada. Tirando proveito do estado de choque dele, eu empurrei ele pra longe da porta e abri ela toda pra sair de lá. Ele tentou pegar meu braço, mas eu desviei dele e comecei a correr na rua como uma louca. Obviamente, nenhuma pessoa sã ia correr na rua à meia-noite.
Eu não percebi que eu tava correndo já fazia um tempão e tava longe daquela casa. Franzi a testa pensando naquele inferno.
Agora, pra onde eu vou? Eu não sei onde a Hannah mora e eu nem tenho meu celular. Que droga! Eu nem tô usando sapato! Pra onde eu vou agora?
Eu tava com medo demais. Quem não estaria numa situação tão bizarra? Meu corpo endureceu e começou a tremer de medo quando eu ouvi passos atrás de mim. Ah, merda! Eles me acharam! Eles me acharam! Não tem como eu correr deles! Bem feito pra mim, por ser folgada.
Eu entrei em pânico e meu corpo tava tremendo. Uma mão me pegou pelo cotovelo, meio que com delicadeza pra ser o John, e me virou. Eu decidi não fechar os olhos e encarar a morte de frente, quando um choque total tomou conta de mim. Não era o John, nem o Elijah, nem a Helena, nem nenhum drogado. Era o Kane! Foi ele que me pegou.
"K-Kane?" eu falei, sem acreditar. Olhei pra ele, sem ter certeza se eu tinha imaginado ele ali ou se ele realmente tava ali. Tô sonhando?
"Sya." Assim que eu ouvi meu nome sair dos lábios perfeitos dele, uma onda de alívio me dominou. Eu abracei a cintura dele e encostei minha bochecha no peito dele. Ele na hora me abraçou de um jeito protetor, o que ajudou a acalmar um pouco meu corpo que tremia. Faíscas percorreram meu corpo, me deixando tonta. O alívio era tão grande que eu desabei nos braços dele. Eu tava soluçando sem parar nesse momento. Ele começou a esfregar minhas costas de um jeito calmo, enfiando a cara no meu cabelo.
"Sshhh! Tá tudo bem. Eu tô aqui agora, eu te peguei, tá tudo bem", ele sussurrou no meu cabelo e eu não consegui segurar o soluço alto que saiu dos meus lábios. Eu me afastei um pouco dele pra poder olhar bem nos olhos lindos dele, que tavam cheios de emoção. Algumas eu entendi, como preocupação, cuidado e raiva. Mas tinha algo mais do que isso. Algo que eu não conseguia entender direito.
Eu não conseguia pensar direito no meu estado de confusão e falei algo que eu tinha certeza que ia me arrepender depois.
"P-posso ficar na sua casa?" eu perguntei. Um momento de hesitação passou pelos olhos dele, mas eles logo se iluminaram com, esperança?
Ele sorriu. Aquele sorriso lindo, de parar o coração, maravilhoso e falou.
"Você vai ficar comigo de agora em diante", ele falou, animado. Eu balancei a cabeça, sem pensar direito. Eu não tinha casa a partir daquele momento, então decidi me apoiar no Kane, porque ele foi o único que me encontrou naquela hora. Enquanto a gente começou a andar, as palavras dele começaram a voltar pra mim.
'Você vai ficar comigo de agora em diante?' O que ele quer dizer com 'de agora em diante'?
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