Capítulo 21
Aliyana
"Você tá linda," eu digo pra minha irmã. Ela tá mesmo.
A pele dela tá brilhando com uma felicidade que eu nunca vou sentir. O brilho no olhar dela é um reflexo de cristal pegando sol. Isso é bom.
Hoje, afinal, é o dia do casamento dela. Minha manga esconde as gotículas de sangue no meu pulso. Minhas mãos com luvas estão cegando ela e todo mundo que vai ver as evidências do meu temperamento, longe dos olhares acusadores e atentos.
Um sorriso dizem que vem em diferentes formas e como alguém pode ver as coisas de um monte de jeitos 'cheios de opinião', um sorriso pode ser interpretado do mesmo jeito.
Eu queria achar que o que eu tô esculpindo no meu rosto agora tá dizendo pra todo mundo que eu tô sã e muito 'feliz' de estar aqui. Sim, o que eu penso e o que realmente é, tão em lados completamente opostos do totem.
Porque eu sei que meu sorriso é falso, é malicioso, uma isca pra quem é ingênuo e um aviso pra quem é mau.
Eu sou a Aliyana Capello, filha da Consigliera Sartini Capello, e agora eu sou inimiga dos irmãos Catelli. Eu tô escondendo um traidor, e talvez seja verdade, ou talvez não seja, de qualquer jeito eles são tão culpados quanto ele. Eles levaram mais irmãos e irmãs e por mais que doa dizer, por mais que o Ren importasse pra gente, aquelas pessoas importavam pra família delas também.
Faz meses que a Guilia foi prometida pro Leonardo. A Guilia e o Leonardo adiaram o casamento o máximo que puderam. Eu fico feliz de certa forma, porque isso deu uma chance pra eles se conhecerem.
Dois dias se passaram desde a última vez que eu falei com o Marco. Meu pai ficou tão puto comigo, que não falou nada comigo o resto da noite. Ele ainda gritou com a Ilaria por nada e isso me pegou de jeito.
Na manhã seguinte, ele mandou eu ir com a Guilia e ajudar ela com a casa nova. A maioria das mulheres preparavam suas casas antes do casamento e compravam roupas novas pra todos aqueles jantares que elas seriam convidadas logo depois. A Guilia não foi diferente.
Eu passei as últimas 36 horas com ela preparando o apartamento do Leonardo, perto da Azure, onde eles iam ficar. A gente tava com primas da família Catelli e Moretti, o que deixou a Guilia e eu com quase nenhum tempo pra gente ficar sozinha.
Ela desconfiou de alguma coisa quando a Camilla e ela saíram da Mansão, mas quando elas voltaram, eu tava esperando na porta sem nenhum sinal de nada.
Meu rosto tava vazio.
A gente não falou sobre isso e eu evitei qualquer tentativa dela de tocar no assunto. Então, de certa forma, quando aquelas mulheres estavam em cima da gente, fofocando sobre os maridos delas ou inventando papo furado, eu tava ouvindo e fingindo ser a irmã maravilhosa.
Tinha um monte de sussurros ruins e uns palavrões rolando com as famílias agora, e aquelas mulheres tavam por dentro de tudo, embora nenhuma delas entendesse que porra tava acontecendo além da Nicole, a mulher do Capo Marcello, também conhecida como a mãe do Leonardo e a futura sogra da minha irmã.
Uma coisa era certa, o Marco tava certo quando disse que o casamento da minha irmã com o Leonardo ia ajudar a aliviar um monte de problemas rolando na família e fora dela também.
A ideia de deixá-lo, faz meu peito doer com a finalidade de tudo. Ele tava tão bravo quando falou comigo, eu magoei ele, deu pra ver só de olhar nos olhos de obsidiana dele.
Mas como ele pode esperar que eu deixe ele matar meu amigo? Essa era a ideia de amor dele? A minha era incondicional quando se tratava dos Misfits. Eu devia minha vida ao Mero e tanto quanto eu devia ao Ren. A única diferença era que meu amor pelo Ren era maior.
Meu celular toca, me tirando da minha nóia. Vendo o número desconhecido, eu atendo, indo pra parte de trás da casa enquanto a risada da minha irmã soa no ar quando meu irmão fala pra ela se apressar e se vestir.
"Alô?"
"E aí, eu posso ter um probleminha, eu preciso ir embora hoje à noite."
"O que aconteceu?" eu pergunto enquanto olho pros lados, me certificando de que ninguém tá escutando a nossa conversa.
"Fui na cidade hoje, como você disse, eu fiquei na parte Sul, parei naquele lugar de hambúrguer, mas o Vincent Raseto apareceu, meu primo. Tentei fugir dele, mas ele me viu."
"Merda, e aí?" eu sibilio quando ouço meu nome sendo chamado do outro lado da casa e meu estômago afunda. Isso não é bom. O Vincent é próximo dos irmãos, ele vai contar pro Deno.
"Ele disse que não tá no ramo de fofocar, pegou o pedido dele e foi embora, mas eu acho que ele sabia que eu tava lá, Liya, ele nem pareceu surpreso."
"É o Vincent, que também é um Stone, aquela família toda é estranha. Onde você tá agora?"
"Na cabana."
"A gente se vê logo. É o casamento da Guilia, então a gente pode te tirar de lá se for com cuidado." Eu vejo o Filippo vindo na minha direção e desligo o telefone, sorrindo pro corpo dele que tá chegando perto.
"Tão te esperando, a Guilia tá quase pronta." As palavras do meu irmão são secas e duras, ele também tá chateado comigo. Eu só não tenho certeza se é por causa do meu dever com meu amigo, ou da traição do meu pai.
"Já vou."
"Esse casamento é importante, então mantenha suas opiniões pra você hoje à noite. É o dia da Guilia. E a merda já tá feita do jeito que tá." Ele tá carrancudo pra mim, e eu entendo o porquê, mas também entendo por que eu tô ajudando meu amigo.
"Entendi."
O casamento da minha irmã vai ser a coisa que, com sorte, vai deixar um monte de gente tranquila, e trazer um pouco de alegria pra vida chata de muita gente. Também vai servir como distração pra uma extração.
Meu pai não economizou pra o casamento da minha irmã, o que já diz muita coisa. Mas o silêncio do Papai e a escolha de me tirar da maior parte da celebração por causa da minha briga com o Marco, mesmo depois do Deno ter insistido contra isso, é um fardo difícil de engolir. Ele uma vez me disse pra deixar o passado pra lá, então por que ele não pode fazer o mesmo por mim?
Meu Papai não faz ideia, a decisão dele é o curso do meu desespero silencioso. Eu tô machucada pra caramba por dentro e não tenho ninguém pra conversar de verdade, porque a pessoa que tá me machucando é a única que eu tenho.
O Marco nem olhou pra mim desde aquela noite e eu vi ele 5 vezes, eu contei. O Deno tá preso entre a cruz e a espada. Ele traiu minha confiança quando ofereceu ajuda, mas foi direto pro lugar onde ele queria que eu levasse o Mero. Doeu, saber que ele não podia ser confiável. O Deno não é o amigo que eu pensei.
Eu subo as escadas, feliz que o Papai decidiu usar a casa nova da Ilaria e não a minha. Os azulejos são perolados por toda a parte de baixo da casa, a parte de cima incluindo a escada tem tapetes cinzas que custaram pro meu Papai quase 40 mil pra deixar pronto pra hoje. A Ilaria realmente mudou tudo o que podia na casa e, mesmo que não seja meu estilo, eu tenho que dizer que o lugar tá deslumbrante.
"Guilia, o Deno tá aqui, desce," A voz do meu pai vem de baixo da casa e eu ouço o som dos convidados enquanto eles batem palmas e conversam.
Crianças brincam lá fora e de novo, se você fosse de fora, ia pensar que essa é só mais uma família normal.
Não tem nada de normal sobre a gente.
Quando eu chego lá em cima, cumprimentando as mulheres que estão perto da escada, eu vou pro quarto da minha irmã. Ela tá maravilhosa num vestido branco e dourado de jasmim tibetano que mostra as pernas longas e a figura esguia dela. A maquiagem dela tá impecável e ela se superou com o cabelo dela que tá cacheado, caindo nas costas.
A cabeleireira tá atrás dela, e eu reconheço a garota da minha aula de eco. Uma cerimônia tão grande é particular, o que significa que ela é filha de um Made-Man ou é uma soldada. Eu vou na segunda opção, já que ela não parece italiana. Mas nem eu pareço.
"E aí, Serena. O que você tá fazendo aí?"
"Olhando pra Guilia, o Papai disse que a Guilia não vai mais ficar comigo." Eu ponho meu celular no suporte do lado da Serena e toco nos cachos dela.
"Talvez não, mas ela vai te visitar com frequência, e a gente pode falar pro Papai deixar você ficar aqui nos finais de semana."
"Sério?"
"Sim, claro." Eu abraço minha irmãzinha e uma dor no meu peito se expande, que um dia ela vai se casar e eu vou me arrepender de não ter tantos desses momentos.
"Você tá muito bonita, Liya." Eu tô usando um vestido lilás três quartos como minha irmã menor, Serena, só que o dela tem flores.