Capítulo-3: Aqueles Olhos
Ponto de vista do Kane:
Eu tava parado no meu quarto, olhando o horizonte colorido de onde o sol tava nascendo. Eu me isolei faz um tempão, ou, pra ser mais preciso, desde a noite que eu rejeitei minha parceira. Nada mais me interessava, e eu também não deixava nada chegar perto o suficiente pra causar atração.
Eu fui andando, tropeçando pra casa da Stella, que era uma casinha no meio da floresta.
"Stella, eu-eu preciso-da sua ajuda!" Eu engasguei, soluçando de tanta dor que tava furando meu coração. Era insuportável agora. Eu tinha agarrado o lugar onde meu coração devia estar, parecendo um desastre total. Quando ela apareceu de um quarto, eu tentei ir na direção dela. Palavra-chave: tentei. Quando eu dei um passo pra frente, o último fiapo das minhas forças desabou e eu caí no chão. Ela correu pra mim com uma expressão preocupada e se ajoelhou na minha frente.
"O-O que aconteceu, Kane? Por que você tá assim? O que aconteceu?!" Ela perguntou, preocupada com o meu estado miserável. Qualquer um ia surtar se visse o estado que eu tava.
"Eu-Eu não-sei. Meu coração tá doendo! Ahhhh!" Eu mal conseguia responder quando um grito saiu dos meus lábios, porque a dor intensificou. Parecia que alguém tava esfaqueando meu coração repetidamente. Minhas entranhas pareciam estar sangrando.
"C-coração? Você- Você rejeitou sua parceira?" Ela perguntou cautelosamente, com medo da minha resposta. Eu balancei a cabeça, enquanto uma onda de culpa passava pelo meu corpo já exausto. A cara dela se contorceu numa carranca, mas ela não fez mais perguntas, vendo meu estado atual. Ela correu pro quarto que tava antes e, depois de uns segundos, voltou e me deu uma pílula azul.
"Toma. Isso vai diminuir a dor da rejeição", eu peguei a pílula imediatamente e engoli. Depois de um ou dois minutos, a dor começou a diminuir e tava um pouco suportável agora. Eu levantei, dando passos cambaleantes, enquanto ela me guiava pra um dos sofás da sala dela. As pupilas roxas dela estavam bem abertas, refletindo preocupação e ansiedade.
"Valeu pela, tipo, a pílula", eu falei sinceramente, encarando ela com um sorriso pequeno. Ela sorriu de volta, mas ainda tava preocupada.
"Você vai me contar o que aconteceu? E por que você rejeitou sua parceira?" Ela perguntou com sua voz suave e gentil, e eu não consegui resistir a não contar pra ela. Ela era uma das amigas mais próximas que eu tinha feito depois de virar vampiro. Eu balancei a cabeça e comecei a contar tudo que tinha rolado. Ela ouviu com atenção cada palavra, e quando eu terminei, teve um momento de silêncio.
"Bem, se você quiser, eu tenho uma pílula com a qual, mesmo se você encontrar ela de novo, você não vai conseguir reconhecê-la. Quer dizer, você não vai sentir a atração da ligação de parceiros", ela falou, me olhando curiosa, esperando minha resposta. Eu pensei um pouco, antecipando qualquer desejo da minha parceira, mas decidi ficar longe dessa merda de ligação.
"Obrigado. Ia ser uma grande ajuda", eu finalmente falei, dando pra ela um sorriso pequeno, enquanto ela levantava e me trazia a pílula.
Depois de tomar a pílula, a dor da rejeição que eu tava sentindo antes sumiu e eu me senti leve. Desde aquela noite, eu nunca mais sofri aquela dor lancinante, mas a culpa ainda tava lá.
A culpa de ter rejeitado minha parceira! Mas eu não me arrependi. Foi a coisa certa a se fazer, por causa dela. Eu não tinha contado nada sobre isso pro Bryson. A Stella era a única que sabia sobre ela e sobre o fato de que eu já tinha rejeitado ela.
Eu fui tirado dos meus pensamentos quando um garoto com cabelo loiro sujo e olhos verdes brilhantes entrou no meu quarto.
"Ah, qual é, cara! Qual o problema? É o terceiro lugar que eu mudo desde os últimos nove anos, mas você não parece relaxar aqui também!"
Lá vamos nós de novo. Eu revirei os olhos. É, eu não saía mais com o Bryson ou com os outros desde aquela noite. É como se eu não tivesse mais interesse em nada nesse mundo. O mundo parecia sem sentido pra mim agora. Não que alguma coisa fosse interessante em primeiro lugar. E-eu só me sentia totalmente... vazio!
"Me deixa em paz, Bryson. Eu não tô no clima pra discutir", eu falei, ainda encarando a vista lá fora da janela. Era relaxante pra mente.
Bryson bufou, claramente irritado com a minha teimosia. "Você nunca tá no clima pra conversar. Mas já chega. Se prepara, a gente vai pra faculdade."
Agora foi minha vez de bufar. Eu virei dessa vez pra ver um toque de humor no rosto dele, mas ele tava falando sério.
"Desde quando vampiros precisam ir pra faculdade?" Eu perguntei, zombando, como se fosse algum tipo de piada. E com certeza era, porque nós éramos imortais, porra. A gente não precisava ir pra faculdade ou pra nenhum outro instituto educacional. Ele simplesmente deu de ombros pra minha pergunta, como se eu tivesse acabado de falar besteira.
"Nós somos imortais e não envelhecemos. Ainda parecemos garotos adolescentes. Pelo menos, a gente pode matar um tempo assim. Ah, qual é, mano, vai ser divertido", ele falou, andando na minha direção enquanto jogava um braço no meu ombro e apertava.
'Por favor. E o que a gente vai aprender na faculdade? Como correr mais rápido que humanos? Como beber sangue do jeito certo?" Eu murmurei, desejando que essa conversa acabasse e que ele me deixasse em paz. Mas ele não se mexeu.
'Você é uma folha seca, você não sabe nada sobre as cores da vida", ele pressionou o braço no meu ombro.
Eu soltei uma gargalhada. 'Sério? Você acha que eu quero ver as cores da vida enquanto eu deveria estar morto? Não tem mais cores pra gente ver, Bryson."
'Você não pode fazer isso por mim? Só dessa vez?" A voz dele ficou mais triste. 'Por favor?"
Eu olhei pra ele e percebi o tanto que esse cara tinha feito por mim. Me salvando, mudando de lugar por mim. Não parecia certo negar o pedido dele dessa vez, então, eu balancei a cabeça em derrota.
Ele me arrastou pra fora do carro e me levou pra esse prédio enorme. A gente saiu do carro, usando nossos óculos escuros, e olhou pra cima pro lugar que esses humanos chamam de faculdade.
●●●●●●●
Ponto de vista da Sya:
A Hannah me puxou com ela, de braços dados, sorrindo amplamente, pra dentro do prédio branco grande.
Eu amo o sorriso dela.
Eu sorri pra mim mesma com o pensamento e aumentei o meu ritmo pra acompanhar ela.
A sala tava cheia de estudantes circulando. Eu tava confiante porque minha melhor amiga tava do meu lado. Caso contrário, eu era uma garota que não conseguiria sobreviver na multidão enorme.
O que eu posso dizer? É o resultado do abuso que eu tô enfrentando.
"Pra onde a gente tá indo?" Eu perguntei. Ela tinha um sorriso enorme no rosto, tipo uma palhaça, enquanto olhava tudo como uma criança de quatro anos num parque de diversões.
"Nós vamos pra recepção pegar nossos horários das aulas!" Ela cantou animada, o que me fez rir. Ela tava tão animada pra pegar os horários das aulas. Imagina a felicidade dela no dia do baile.
De repente, eu esbarrei numa parede. Era comparativamente macia às pedras duras da casa da Tia Helena. Mas não são todas as paredes duras como pedra? Que tipo de-
Espera! Não é uma parede. É uma pessoa!
Eu levantei os olhos pra ver a pessoa com quem eu tinha esbarrado, quando fui capturada pelos olhos mais bonitos que eu já tinha visto. Olhos cinza escuros com toques de orbes azuis neles. Eu tava só encarando aqueles olhos hipnotizantes, enquanto o mundo sumia ao meu redor. Só tinha eu e ele.
A Hannah cutucou meu braço.
"Você tá bem?" Ela perguntou, e eu finalmente saí do transe.
"S-sim! Eu tô bem. Me desculpa-" Eu gaguejei e ia me desculpar, quando percebi que a pessoa com quem eu tinha esbarrado já tinha ido embora. Eu tava confusa sobre o porquê daqueles olhos serem tão cativantes e um pouco familiares, quando a Hannah me cutucou de novo.
"Vamos!" Ela pegou meu braço de novo e começou a andar. Eu balancei a cabeça distraidamente, porque minha mente ainda tava presa no estranho com quem eu tinha acabado de trombar.
Aqueles olhos. Eles me lembraram de alguém. Mas eu não sei quem.
*~*~*~*~*~*~*