Capítulo 5
Aliyana
A bota bate com um baita estrondo, a vibe da minha irmã piora a habilidade dela de fechar as coisas sem barulho.
Eu sento na frente do Black foda, que é DO MEU irmão.
Aperto o botão pra mover um pouco o banco de couro aquecido, enfio meu celular na bolsa, ignorando a Guilia e o Filippo discutindo sobre a bad dela. A culpa é minha. Eu sabia disso hoje de manhã, quando ela chegou e ouviu do Papa que eu ia com eles dois. Fiquei chocada, foi a primeira vez que ela ouviu sobre isso.
O lance da Guilia e do Leonardo não era mais só um casamento arranjado. E por mais que ela tentasse me convencer no mês passado, no nosso almoço, que ela detestava o Leonardo, burrice não é um traço que eu tenho. A Guilia tinha ficado próxima do futuro marido e, quanto mais perto, mais ela, secretamente, queria que eu não estivesse por perto pra ver nada disso.
E eu sei que não tem nada a ver com nenhuma parada negativa que ela tem sobre a minha quedinha de quatro anos pelo futuro marido dela. Ela só se sente estranha.
A minha irmã se convenceu que qualquer sinal de felicidade da parte dela significava uma tristeza de partir o coração pra mim.
Admito, é egoísta da minha parte não ter convencido ela do contrário até agora. Contar a verdade significaria confessar pra mim mesma e correr o risco de outras pessoas descobrirem sobre os meus pecados com o Marco Catelli, tipo, o meu pai.
Às vezes, na minha própria cabeça, eu me pergunto se o meu silêncio veio mesmo da autopreservação e da fúria do meu pai, ou se eu, secretamente, curtia a pena dela e as emoções intensas que me mantinham no centro disso tudo.
Eu toco no volante enquanto um pássaro cheio de cor cruza o céu. Meu celular toca e eu já sei quem é pela musiquinha.
"Não vou atender." Falo pro carro vazio, enquanto meu coração bate mais forte.
Uma sombra aparece na janela do carro e eu fecho os olhos quando a porra do toque bate na janela.
"QUE!!!" Não encaro o criminoso.
Ele me ignora e bate de novo.
Respiro fundo e abro a porta com toda a intenção de machucá-lo com a porta, mas ele deve sentir a minha fúria e dá um passo pra trás.
Os dois pés saem do carro enquanto eu fico parada na porta aberta e fuzilo o Matteo Fucking Di Salvo, de olhos azuis e cabelo loiro, que tá a menos de um metro e meio de mim.
Ele tá com um casaco cinza por cima do terno de inverno e o rosto dele tá todo vermelho e com sobras da doença.
Segundo a Elise, o Matteo ficou doente uma semana atrás, logo depois que voltou de Chicago. Ele também pediu zero dias de folga desde então.
Mas vendo ele hoje, ele tá MUITO quente. Um perigo, que não vai ajudar com o corpo dele detonado pela febre. Tá frio hoje, mas mesmo assim lindo, sem vento, mas com um sussurro da neve que logo vai enfeitar nossos jardins.
Esse é o olho do furacão. Uma descrição perfeita pro fim de semana todo. A gente ia ter uma frente fria em breve e um pouco de neve.
Normalmente, eu me seguro perto do Matteo, mas não consigo evitar as palavras que saem da minha boca.
"Se você tá tão doente, por que aceitou vir?" Minha curiosidade tá na cara, parada nesse tempo, olhando pro garoto que tá saindo das linhas inimigas aos poucos. A pergunta é: por quê?
"Ao contrário do que tá passando nessa sua cabecinha, eu não fui o cérebro disso." A voz dele é tipo lixa na minha pele e, se ele fosse outra pessoa, eu sentiria pena dele. Mas ele não é qualquer um. Ele é meu inimigo, que se meteu, com muita folga, no meu mundo todo.
"Ao contrário do que VOCÊ ACHA, tá passando na MINHA cabeça, eu não quero ser obrigada a ficar com um soldado espirrando o fim de semana todo." Ele revira os olhos, bufando de saco cheio.
"Tem certeza que essa é a única razão? Ou você só tá com medo de eu contar pros seus irmãos o seu segredinho? Me diz, Senhorita Capello, a sua irmã não sente o cheiro da falsidade e das mentiras que você tenta tanto esconder?"
Eu vou dar um passo à frente, mas vejo o meu irmão bem a tempo, marchando na nossa direção com a Guilia calada.
"Eu não sou a única com uma agenda." Sopro pro Matteo, enquanto ele tem a audácia de rir.
"Mas a minha não vem com uma bala na cabeça." O Matteo me deixa com essas palavras e eu quero gritar, berrar e xingar o mais alto que a minha voz conseguir, mas com o coração batendo forte, a pele quente e a palma da mão coçando pra dar um tapa nele, eu mordo a língua e pulo no carro, bem na hora que o Filippo e a Guilia passam por mim.
"Tá tudo bem pra dirigir até lá? Tenho uns papéis pra fazer." O Filippo não tá de bom humor. Me pergunto o que falaram na minha ausência, mas a tensão no carro com certeza tá no limite quando a Guilia pula no banco de trás sem bater a porta e o Filippo abre o laptop sem esperar eu responder.
Respiro fundo. Beleza, então.
Aperto o dedo no botão de ligar, o carro ganha vida e as vibrações da potência dele me dão um pequeno alívio do dia intenso.
Estrada longa, aí vamos nós.
Chegamos um pouco depois do meio-dia. Os três Bentleys lá atrás diminuem a velocidade na lateral da floresta, a gente vira à direita, sai das estradas com vista pra árvores e entra no que, a princípio, parece o começo de uma floresta, mas muda quando viramos à esquerda numa pequena valeta e damos de cara com os portões do inferno. Têm demônios de verdade, com chifres e rabos soldados no ferro forjado.
"Preciso sair e apertar a campainha?" Pergunto pro meu irmão, que não falou mais de cinco frases desde que começamos a viagem. E elas foram pra me dar direções.
"Deixa comigo, fica quentinha, você que tá dirigindo." O Filippo não espera eu responder, ele sai do carro quentinho e vai pro frio. Quanto mais a gente dirigia, mais frio ficava.
Viro pra ver a Guilia dormindo, coberta com uma manta quente que eu levei, por precaução.
A mansão não é nada do que eu esperava que fosse a casa do Marco. O que nem é muita coisa pra pensar, já que eu nunca vi onde o cara mora.
De dentro do carro, eu examino a extensão e os muros distantes, onde vamos ficar em breve. Parece um castelo de trezentos anos. Cheio de morte, mentiras e história, muito além dos meus quase 20 anos.
Talvez seja um lugar antigo, que um dia foi de uma família americana rica, que tinha um gosto por viver no estilo vitoriano. Ou talvez um aristocrata britânico tenha comprado um pedaço de terra americana e decidiu fincar suas raízes na terra e construir isso pra sua amada.
O Filippo esfrega as mãos com luvas enquanto volta pro carro e entra.
"É como se a gente tivesse entrado em outra dimensão, de tão frio." Dois homens de calças e jaquetas pretas vêm na nossa direção e começam a destrancar os portões. Fiquei surpresa, os portões não abrem sozinhos, como na casa do pai dele.
"Parece que o dono da casa quer manter a casa no tema antigo total. O que, aparentemente, inclui menos segurança." Falo, e arranco a primeira risada do Filippo desde que entrou no carro.
"Tudo aqui é da época da vovó. Mas tem um sinal de celular excelente. Esse lugar foi dos DeMarco por quase quatro séculos. O Marco herdou quando a mãe dele morreu."
"A mãe dele é uma DeMarco?" Essa é nova pra mim, sempre achei que fossem filhos da Nicole. Se o Marco é um DeMarco, isso significa que o Gabriel é parente do Marco.
Marco, Marco, Marco. A palavra roda na minha cabeça. O nome dele é uma lembrança de quem ele é. A pergunta é: a lembrança é uma maldição ou uma bênção? Vou ficar com a segunda opção. Talvez ir nesse fim de semana não seja uma má ideia, afinal. Tem muita coisa que a gente pode aprender quando as respostas estão por perto.
"Nem todos os irmãos Catelli são filhos da Nicole. Deixa isso entre nós." Concordo com a cabeça, bem na hora que os portões se abrem pra gente e a Guilia se mexe lá atrás, sentindo a nossa chegada.
"Parece que entrei em outra época." A Guilia fala, bocejando e, provavelmente, se espreguiçando com o corpo longo e esguio dela. O espaço atrás tá um pouco apertado com os meus materiais de pintura, que eu levei, caso a vontade me desse.
"Curtiu a soneca?" Pergunto enquanto entro no quintal, rodeado por um jardim aberto e bem cuidado.
Não consigo ver a casa direito de tão longe. Mas percebo a obra de arte exagerada, que é a entrada da área verde. É feita de marfim, dois leões se enfrentando numa batalha de vontades.
Tento dar um zoom na estátua, mas não consigo ter uma boa visão da peça, que é a única grandeza do jardim.
"Sim, na verdade sim. E também quero pedir desculpa por ter me comportado como uma patricinha."
"De boa." Falo enquanto o Filippo ignora o pedido de desculpas dela. Me pergunto o que ela fez pra deixar ele tão puto.
Meus nervos também não estão ajudando a minha curiosidade. Eles estão em greve por terem trabalhado demais nas últimas horas. Estão exigindo folga. O ar puro e fresco penetra nos meus sentidos, enquanto presto toda a atenção na grama sempre verde e saudável e nas árvores ouriço.
Mais pra frente, parece o terreno de um lugar morto, pra o fantasma da rua Carnival, assombrado pela névoa cinzenta, ainda na promessa do frio do inverno.
Dou boas-vindas ao frescor do ar, uma sensação emocionante, cada inspiração é sentida lá no fundo de mim.
Tinham alguns boatos sobre essa mansão. A maioria, fantasias, além daquela história que eu acho que tem alguma verdade. O Marco Catelli tinha um cemitério no quintal. Disso eu tenho quase 99% de certeza.
"Chegamos!" Falo quando o carro para sob a grande garagem em forma de cúpula. À minha direita, a entrada, que tá aberta pra duas portas que eu tenho certeza que são como o portal do palácio de Buckingham.
"Sim, chegamos. Esse lugar é meio assustador." A Guilia faz um barulho de frio. Desligo o motor do carro e vejo, perpendicularmente a mim, um rosto familiar. Xander Moretti.
Ele deve ter um sexto sentido, porque ele olha pra mim através da janela parcialmente escura e os olhos dele não dizem nada. A última vez que eu vi ele foi na noite em que o Ren e o Matteo mataram um Russo.
"Acho perfeito." Sussurro as palavras, não sei se eles conseguem me ouvir, mas também não ligo.
O Matteo aparece enquanto ele abre a minha porta e o cheiro do vape dele bate no meu nariz. O cheiro forte de baunilha prende na minha garganta enquanto ele solta a fumaça.
"Por que você fuma isso, é nojento."
"É um estilo de vida ajustado com qualidade, não critique até experimentar." O Matteo diz, enquanto enfia o aparelho no bolso do casaco. Meus olhos me traem e voltam pro Xander, que tá vestindo uma calça jeans e uma jaqueta de esqui. Ele não tá com luvas nas mãos, mas, se tá com frio, não demonstra.
"Tá afim do Xander? Boa sorte, o cara é o primeiro da lista do Marco." O Matteo diz enquanto meu irmão e minha irmã saem do carro.
"Talvez você devesse limpar o rosto, Matteo, parece cheio de ciúmes." A Guilia acrescenta, passando por nós, ela toca no ombro do Matteo e pisca pra mim.
"E eu me perguntei se você curtia homens gostosos e sexys, bom gosto." Provo com uma piscadinha, enquanto ele tem a ousadia de revirar os olhos e fazer uma cara de deboche.
Não fico mais um segundo na presença do Matteo.
A minha irmã ganha do meu irmão e de mim na corrida até a porta, onde o dono está, com a calça escura e uma camiseta cinza. O sorriso dele é falso como a personalidade dele. Meu estômago embrulha enquanto meu coração acelera a cada centímetro que eu chego perto dele.
Por que o Marco tem que ser o dono do lugar e não o Deno? Porque o karma gosta de me fuder.
Ele não olha pra mim e eu sou grata por esse pequeno alívio pra obrigar o meu corpo traidor a não me humilhar, como aconteceu na última vez que eu tive que olhar pra cara do cara. Meu corpo precisa se manter fiel à minha sanidade e não me decepcionar como naquele dia, em que ele me destruiu e me deixou sem olhar pra trás.
Os pensamentos vêm como um escudo necessário e eu sou grata por eles, e também pela dureza que causou em volta do meu coração desde que esse homem, que agora eu paro na frente, me mostrou o significado da palavra, decepção amorosa.
O rosto dele se abre num sorriso, enquanto os olhos dele descem pras minhas pernas descobertas, presas numa bota de camurça preta de 10 centímetros, que mantinham meus pés quentes, mas me davam um pouco mais de altura. Os olhos dele seguram os meus em um segundo, e meu coração bate de medo, me fazendo sentir que eu sou a que tá fazendo algo de errado, quando ele é que tá muito perto, olhando demais.
O corpo rígido dele trai a postura impassível, enquanto ele desvia a atenção desnecessária pro vestido de inverno justo, que abraça o meu corpo, dando dicas das minhas curvas.
E como no nosso primeiro encontro, briga, a mão estendida dele está esperando, esticada, virada pra mim. Parada.
"Olá, Sr. Catelli." Enrolo a minha mão na dele por menos de um segundo, porque, ao contrário da última vez que ele me tocou, sou só eu que estou queimando. Então, por que eu deveria sofrer?
A minha força interior não desafia a minha ordem interna quando eu olho pra trás dele, dispensando-o como se tudo o que ele merecesse fossem alguns segundos do meu tempo. E eu deveria ter orgulho de como sou uma atriz excelente. De como eu, uma mulher, sou capaz de convencer o Marco Catelli, de todos os homens, que eu não sou afetada pela presença dele.
Eu caminho em direção à parte interna da casa e uma voz familiar me paralisa enquanto meus ouvidos se aguçam, quando eu ouço uma voz baixa seguindo.
"Gabriel", grito, não ligando em que casa eu estou.
"Aly Cat, onde estás?" Caminho em direção ao som vindo da minha direita. A arte angelical nos tetos fala de deuses medievais e demônios enredados numa batalha de vontades. Tipo a estátua do leão lá fora. Raios dourados cercam a arte, como um mundo preso numa gaiola, tudo derramado num só lugar. É de tirar o fôlego, e me lembra a pintura de Leonardo Da Vinci, A Batalha de Anghiari.
Eu caminho por uma cena menos grandiosa enquanto entro na cozinha ampla. O sorriso do Gabriel me aquece enquanto sou envolvida nos braços familiares e altos dele.
"Você parece muito crescida, Aly Cat, é o jantar de casamento da sua irmã ou o seu?"
Eu rio e abro a boca pra dizer alguma coisa, quando uma mulher alta, de saia lápis branca e blusa vermelha, vem na nossa direção.
"Oi, você deve ser a Aliyana." Ela está me encarando e, embora seja a nossa primeira vez que nos encontramos oficialmente, não é a primeira vez que ela coloca esses olhos em mim.
"Em carne e osso."