Capítulo 21
Respirando fundo, eu solto o ar, tentando me acalmar. Abro os olhos e me vejo no espelho, toda arrumada pro trabalho, com uma blusa branca de padre e uma saia preta. Puxo o ar fundo, fecho os olhos, e a cena de ontem volta na minha mente.
*Flashback*
“O que você tá fazendo aqui?”, pergunto em voz alta, encarando as costas dele, que tava virado, e eu atrás.
“Ele ia te beijar”, ele responde, com a voz grossa e séria.
“O que você fez?”, eu debocho, sarcástica, andando pra frente e parando na frente dele.
“É diferente”, ele dá de ombros, como se não fosse nada demais.
Ele tá maluco, como assim se o Dylan me beija é um crime, e o que ele fez não é?
“Sr. Han, isso tudo é coisa minha, e eu não gosto que meu chefe se meta nisso.”
“Então”, ele levanta a sobrancelha, me olhando com interrogação, “Você deixa qualquer um te beijar?”
“Tipo, eu não gostei do que você fez.”
“Sr. Han”, eu chamo, ele fica mudo, me encarando em silêncio com raiva.
“Sr. Han, por que…”, eu gaguejo, quando ele dá um passo pra frente, me fuzilando com o olhar.
Droga, os olhos dele tão ficando vermelhos e eu consigo ver a mandíbula travada, os olhos injetados me dando arrepios.
“Para de me chamar assim”, ele sussurra, com a voz baixa e rouca.
“Hã?”, eu olho pra ele com os olhos arregalados, enquanto dou um passo pra trás quando ele avança mais um, meu corpo enrijece quando a grade fria de ferro da ponte encosta na minha pele, “Sr. Han”, foi difícil falar, minha garganta secou, engulo a saliva olhando pra ele, que de todo fofo virou alguém assustador.
“Não gosto de repetir as coisas, senhorita Ana”, a voz dele baixa ecoando nos meus ouvidos.
A minha mente tá pirando, eu não entendo nada do que ele tá falando e isso tudo tá me cansando.
“Sr. Han, o que você quer di…”, a letra ‘z’ escapa quando ele agarra meu braço com força.
“Para de me chamar disso, porra!”, ele grita, com a voz alta e o aperto forte, e eu me assusto, olhando pra ele completamente chocada, “Me chama de Jackie”, ele solta, com a voz que me dá calafrios.
Ele vai embora me deixando lá, meu cérebro tentando analisar alguma coisa.
Isso soa familiar.
Muito familiar.
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Abrindo os olhos, tento apagar os pensamentos dele, não consegui dormir direito, a noite inteira foi sufocante, tô num lugar onde não posso fazer nada e não faço ideia de como vou encarar o Dylan, que tá esperando pra me pegar, e também não sei como reagir se ele aparecer agora.
Respirando fundo pela última vez, eu solto o ar.
“Você consegue”, eu me animo, tentando colocar um sorriso no rosto.
Segurando a maçaneta da porta, rezo pra que a gente não abra a porta hoje no momento errado, estabilizando a mente, abro a porta e, pra minha surpresa, a porta dele tá fechada. Espero o elevador, me preparando pra situação que vem por aí, já que ele pode sair a qualquer momento, mas ele não saiu.
Respirando fundo, solto o ar, tentando tirar a tensão do ar, caminho em direção ao carro dele, colando um sorriso no rosto.
“Bom dia”, eu cumprimento, sentando no banco e colocando o cinto.
“Bom dia”, o Dylan cumprimenta, com os olhos grudados em mim.
O silêncio toma conta, e eu finjo que tô procurando alguma coisa na bolsa.
“Você tá bem?”, minhas mãos param e eu viro pra direita pra olhar pro Dylan.
“Sim”, tento forçar um sorriso, “Ontem eu…”,
“Você pode me responder depois, Ana”, a voz dele sai suave e sincera, “Só não sei o que me deu ontem”, ele desvia o olhar, olhando pra janela, enquanto eu olho pras feições dele de lado, “Pra ser sincero, tô afim de você desde que a gente se conheceu, toda vez que você me confortava, eu sentia, mas tinha medo de me abrir, porque achei que ia estragar a nossa amizade”, ele sorri gentilmente, segurando o volante e se ajeitando, “Decidi fazer isso porque ia me arrepender depois”, ele liga o carro e eu fico quieta, tentando não deixar a situação constrangedora com o que eu ia falar.
“Até mais”, descendo do carro, me apoio nele olhando pela janela.
“Até mais, eu te pego”,
“Dirige com cuidado”, eu sorrio, acenando pra ele, enquanto ele vai embora.
Saindo do elevador, vou andando pro escritório do Sr. Han, fechando os olhos, respiro fundo e bato na porta.
“Entra”, ouço a voz dele, seca e fria, abro a porta e entro, parada na frente da mesa, tiro o envelope da bolsa, coloco na mesa e deslizo pra ele.
Os olhos dele nunca saíram de mim, e os meus nunca saíram dos dele, “Quero me demitir”, digo firme, já que ele nem se importou em pegar a carta.
Ele levanta a sobrancelha pra mim, pegando o envelope, abre e lê, colocando de volta na mesa, ele me olha.
“Você não pode”, ele diz e volta a trabalhar no computador.
“É a minha vontade”, eu debocho.
“Parece que a Srta. Ana não leu o contrato”, ele solta, movendo o olhar pra mim, e eu sou pega de surpresa.
Contrato… droga, como pude esquecer disso?
“Eu nunca assinei um”, saiu com dúvidas.
“O Sr. Andrews te deu e você assinou”, ele se inclina pra frente, os olhos nunca saindo dos meus, “O contrato diz que se a parte B se demitir, tem que trabalhar por um ano sem receber.”
A minha mandíbula cai no chão e meus olhos quase saem das órbitas, como pude não ter lido essa regra no contrato? Meu cérebro mostra a cena em que o Sr. Andrews pede pra eu assinar o contrato, me fazendo ter pressa, dizendo que não era nada importante.
O Sr. Andrews é alguém em quem eu confiava muito, e como ele pôde me trair? Me endireitando, sorrio sarcasticamente pra ele.
“Ok, vamos ver”, eu cuspo, saindo e batendo os pés no chão.