Capítulo 13
Aliyana
Minha manhã passa voando numa boa porque eu e Guilia passamos três horas no telefone com Kylie, metade desse tempo ela tá zoando com um dos irmãos dela ou gritando pra mãe dela quando um deles enche o saco.
É uma conversa memorável, já que a gente tenta achar um jeito bom de dar um toque na demônia da She demon, enquanto Kylie navega na loucura que é a vida dela. Se eu soubesse que podia ter uma vida parecida com a da Kylie, ia querer muito. Mas isso nunca vai rolar, então eu curto só ouvir de fora, e no fim da nossa conversa, Kylie, Guilia e eu temos um plano firme.
Guilia e eu pulamos o café da manhã, mas Leonardo tem outros planos quando entra no meu quarto por volta do meio-dia e leva uma Guilia gritando embora.
Eu tinha acabado de fazer a make quando o nome do Salvatore pisca na tela, “Tava começando a ficar preocupada.”
“Olá, Senhorita Capello, acabei de CHEGAR na Mansão.”
“Perfeito, já vou descer.” Desligo o celular e pego meus saltos. Dessa vez tô preparada pro almoço, com um vestido cremoso, sexy mas respeitoso.
Meus pés descalços descem as escadas correndo com meus saltos na mão. E bem na hora de chegar no último degrau, sem pensar eu corro e me jogo no Salvatore, que na hora me pega pela cintura.
“Temos um monte de coisa pra fazer.” Eu sorrio, mas o sorriso some quando vejo a cara séria dele, congelada em alguma coisa à minha direita.
Eu viro e vejo duas caras de raiva, uma do Marco e a outra do meu irmão. Num ato de autopreservação, corro pro meu irmão e me jogo nele também, e como eu previ, ele me segura e esquece a raiva, achando que eu tô só feliz. O que não tá tão longe da verdade.
Eu tô muito feliz.
“Tá super animada, dormir perto da Guilia te pegou?” Ele pergunta, me segurando longe.
“Talvez.” Faço a difícil, e Filippo sorri, balançando a cabeça.
Dou pro Marco, que ainda me olha com ódio, um cumprimentozinho que ele responde indo pro canto dele, tipo uma biblioteca.
“Qual é a dele?”
“Não é nada pra se preocupar. Quais são seus planos pro dia?”
“Ainda não sei, por quê?”
“Queria passar o dia com você e com a Guilia. Os irmãos vão caçar e Camilla vai no médico, parece que machucou o joelho.” Meu irmão me olha, mas não fala nada sobre o porquê. Eu sei que o Filippo tem um negócio com matar bichos, mas ainda come a carne.
“Eu tava pensando em só ficar de boa hoje,” eu digo, e Filippo olha pra trás de mim, antes de voltar a atenção pra mim, “Tava pensando em bisbilhotar, e o Salvatore tenho certeza que ia ser o braço direito.”
“Não bisbilhotar, só dar uma olhada no lugar.”
“A gente pode fazer isso junto, Camilla e Salvatore não se dão bem, chamar ele aqui foi má ideia.”
“Ela não chamou ele, fui eu.” Deno fala, e é a primeira vez que noto como ele tá quieto e diferente.
Filippo levanta a sobrancelha, mas não fala nada.
“Já que ele tá aqui, pode vir com a gente.”
Marco volta pra onde a gente tá, “Na verdade, o Salvatore precisa ir embora.”
Eu quero negar, mas alguma coisa nos olhos dele diz pra não, e eu não nego. Eu e o Salvatore vamos ter que conversar sobre o Mero quando a gente voltar pra casa amanhã.
Guilia, Filippo e eu passamos o dia por aí, e apesar do meu irmão não saber tanto da história do lugar quanto o Salvatore, ele faz um bom trabalho de deixar a gente entretido.
O resto dos homens volta na hora do almoço e Camilla entra quando todo mundo tá começando a se juntar na área da janta.
“Como tá o joelho? O médico falou alguma coisa?” Marco pergunta pra ela enquanto ela beija ele na bochecha. Ela tá com um vestido preto, decotado que gruda no corpo todo.
“Tá de boa, tudo resolvido.”
“Que bom, mandei o Xander e o Gabriel levarem a Mischa pra casa da minha irmã, pra passar a noite.” Ele conta pra ela, enquanto a gente senta na mesa.
“Ah, achei que ela ia ficar com a gente?”
“Não, acho que um tempo sozinhos tá na mesa.” Marco olha pra ela, mas tem alguma coisa que eu não tô entendendo.
“E aí, como foram os terrenos?” Deno pergunta pra mim, todo sorrisos e charmoso, o que mudou completamente desde que a gente chegou ontem.
“Foi interessante, mas quero saber mais sobre Berenice e Elladio.”
“Tem várias histórias sobre eles, a versão romântica é que ela era uma princesa presa num castelo pra se proteger, mas a outra, é que ela era uma prisioneira, sequestrada e presa nesse lugar que o marido dela construiu pra esconder ela.” Leonardo é quem responde, e eu acho a última versão estranha, pro que eu vi.
Meus olhos correm pro Marco, e ele tá olhando pra mim. Será que ele ficou bravo por eu não querer sequestrar minha amiga?
“Acho que gosto mais da primeira versão.”
“Então, tem um diário escondido em algum lugar desse lugar, e eu acho que o Elladio escreveu a verdade nele.” Deno responde, enquanto a comida chega.
“Vocês, homens, conseguiram pegar alguma coisa?” Guilia pergunta, do meu lado.
“Não, a gente não caçou no fim.” Deno avisa pra todo mundo, e a troca de olhares dele com o Marco é tensa. O que eu tava perdendo?
“Ah, sempre tem a próxima vez.” Camilla completa, entrando na conversa.
“Antes de comer, queria falar umas palavras.” Marco se levanta, e a gente fica olhando pro cara com os olhos negros de fogo enquanto ele levanta a taça de whisky na mão.
“Aos novos começos, e aos fins do passado. Todos nós fazemos parte de uma família, mas anos atrás a tragédia bateu e meu pai fez uma escolha que separou as famílias Catelli e Capello de um jeito que causou vários problemas ao longo dos anos. Mas, meu irmão, Lorenzo, encontrou seu amigo mais próximo em uma Capello, Aliyana. E agora o Leonardo também encontrou uma esposa. Então que essa união nos aproxime e que o passado seja o passado. Sei que nunca vou conseguir consertar o erro do meu pai, mas espero que com essa união a gente possa curar as feridas antigas e criar laços fortes. Hoje eu oficialmente dou as boas-vindas aos Capello não só na Famiglia, mas nos Catellis.”
“Aos novos começos.” Deno fala, e a gente repete, bebendo o vinho. Mas quando eu bebo, o gosto não é doce, a amargura é forte e a felicidade que eu tava sentindo quando acordei hoje de manhã some numa nuvem de ódio. Minha irmã ainda sumiu e o Marco espera que a gente esqueça. Isso nunca vai acontecer.
Eu fico quieta a janta toda, e no minuto em que acaba eu me levanto e começo a tirar a mesa. Ninguém me impede ou me dá atenção. Chego na cozinha e sorrio pras trabalhadoras, lavando a louça e limpando a bagunça.
“Sei bellissima come tua sorella, Azurella.” Você é muito bonita como sua irmã, Azurella. A mulher fala pra mim, e eu fico meio confusa, ela é mais velha que as outras.
“Azurella?”
“Si, il signor Capello l'ha sempre portata nel maniero per il fine settimana.” Sim, o Sr. Capello sempre trazia ela pro casarão no fim de semana.
Eu sorrio enquanto minha mente passa por choque e esperança. Azurella Capello, minha irmã. Eu tenho um nome pra minha irmã.
“Grazie.” Obrigada.
Volto pra sala de jantar e ouço todos eles falando e rindo e eu observo. Todos eles estão tão alegres, despreocupados e felizes. Eu tentei por anos achar alguma coisa sobre minha irmã. Uma irmã que eu nunca cheguei a conhecer, mas que eu sentia uma ligação, amor e honra.
Essas pessoas a conheceram, tocaram nela, viram ela e assistiram ela ser levada. E agora, depois de um discurso pequeno, que basicamente disse foda-se, eles querem que a gente esqueça o que fizeram. Eu não consigo.
Não são os irmãos que eu culpo, mas o pai deles, e eu entendo a vontade do Marco de tentar consertar a própria família desde que a Ren morreu, mas e a minha? Minha irmã ainda tá em algum lugar e agora eu tenho um nome. Eu posso achar ela.