Capítulo 10
Marco
De todas as pessoas na mesa que eu achei que iam se atrasar para o jantar, não passou pela minha cabeça colocar a Aliyana na lista. A comida já tá quase fria quando ela chega, e como ela é a convidada, ninguém comeu ainda. Tirando a Mischa, claro.
"Desculpa o atraso", as bochechas dela estão rosadas, e os olhos ainda inchados de sono.
Mas o cabelo desgrenhado e os olhos meio caídos, que são perigosos demais para pertencer a uma mulher como ela, não são o que tá fazendo todo mundo olhar. Todo mundo sentado na mesa tá com roupa de festa, tudo arrumado pra tirar fotos e tomar vinho no lounge informal depois do jantar. É uma tradição italiana quando alguém vai casar.
As mulheres fofocam e comparam vestidos, e os homens falam de negócios. No nosso caso, a Aliyana vai entrar na nossa conversa.
"Por que você não se vestiu?" A Guilia sussurra/grita da cadeira dela, parecendo tão constrangida quanto a Aliyana deveria estar, mas ela tá de boa na dela. Não sei por que meus olhos se prendem mais nela, a pessoa mais desarrumada da sala.
Talvez seja o poder que ela vai ter em breve. Ou talvez seja a capacidade dela de ser ela mesma, não importa o quanto o mundo pareça mudar ao redor dela.
"Ninguém falou pra se arrumar, 'Se mi dicessi di vestirmi, mi vestirei' . Se você me mandasse me arrumar, eu me arrumaria." Ela faz uma careta e olha ao redor da mesa, cheia de comida que eu tenho certeza que já tá fria.
A Camilla tá furiosa, e minha paciência tá acabando só de olhar pra ela. Ela tá com calça de moletom e uma blusa creme com buracos e tinta. Que diabos ela tava fazendo no quarto dela por 5 horas? Certeza que não era só dormindo. Meus olhos percorrem a sala até o Deno, que tá sorrindo. Não tem nada de engraçado nisso.
"Senta, pra gente poder comer", eu digo, porque tô sentindo que ela vai subir pra se arrumar.
Ela senta do lado da Guilia e começa a se servir.
"Cadê o Mero e o Michel, achei que vocês tinham dito que eles estavam aqui?" ela pergunta, na maior.
"Eles tiveram que sair, o Mero volta mais tarde hoje à noite e o Michel vem amanhã", responde o Xander.
E eu mordo a língua, querendo dizer que não é da conta dela onde eles estavam. Todo mundo começa a se servir. A mesa continua quieta, e o jantar não tá tão bom quanto eu esperava, com uma noiva brava, mas a gente consegue terminar a refeição.
Os funcionários vêm tirar os pratos, e a Aliyana se levanta e começa a ajudar eles. Eu não digo nada, e a Camilla pisca algumas vezes antes de eu ver o primeiro sorriso dela.
Meu peito relaxa, e eu coloco a mão no joelho dela, embaixo da mesa. Ela segura minha mão de volta, sorrindo mais ainda.
"Dá pra entender por que o Xander tá caidinho por ela", a Camilla sussurra. Eu franzo a testa, mas ajeito a cara antes que ela veja.
"Ele não mencionou isso." Eu respondo, querendo saber mais. O Xander não vê a Aliyana há anos, eu fiz questão disso. Mas, obviamente, isso tava prestes a mudar.
"Lógico que não, ele é o Xander. Vamos conversar sobre isso mais tarde." Eu sorrio pra ela, mas não respondo. A gente não vai conversar mais tarde, sobre nada, porque hoje à noite eu vou planejar um assassinato.
"Gabriel, vem me ajudar com os pratos", diz a Aliyana, sem olhar pro homem que tá de olho na Aliyana desde que ela chegou.
Ele se levanta e faz o que ela pede, sem questionar. Os dois andam lado a lado, e eu aperto a mandíbula, lembrando o tio dele dizendo que eles formavam um bom casal. Por alguma razão, ele não a merece.
"Você tá apertando minha perna demais", a Camilla geme. Eu solto a perna dela e me levanto,
"Acho que os homens precisam de um tempo sozinhos. A gente vai pra biblioteca." Eu beijo a Camilla na cabeça e saio da sala, quando chega uma mensagem.
Confira as imagens de segurança entre 14h e 14h09
Fantasma
Eu ando mais rápido pra biblioteca e vou direto pra estante, e giro a estátua do leão na prateleira até a porta fazer um clique. Abro a porta secreta, mandando uma mensagem pro Deno pra ele saber o que eu tô fazendo, e desço a escada.
A sala tá clara com câmeras, e o Matteo tá sentado perto do painel principal de câmeras, comendo bolo.
"Põe as câmeras entre 14h e 14h09 de hoje à tarde. Vocês conseguiram o plano que eu queria?" Eu pergunto, totalmente focado.
"Sim, também achamos um possível lugar pra Amariya, aquele seu hacker vai conseguir uma região menor pra gente olhar."
O vídeo começa a rodar, e eu não vejo nada fora do normal.
Eu espero, e não tiro meus olhos da tela, mesmo quando o Deno e o Filippo entram.
"Ali, é um jato?"
"Sim, o Salvatore tá aqui."
"Onde ele tá?"
"Provavelmente por aí em algum lugar." Deno parece calmo e tranquilo.
"Não imagino que você saiba onde."
"Se você precisa saber, ele tava com a Aliyana no quarto dela."
"Que porra?" O Filippo xinga, e a cara dele fica assassina.
"Se acalma, caralho. Ele é celibatário, e por mais gostosa que sua irmã seja, o Salvatore nunca vai encostar nela, a não ser que seja pra salvar ela", eu digo, que é a verdade e a única razão pela qual eu mandei o Deno dar ele pra ela. Agora, tô começando a questionar minha própria lógica de dar pra ela um protetor leal.
"Eu achei que ele ia ficar, o pai da Aliyana…"
"Não pode tomar essas decisões quando o Salvatore tá envolvido", o Deno termina a frase do Matteo.
Eu mando uma mensagem pro Fantasma dizendo que era o Salvatore.
Meu celular apita quase imediatamente depois disso,
Não aquela câmera, a do seu quarto
Fantasma
Eu não falo mais nada, nem chamo mais atenção pra chegada do Salvatore.
"Preciso ir no banheiro, vamos botar os planos na mesa e chamar os outros aqui." Eu deixo eles e subo as escadas, direto pro banheiro, onde abro meu celular, digito meu PIN e depois a digital do Michael Stone que ele configurou pra mim, e coloco a hora e a data na caixa de pesquisa de vídeo.
O sinal é rápido, outra coisa que o Michael Stone fez pra mim. A pesquisa acha meu resultado, e eu assisto a gravação.
Um homem alto, de capuz, entra no meu quarto e vai direto pro meu cofre que eu guardo no chão, embaixo de um azulejo. Ele abre e coloca alguma coisa lá dentro. Depois, fecha o cofre e coloca tudo do jeito que tava, antes de sair.
Seguindo os passos do homem de capuz, eu vou pro meu quarto, ignorando a roupa de cama preta cheia de brinquedos, e vou direto pro azulejo. Abro meu cofre e olho lá dentro pra achar um USB pequeno.
Vou pro meu computador, do lado direito do quarto, e coloco ele lá.
O vídeo mostra o Jack Creston e uma figura menor de capuz trocando alguma coisa, quase fecho o laptop quando uma figura no fundo chama minha atenção. O vídeo termina, e uma mensagem aparece pra abrir o arquivo 227, e eu abro, pra ver o Mero no fundo da cozinha do restaurante, conversando com uma garota.
Eu franzo a testa quando vejo quem é ela. O que os dois estavam conversando?
Eu assisto eles trocando palavras, e o Mero fica puto, enquanto ela começa a sorrir. Ele sai furioso.
Eu franzo a testa, porque não vejo ou entendo a conexão.
Eu: O que eu tô perdendo?
Eu mando a mensagem pro Fantasma, esperando que ele saiba mais.
Fantasma: Pergunta pro babaca que botou isso lá.
Eu: Achei que fosse eu?
Fantasma: Eu não tenho 1,87m, mas alguém na sua casa tem.
Eu: Entendi.
Fantasma: Você devia ter escolhido a Queen.
Eu: .
Eu saio do quarto depois de colocar tudo de volta do jeito que tava. Lá embaixo, as mulheres estão sentadas e conversando sobre alguma coisa, com o Gabriel, que tá sentado perto da Mischa, ajudando ela a montar o quebra-cabeça na tábua de madeira.
A Aliyana tá com os pés no sofá, já confortável, enquanto a Guilia e a Camilla estão sentadas perto da lareira, com uma taça de vinho tinto.
"Vocês parecem confortáveis, se divertindo?" Eu pergunto, e por alguma razão a Aliyana nem olha pra mim, parece que eu nem tô lá.
"Aliyana, e Gabriel, uma palavrinha." A Camilla faz uma careta, mas não fala nada, ela sabe que é melhor não me questionar sobre nada na frente dos convidados.
A Aliyana se desenrola da posição dela, e o Gabriel se levanta, deixando o copo de água na mesa. Os dois trocam um olhar que eu não gosto, mas eu deixo pra lá e saio do lounge e vou pelo corredor, pra área da biblioteca, onde eu levo eles pro bar, na ala esquerda.
"Sentem", eu digo pra eles, contornando o balcão do bar e pegando uma garrafa de Jack na prateleira de cima.
"O que é isso?" A Aliyana me pergunta.
"Vocês vão precisar de uma bebida pra isso." Eu digo pra eles, jogando 3 copos no balcão e começando a servir uma bebida forte pra gente.
"Acho que tô de boa por enquanto", a Aliyana diz, e eu dou um suspiro exasperado pra ela.
"O Mero alguma vez mencionou que tava vendo alguém na Família?" Eu pergunto pros dois, a Aliyana franziu a testa, mas o Gabriel só me encara.
A cara de poker dele é boa, mas eu sou um pouco melhor que isso, "Pode provar a inocência dele."
"Espera, o Gabriel sabe?" A Aliyana pergunta.
"Sim, você me contou, agora mesmo, quando tava levando os pratos pro cozinha." Ela revira os olhos, "Você tava bisbilhotando.""Não. Quando vocês dois chegaram hoje, vocês estavam separados. Enquanto o Gabriel te observava, você pensava se ia confiar nele e contar a verdade sobre por que não tava saindo com ele sozinho na casa dele. E aí o seu segurança Salvatore chega, e seja lá o que vocês dois discutiram por horas num quarto trancado, você tomou uma decisão. A pergunta é, Aliyana foi sincera com você, por que você não é sincero com ela, e conta pra ela quem colocou aquele USB no meu cofre?"