Capítulo Oito
Assim que meu turno acabou, eu bati o ponto e saí do prédio. Nem parei pra ter outra conversa esquentada com a Brooke, nem que eu quisesse parar e ter aquilo de qualquer jeito. Caminho pela rua com o envelope branco na minha bolsa. Claro que queria abrir, mas não queria ver os horrores que podiam estar dentro. Já na rua, pego meu celular, onde as chamadas perdidas do Austin iluminam a tela. Ele disse que eu tinha que ligar pra ele assim que chegasse em casa, por que ele tá me ligando? Clico no nome dele, levando o telefone à minha orelha. Toca duas vezes antes dele atender.
"Payton, você tá bem? O Markus passou por lá faz uma hora e disse que foi te ver no café?" Ele pergunta preocupado no telefone. Se o Markus ia ver o Austin de qualquer jeito, por que ele me mandou entregar isso pra ele?
"Tô bem, ele almoçou e me deu um envelope branco pra te entregar. Tô indo pra garagem agora", eu informo enquanto atravesso a rua. Sabia que a caminhada ia levar uns dez minutos.
"Toma cuidado, eu ia te buscar agora, mas tenho que resolver uma parada aqui rapidão", ele me diz com um tom sério. O jeito que ele me falou pra tomar cuidado só me deixou mais alarmada ainda.
"Austin, tô com medo", confesso enquanto saio da rua e entro no caminho de trás pro lugar dele. Sei que não é seguro, mas diminui muito o tempo da viagem.
"Vai ficar tudo bem, eu vou resolver", ele me diz antes de ouvir a voz de um cara gritando no fundo. "Tenho que ir resolver tudo isso antes de você chegar aqui, toma cuidado, Payton", ele diz antes de desligar o telefone. Respiro fundo antes de apressar o passo pra correr e chegar lá.
Naquilo que pareceu uma eternidade, chego na garagem, onde o Austin sai correndo e atravessa a rua pra me ver. Antes que ele pudesse se mexer, eu o abraço. Ele ficou super surpreso no começo, sendo a primeira vez que a gente se abraça e eu sendo a pessoa que iniciou. Mas logo ele me abraça de volta, me segurando firme. Eu tava tão feliz de finalmente me sentir segura e não ter que andar sozinha por becos.
"Desculpa te meter nisso", ele sussurra ainda me abraçando forte. Sorrio, me afastando enquanto mexo na minha bolsa.
"Não sei por que ele me mandou entregar isso, ele foi te ver depois", digo, entregando o envelope pra ele, que não perde tempo rasgando pra ver o que tem dentro.
Fico parada, olhando pra garagem, onde dois outros caras estavam trabalhando em um carro. Eles tão envolvidos de alguma forma no que o Markus faz? Sinceramente, não sei em quem confiar mais. Austin suspira, colocando o envelope branco no bolso de trás, olhando ao redor. A reação dele não tava ajudando no meu medo do que tava acontecendo.
"Essa deve ser a famosa Payton, que bom te conhecer!" Um dos caras grita da garagem. Espera, então tem mais gente que ele contou sobre a gente, não foi só o Markus?!
"Chega de 'prazer em conhecer', estamos indo pra casa, mas isso tem que ser entregue em uma hora, você sabe que eu vou saber se não for!" Austin grita de volta em um tom mais rude. Essa não é uma reação que eu pensei que veria o Austin ter.
O cara abaixa a cabeça antes de voltar pra garagem. Eu ainda tava chocada com o surto dele. Nunca vi o Austin agir assim! Sempre achei que o Austin fosse do tipo tranquilo, só teve umas poucas vezes que eu o vi ficar bravo, essa sendo uma delas. Austin logo pega na minha mão e me leva pra atravessar a rua, onde o carro dele tava estacionado na parte de trás da garagem. A porta dos fundos da garagem tava aberta, então pude ver o que tava acontecendo. Os dois caras de antes tavam enchendo a parte de trás do carro com caixas de papelão marrom que tinham talvez cem camadas de fita adesiva em volta.
"Aquele carro vai pro ferro velho, quanto mais pesado você deixar o carro, mais dinheiro você ganha", Austin diz, me puxando bem rápido pro carro, como se não quisesse que eu visse o que aqueles caras tavam fazendo. Alguma coisa não tava certa ali.
Antes que eu percebesse, estávamos saindo da garagem e indo embora. A sensação desconfortável que eu senti andando até lá reapareceu, alguma coisa não tava se encaixando no meu cérebro. O Austin não tava agindo como o Austin quando tava na garagem, mesmo quando ele tá perto do Markus, ele não age assim. É como se ele estivesse fingindo por algum motivo. Assim que ele tá longe de todas aquelas pessoas, ele volta a ser ele mesmo.
"O que você quis dizer com aquilo lá?", pergunto, quebrando o longo silêncio que preencheu o carro. Ele se vira pra me olhar, me mandando um olhar confuso. "Você disse que sentia muito por ter me metido nisso, em que?", pergunto tendo que reformular a pergunta. Ele me olha um pouco, mas balança a cabeça com um sorriso.
"Você não precisa se preocupar com isso, agora eu não sei você, mas eu tô de saco cheio de comer besteira, fizeram entrega de compras em casa, então posso cozinhar", ele sorri, mudando de assunto quase que imediatamente, então ele não vai me contar nada do que tá acontecendo? "Eu não cozinho muito, mas isso não significa que eu não posso", ele ri, olhando pela janela enquanto ia, estudo o rosto dele por um segundo antes de concordar.
"Tô depositando minha confiança em você, Austin, não me faça me arrepender", digo, quando o riso dele logo desaparece, ele se vira pra olhar pro meu rosto, onde ele segura meu olhar.
"Eu prometi pro Roman que ia cuidar de você, eu vou", ele diz antes de se virar pra olhar pra rua de novo. Sorrio um pouco, olhando pela janela. "Prepare-se, Payton, você vai comer a melhor comida que você já provou", ele me diz dramaticamente, voltando a ser o Austin feliz e despreocupado.
Reviro os olhos, mas não consigo evitar a risada que escapa dos meus lábios. Mas na época, eu não sabia o quanto eu realmente ia precisar que o Austin me protegesse.