Capítulo-10: Corar
POV do Kane:
Ia ser mentira se eu dissesse que não tava preocupado. Porque eu tava preocupado pra caramba com a segurança da minha parceira! E se aquele babaca do John bater nela de novo? Só de pensar nisso meu coração doía, mas também me dava uma raiva que me dava vontade de fazer picadinho dele. Meu coração doía pela Sya. Eu queria estar com ela todo minuto. Queria abraçá-la pra proteger ela desse mundo cruel. Eu tava errado quando disse que não precisava dela. Porra, eu quero ela! Eu quero proteger ela!
Se eu não tivesse rejeitado ela naquela noite, ela não estaria nessa situação. Ela não estaria sofrendo toda essa tortura se eu tivesse cuidado dela como minha parceira! Óbvio, eu não ia começar um lance com uma mina de 10 anos. Mas eu podia ter dado um apoio pra ela e ter vigiado os guardiões dela até ela fazer 18. Mas e agora? Eu já tinha cagado tudo! Ela tá sofrendo só porque eu fui egoísta há anos atrás! O que você achou? Meu cérebro rosnou. Ela ia ser feliz sem você? Olha pra ela agora, como ela tá destruída!
Valeu, cérebro! Mas não precisa esfregar na minha cara! Eu quero ver ela agora. Certo, eu tenho que ver ela. Já é meia-noite. Tenho certeza que ela já tá dormindo. Eu só vou olhar pra ela de longe.
Me convenci a só olhar pra ela de longe pra acalmar meu coração furioso. Mas eu tinha que fazer alguma coisa. Eu não podia deixar ela lá agora que eu sabia como eles se comportavam com ela. Eu tinha que ver ela e era a única coisa que passava pela minha cabeça naquele momento. Ia pensar em outras coisas depois.
Com isso, eu saí de casa e entrei no meu carro antes de ligar o motor e começar a dirigir. Dirigi o mais rápido que pude. Não tinha trânsito na rua, porque as pessoas quase não saíam depois que escurecia perto daquele bairro. Em 15 minutos, eu tava na frente da casa dela. Meu carro tava estacionado do outro lado da rua, caso ela visse e surtasse. Fiquei olhando pra casa e, por alguma razão, um sentimento estranho tomou conta do meu coração. Um sentimento doloroso. Eu tava começando a perceber o mal que eu tinha causado a ela e a mim mesmo por causa da minha burrice. Sem dúvida, desafiar o que o destino faz causa dano a quem ousar fazer isso. Eu podia entender isso melhor do que nunca naquele momento. Ver minha parceira sofrer, minha incapacidade de tomar uma decisão esperta há anos atrás me deu vontade de me socar. Ela não merecia a dor, eu merecia. Quando eu não vi nenhum movimento, comecei a ter dúvidas.
Tô errado? E se ela não estiver dormindo? Ela vai ficar brava se me vir na janela dela à meia-noite.
Aguenta, Kane! Só vai lá e garante que ela tá segura. É a coisa mais importante a se fazer agora!
Respirei fundo e tava quase abrindo a porta do meu carro quando a porta da frente da casa dela se abriu. Sya cambaleou pra fora, descalça. O cabelo dela tava bagunçado e ela parecia assustada pra caramba. Eu vi ela correndo pra fora e descendo a rua. Atrás dela, um cara fortão começou a persegui-la, mas antes que ele chegasse perto dela, eu saí do carro. Peguei ele pela nuca e joguei ele no chão.
A cabeça dele bateu no asfalto com tudo e um estrondo alto ecoou na noite silenciosa. Os olhos dele se fecharam e o corpo dele parou. Uma pequena trilha de sangue começou a vazar na calçada.
Opa! Acho que peguei pesado. Mas se ele não tá se mexendo, então eu devo ter matado ele. Eu tava olhando furioso pra figura inconsciente dele quando de repente lembrei. Pra onde a Sya foi?
Comecei a correr na direção da rua onde eu tinha visto ela desaparecer na minha velocidade sobre-humana. Ela não foi longe. Eu ainda consigo sentir ela!
Avistei ela parada no meio da rua, alguns quarteirões dali. Diminuí a velocidade e comecei a andar na direção dela no meu ritmo humano normal. Meu coração disparou no peito quando eu vi ela. Ela tava descalça, com as bochechas manchadas de lágrimas e parecia absolutamente aterrorizada. Isso era pior do que eu pensei. Eu me sentia totalmente responsável pelo que tava acontecendo com ela. Algum dia eu ia conseguir viver com essa culpa de machucar minha parceira?
Corri rápido pra ela e peguei no cotovelo dela, girando ela pra me encarar. "K-Kane?" Ela engasgou meu nome enquanto me olhava incrédula. Deu pra perceber que ela tava duvidando da sanidade dela ao me ver ali e isso apertou meu coração. Ela parecia tão destruída, tão frágil naquele momento. Eu só queria matar todos aqueles idiotas que fizeram ela ficar assim. Mas a culpa era minha também, porque fui eu que a levei até eles. A culpa era toda minha!
"Sya", eu chamei o nome dela, pra garantir que eu tava ali agora, pra proteger ela.
Quando ela percebeu que eu realmente tava ali, ela imediatamente envolveu os braços na minha cintura e começou a chorar no meu peito. Não perdi mais um segundo, envolvi meus braços em volta daquele corpinho pequeno e abracei ela forte. O alívio correu pelo meu corpo agora que minha parceira tava segura nos meus braços.
Encostei meu rosto no cabelo dela pra sentir aquele cheiro incrível, que parecia acalmar meus demônios internos. A presença dela fez meu coração morto reviver. Ela me completava. Como eu tava errado em rejeitá-la! Rejeitar meu amor! Eu esfreguei as costas dela de um jeito suave pra relaxá-la e sussurrei coisas bonitas no ouvido dela.
"Sshhh! Tá tudo bem. Eu tô aqui agora, eu te protejo, tá tudo bem", eu garanti pra ela. Ela se afastou um pouco de mim, de modo que ainda tava nos meus braços, e olhou direto nos meus olhos. Eu sabia que, naquele momento, todas as minhas emoções estavam expostas. Eu tava preocupado com a segurança dela, ansioso pela felicidade dela, querendo cuidar dela, bravo comigo mesmo por deixá-la sozinha, mas principalmente o amor que eu tinha desenvolvido por ela. Mas eu não tentei esconder. Então ela perguntou com tanta inocência que meu coração derreteu ao ver aquele rosto angelical.
"P-posso ficar na sua casa?" Os olhos dela me procuraram ansiosamente, talvez esperando que eu negasse qualquer ajuda pra ela. Mas por que eu ia dizer não pra deixar ela ficar comigo? Hesitei por um segundo por causa do fato de que eu ia ter que contar tudo pro Bryson. No entanto, de repente, uma luz de esperança brilhou na minha mente. Se ela morar comigo, então talvez ela me perdoe e me aceite como seu parceiro. Só esse pensamento fez meu coração disparar e eu não pude deixar de ficar feliz.
"Você vai ficar comigo a partir de agora", eu disse feliz, observando a expressão dela. Ela pareceu impassível com meu anúncio, vendo que ela já tava traumatizada pelo que tinha acontecido. Quando eu comecei a guiá-la, ela pareceu ter percebido o que eu disse porque parou de andar mais uma vez.
"N-não! E-eu digo, obrigada, mas vai ser só por hoje", ela murmurou, envergonhada. Só me fez franzir a testa em desaprovação. Ela tinha que ficar comigo o tempo todo pra se apaixonar por mim e depois me aceitar como seu parceiro e depois viver comigo pra sempre e depois ter filhos comigo e viajar pelo-- ok, eu devo parar.
"Não acho que essa seja a hora certa pra discutir isso. Vou pegar o carro. Você fica aqui", eu disse, olhando pra ela pra ver se alguma objeção ia surgir, mas ela simplesmente assentiu, o que fez um sorriso aparecer no meu rosto. Fui buscar o carro, animado como um garoto que acabou de convencer a mãe dele a comprar o videogame favorito dele.
Não acho que eu já sorri tanto antes!
*~*~*~*~*~*
POV da Sya:
"N-não! E-eu digo, obrigada, mas vai ser só por hoje." Eu disse, envergonhada de ser um fardo pra ele. Mas ele franziu a testa com a minha afirmação. Me perguntei se eu tinha dito alguma coisa rude. Eu não podia ofendê-lo. Agora não. Nunca.
"Não acho que essa seja a hora certa pra discutir isso. Vou pegar o carro. Você fica aqui", ele respondeu, me olhando, mas eu simplesmente assenti. Sair daqui era um pouco mais importante do que fazer planos de vida no momento.
Ok! Eu entendi que não é o lugar nem a hora certa pra discutir. Mas eu definitivamente vou sair da casa dele logo de manhã.
Quando eu assenti, um sorriso lindo, do qual eu tinha lentamente me tornado fã, apareceu no rosto dele e ele andou na direção da rua de onde eu tinha vindo. Alguma coisa não tava certa. O que ele tá fazendo aqui a essa hora da noite? Pensando bem, como ele sabia que eu morava aqui quando ele me deixou um dia atrás? Eu nunca falei meu endereço pra ele.
Fui tirada dos meus pensamentos quando ouvi a buzina do carro dele. Guarda as teorias pra depois, Sherlock! Ele é seu único salvador e imaginá-lo como um stalker assustador quando ele basicamente salvou sua vida não vai te fazer bem.
Imediatamente fui pro carro e entrei. Ele botou o carro na direção e, depois de alguns minutos de silêncio, perguntei pra ele a pergunta que tava me atormentando desde mais cedo.
"Kane? Posso te perguntar uma coisa?" Perguntei hesitantemente, com medo de que ele se importasse de eu ser curiosa. Mas eu tenho o direito de perguntar, certo?
"Sim", ele murmurou em resposta, parecendo muito feliz por alguma razão. Os sentimentos de stalker estão voltando, mas ele é a pessoa mais fofa que existe!
"O que você tava fazendo aqui no meio da noite? Quer dizer, não acho que você mora nesse bairro", eu murmurei, olhando cautelosamente pra expressão dele. O pavor inundou o rosto dele como se ele tivesse sido pego em flagrante.
"Eu só tava passando por aqui", ele respondeu casualmente, esfregando a nuca. Ok. Então isso foi uma mentira completa. Mas, meu Deus! Como ele fica fofo quando cora!
Uma cor rosada começou a se espalhar no rosto dele. Ele realmente tava corando! Aquele Kane Wilson, com a cara de mármore e inexpressiva, tava realmente corando agora! Meu coração deu um pulo ao ver aquela cena na minha frente. Deus! Ele fica tão fofo quando cora! Mas por que ele tá corando?
Ele percebeu que eu tava olhando e ficou ainda mais vermelho. Ele começou freneticamente a apertar o botão de energia, tentando abaixar o vidro do lado dele.
"Não tá meio quente hoje?" Ele murmurou nervoso, o que fez um sorriso divertido aparecer no meu rosto. Então ele tá tentando mudar de assunto. Não vai funcionar!
"Então, Kane, você ainda não me disse o que você tava fazendo perto da minha casa? Quer dizer, por que você tava fora a essa hora da noite em primeiro lugar?" Pareceu que eu peguei ele desprevenido. Ele lutou por uma desculpa, tudo isso enquanto tentava dirigir. Isso tava ficando muito mais divertido pra mim agora. Me senti relaxada naquele momento e todos os acontecimentos loucos que tinham acontecido antes foram meio que esquecidos. Esse era o efeito que ele tinha sobre mim.
"Eu queria garantir que você estivesse segura", ele soltou tudo isso de uma vez só. Franzi a testa, tendo dificuldade de entender o que ele tinha acabado de dizer. Eu ri sem jeito.
"Ah, Kane? Você pode falar devagar pra que eu possa entender claramente o que você tá dizendo?" Ele suspirou derrotado e diminuiu a velocidade do carro.
"Eu queria garantir que você estivesse segura", ele admitiu e foi a minha vez de ficar vermelha. Ok! Então ele veio lá pra ver se eu tava segura ou não? Ele realmente disse isso? Por quê? Quer dizer, por que ele se importa tanto comigo? Será que ele também gosta de mim? Espera! Eu disse também? Isso significa que eu gosto dele? Eu gosto dele? Afastei os pensamentos da minha mente e me virei pra olhar pela janela. Eu não tinha nada a dizer depois disso.
O resto do percurso foi silencioso, pelo que eu agradeci. Mas ainda assim, parecia que ele tava me encarando. Não tava me incomodando, mas não deixou de me deixar corada.
O carro entrou por um caminho acidentado na mata e, depois de um tempo, o carro parou. Eu saí e contemplei o lugar onde eu ia ficar. Árvores escuras cobriam o caminho que parecia levar ao lugar onde esse cara bem aqui ficava.
E se eu chamei a casa dele de 'casa' antes, então eu mereço ser processada, porque isso era uma mansão muito grande!