Estupefacto
BETHESDA,
2420 DA, Depois da Grande Ascensão.
"¡Connors! ¡Connors!" o rádio dele chiou, mas ele tava chapado demais pra responder. Não importava o quanto tentasse, ele não conseguia desviar o olhar da cena que tava rolando bem na frente dos olhos dele.
"Connors, porra! Diz alguma coisa!"
"É... é..." não adiantava. Aquilo não era algo que ele conseguia explicar fácil pro comando pelos comunicadores.
E ele continuou olhando enquanto outro raio de luz, bem mais forte que o primeiro, saía do corpo dela. Só que ela não parecia estar ligando. A luz ficou mais forte e grande, pulsando em ondas que banhavam toda a área. A víbora que tinha pego ela e os outros que ainda tavam ali, rugiu, se contorcendo de dor enquanto onda após onda de luz forte batia neles sem parar. Queimando as escamas pretas e as armaduras escuras que produziam uma nuvem grossa de névoas escuras e fumos sulfúricos amarelos que evaporavam sem parar.
Os rugidos das outras víboras subiram ao redor dele, criando uma cacofonia de barulhos que, ele tinha certeza, dava pra ouvir em toda a cidade, e pra ele, parecia que as víboras indestrutíveis finalmente tavam berrando de dor.
O que tava rolando? Ele se perguntou, mesmo com o olhar passeando por tudo e voltando pra garota que tava brilhando como um sol no céu escuro.
Que parada era essa? Que tecnologia era essa? Era algo que usavam no país dela? Porque ela era decididamente estrangeira. Estrangeira, do jeito que ela se vestia, pro sotaque, até os mínimos detalhes de quem ela era.
De onde ela tinha vindo? Ele só conseguia se perguntar enquanto ficava ali meio abobado e se sentindo inútil. Observando, mesmo com a surpresa dele aumentando e os rugidos sumindo aos poucos, virando nada e, finalmente, tudo que sobrou foi a fumaça escura que tava se dissipando devagar pra revelar uma cena que ele nunca tinha visto antes nos seus vinte anos de vida.
A manta grossa que geralmente cobria o céu à noite tinha sumido e no lugar tava um céu brilhante com uma lua clara e um monte de estrelas. Uma nuvem ou outra pontilhava o céu noturno aberto, mas era leve e bonito e não tão pesado e cheio de coisa ruim como as nuvens anteriores que já tinham o enforcado antes.
Era bonito, sim, e tudo por causa dela. O soldado virou o olhar pra ela e pra forma dela que agora brilhava, mesmo enquanto ela descia pro chão devagar.
Os pés dela tocaram o caminho de pedra perto de onde ele tava, e ele olhou espantado.
Ela planou na direção dele e ele deu um passo pra trás, em pânico, mesmo enquanto reparava nas vestes antes pretas dela que agora tavam de um preto brilhante com um bordado dourado tipo vinha. Os olhos antes cinzas e apagados dela agora tavam de um prateado brilhante. Orbes prateados enormes que brilhavam na luz da noite enquanto pegavam a expressão atordoada dele.
"Que que você é?" ele finalmente gaguejou, ignorando os barulhos de fundo do caos que agora tava caindo no centro de comando confuso lá no Hub.
"Que que você é?" ele repetiu a pergunta.
Avila olhou de volta pra ele sem saber o que responder. Por um lado, ela tava em choque e nem conseguia começar a explicar o que tinha acabado de rolar com ela. Por outro, como ela ia começar a explicar pra ele as origens dela, se todas as respostas dele até então tinham sido sarcásticas? Isso não era normal e nem ela, uma Grande pesquisadora, conseguia encontrar um jeito de explicar.
"Não vou perguntar de novo." Ele falou enquanto dava outro passo pra trás pra se afastar dela.
Em pânico, Avila esticou a mão e tentou parar ele.
"Por favor... Não vai. Vou tentar explicar. Vou te contar, mas duvido que você vai acreditar em mim de qualquer jeito." ela respondeu, mesmo com os pensamentos indo de volta pro Killion e a reação original dele à apresentação oficial dela. "Eu sou Avila, antes filha de Jaykob e Tamaar, anciã dos Grandes. Eu era aprendiz de um Grande Avaliador e, até pouco tempo atrás, eu morava em outro reino, numa cidade lá em cima." ela falou, apontando pra cima, e o humano seguiu o dedo dela direitinho até que finalmente percebeu pra onde tava apontando.
"Sério?" ele zombou do que obviamente era uma afirmação bem absurda, mas Avila ainda assentiu.
"E você espera que eu acredite nisso?"
Ela pareceu pensar um pouco e, então, balançou a cabeça negativamente.
"O Killion teve alguns problemas pra acreditar, então acho que você também deve ter alguns problemas."
E com razão, Connors pensou enquanto olhava de volta pra ela, estudando-a pra ver se tinha algum sinal de decepção. Então, do nada, ele começou a rir, soltando uma risada sem graça que mirava mais a situação e não as palavras que ela tinha acabado de soltar.
"Acho que você tá certa." ele falou enquanto voltou a andar e Avila sentiu que respirou fundo, coisa que ela nem sabia que tava segurando.
"Você vai me levar agora? Você vai me levar pra ver o Killion?" ela correu até ele e o parou. A expressão dela implorando, pedindo pra ele ouvir ela.
Por um tempo, ele só olhou pra ela e pra aquela explicação esquisita. Então, de repente, ele passou por ela e continuou andando, sem saber como responder depois de um acontecimento desses. Ou ela tava louca, ou ela tava falando a verdade. Ele pensou antes de responder. "Não vou, e mesmo que eu quisesse, eu simplesmente não posso."
"Mas por quê?" ela continuou correndo atrás dele. "Mas eu acabei de explicar tudo!"
"Sério? Explicou mesmo?" Nisso, ela ficou quieta. "De qualquer forma, nosso Capitão tá no mar e, como você pode ver no momento, ainda tá escuro lá fora." ele respondeu, apontando pro breu que mais uma vez tinha engolido a noite com suas longas sombras. "Eu não posso arriscar." ele adicionou. "Pode ter mais terrores lá fora e eu tenho um dever a cumprir." mas mesmo falando isso, Avila conseguiu perceber que ele também tava em dúvida.
Porque essa escuridão não continha a maldade ou o mal que uma vez tinha coberto a noite, mas, em vez disso, era resultado de uma nuvem de chuva pesada que tinha se movido pra bloquear os raios prateados da lua.
"Beleza, que tal de manhã então?" ela perguntou pra ele, se recusando a desistir.
"E daí?" A fala dele foi grosseira e Avila não conseguiu evitar de afinar os olhos pra ele, mesmo enquanto encarava ele com um olhar irritado.
No entanto, ele nem se virou pra olhar pra ela. Em vez disso, ele abaixou a cabeça e começou a estudar a tela que tava montada em um painel grudado na armadura dele, na parte de trás do antebraço direito dele. Sem outra escolha, ela respirou fundo e tentou de novo.
"Por favor..."
O soldado primeiro parou e, então, levantou a cabeça pra encarar ela.
Será que ela finalmente tava conseguindo falar com ele? Sem que ela soubesse, o homem tava pesando todas as opções dele e de repente decidiu que não era favorável pra ele chamar a ira do capitão dele se ela fosse realmente quem ela disse que era.
"Tá, mas só porque você disse por favor." Ele finalmente respondeu antes de desligar a tela e o painel com ela.
Cansada demais pra protestar, Avila deixou o jovem soldado arrastar ela pra dentro, pra um dos prédios abandonados onde eles esperaram a noite no santuário das paredes ainda firmes. Com tudo que ela tinha passado até aquele momento, o eu banido dela tava se sentindo exausto e, ali, sem mais nada pra fazer, ela sentou no chão vazio e dobrou o cotovelo pra apoiar a cabeça.
Demorou só alguns segundos e ela pegou no sono, conseguindo pegar algumas horas de sono sem sonhos até ser acordada por uma mão que balançou ela com força. Era o soldado, e ele tava falando pra ela que era hora de começar a se mexer de novo.
"Eles voltaram?" ela perguntou grogue, notando a escuridão relativa que ainda envolvia o quarto que eles tinham escolhido ocupar.
"Não. É de manhã!" O soldado chiou. "Precisamos ir se quisermos encontrar eles antes da chegada do crepúsculo."
Avila suspirou enquanto se arrumava, se sentindo bem irritada com os métodos dele. Ela sacudiu a poeira imaginária das vestes Triban agora douradas e pretas dela e foi seguir o soldado irritante pra fora da mansão meio detonada.
"Sabe, você nunca me falou seu nome." ela tentou, tentando começar algum tipo de conversa civilizada quando o silêncio tinha demorado demais.
"Você nunca perguntou." as respostas dele continuaram rudes apesar das tentativas dela de ser cordial.
Ela suspirou com a fala dele e continuou atrás dele, lutando pra acompanhar as passadas longas e pesadas que tavam levando eles pra uma rua asfaltada larga, mas vazia. Mesmo assim, ela não ia desistir, ela disse pra si mesma. Essa era a única outra humana que ela tinha encontrado e interagido nesse reino aqui embaixo, e se significasse que ela ia ter que se esforçar mais pra conquistar ele, então, ela ia dar o melhor dela. Ia valer a pena no final, ela pensou.
"É verdade, mas eu tô perguntando agora." ela finalmente respondeu depois da breve pausa que precisou pra pensar.
O homem não respondeu imediatamente e Avila quase se desesperou e voltou a andar atrás dele. Sem mais nada pra dizer, ela começou a observar o cenário. Seu ambiente imediato e a beleza dos pedaços de arquitetura que tavam espalhados por todos os lados.
A tinta parecia meio descascada na maioria, se não em todos os prédios, e algumas paredes externas que não tinham a sombra de um telhado tavam todas rachadas, enquanto outras tinham desmoronado. No entanto, a maioria dos prédios dentro das paredes externas ainda tava intacta e ainda mantinha aquele mesmo encanto que tão carinhosamente lembrava ela de casa.
"Gabriel! Gabriel Connors" o humano finalmente gaguejou e Avila achou que não conseguia esconder o sorriso que agora tinha aberto caminho no rosto dela.
Gabriel, ela pensou enquanto olhava pra as costas da forma escura ainda andando na frente dela. Ela até tentou conectar o nome aparentemente doce ao rosto do soldado rabugento e, no entanto, não parecia combinar com a personalidade bruta dele. Se alguma coisa, era o total oposto, ela sorriu mesmo enquanto observava ele já marchando a uma certa distância à frente dela.
"Anda logo!" ele gritou. "Não temos o dia todo!" ele gritou depois de perceber que ela tinha diminuído o passo pra uma caminhada tranquila.
Com o sorriso ainda escondido nos lábios, Avila acelerou o passo e conseguiu alcançar ele. Os dois então continuaram em frente em silêncio, mesmo com mais luz continuando a entrar com a chegada do novo dia.
Os raios do sol esquentaram Avila. Espantando o frio da noite anterior. Os raios amarelos riscavam o céu cinza, antes sem graça e frio, com um brilho rosa e laranja que marcou sua explosão no horizonte leste.
Tudo isso ela absorveu em silêncio e, de vez em quando, ela corria um pouco pra acompanhar as passadas maiores do jovem soldado que ainda tava guiando ela pra onde o Killion tava, ou pelo menos era o que ela esperava.
Lentamente, mas com certeza, eles deixaram pra trás o distrito abandonado e, quanto mais andavam pra leste, ela percebeu que as ruas estavam ficando mais estreitas e as casas também estavam ficando menores. Tinha sinais de vida por todo lado, o burburinho da vida humana e até mesmo, o som ocasional de um animal que ainda não tinha sido solto.
Eventualmente, a dupla explodiu num espaço de mercado aberto, um que tava começando a ferver de atividade, mesmo com os comerciantes começando a se mexer e a arejar suas mercadorias expostas em prateleiras em lojas e pequenas barracas de madeira na praça do mercado.
Avila queria parar e olhar. Pegar uma refeição ou talvez, um pouco de pão pra levar, mas esse jovem soldado, esse humano rabugento não ia deixar ela fazer isso. Não que ela tivesse dinheiro pra gastar, mas ele continuou levando ela em um ritmo rápido e, em pouco tempo, eles pararam em frente a um cais. Um que era bem menor do que alguns dos portos maiores que ela já tinha visto do Ponto de Vista.
Avila logo chegou à conclusão de que devia ser uma pequena parte do mesmo porto que ela tinha visto naquela época. Na época em que ela tinha deixado o Killion, não mais de setenta e duas horas de Triveria antes. Mas agora, enquanto ela estudava, ela percebeu que parecia meio vazio de pessoas e um pouco cheio demais de barcos pequenos. De qualquer forma, ela ainda tava com a mesma ideia de que era o mesmo porto que ela tinha visto, embora um pouco menor e provavelmente um pouco ao sul da península, onde a armada de grandes navios também tava ancorada.
Assim que eles chegaram aos cais, Gabriel saiu correndo de novo. Dessa vez, ele levou ela por uma rota ao norte que tava ao longo da margem do porto.
Ainda olhando ao redor, Avila seguiu ele e ele levou ela pro ponto mais distante ao norte dos pequenos cais e pra um barco à vela que tava preso ali.
"Entra." foi dito pra ela sem cerimônia e, logo depois, ele começou a desfazer as cordas que tavam impedindo o barquinho de se afastar com a maré baixa.
Sem outra escolha a não ser fazer o que foi mandado, ela se acomodou no meio do barco, com muito medo de tocar em alguma coisa e arriscar despertar a raiva do humano que tinha ficado fervendo o tempo todo ali na frente dela.
Qual era o problema dele, de qualquer forma? Ela não conseguia entender, embora tivesse certeza de que não tinha imaginado. Que ele tava bem mais rabugento do que tinha parecido quando ela tinha encontrado ele no dia anterior.
"Você é sempre assim rabugento?" ela sentiu a boca dela se mexendo sem a permissão dela e, mais uma vez, ela xingou a língua seriamente solta que sempre parecia botar ela em encrencas.
Ela sabia que tinha feito merda quando ele parou todas as atividades dele e se virou pra encarar ela, o rosto dele contorcido pelo que ela assumiu ser uma versão avançada de um olhar de raiva.
Tinha que ser. Afinal, quem conseguia dizer o que tava rolando naquele capacete escuro?
Na maior parte do tempo, a viseira tinha permanecido abaixada e só o tom de voz e a linguagem corporal dele tinham comunicado os sentimentos dele sobre as tais aventuras dela. Sim, e o fato de que ele tinha acabado de levantar a viseira dele e tava agora no processo de mostrar o rosto muito furioso pra ela, falava muito sobre o quanto ela achava que ela era irritante.
***
Ela não conseguia se culpar por isso. Ela tinha um problema com a língua dela e consigo mesma por não conseguir dominar isso.
"Eu não sei você, mas eu sempre desconfio de enigmas e você, por acaso, é um bem grande. Isso e também o fato de que eu deveria estar descansando agora. Dormindo os efeitos da noite, mas não posso fazer isso agora que você me obrigou a levar você para o nosso amado capitão!" Ele gritou antes de voltar pros esforços dele de desdobrar as velas.
"Ok... então você é rabugento." ela finalmente respondeu, "e com sono também, mas como posso ajudar?" Avila adicionou enquanto se levantava pra se juntar a ele ao lado do volante.
"Por um lado, você podia rezar pra os ventos mudarem de direção e que a gente encontre eles vivos! Não ia adiantar nada se a gente descobrisse que não estão." Ele disse pra ela enquanto virava o volante pra tirar o barquinho dos cais lotados. Isso fez Avila se perguntar, no entanto, será que não tinha mesmo um jeito dele se comunicar com eles? Claro que eles não eram Grandes e, por isso, não tinham túneis de teletransporte ou cristais especializados pra esse tipo de coisa, mas ainda assim, como eles coordenavam os esforços deles? Ela tinha visto o tablet no antebraço dele e, uma vez, ela também tinha ouvido o som de uns chiados e uma voz que vinha do capacete dele. Com certeza, tinha que ter um jeito, certo? Como mais ele sabia onde eles estavam localizados?
'Pare de me encarar com esses olhos brilhantes! É sinistro!"
'Eu consigo fazer melhor."
'O quê? O que você quer dizer? O que poderia ser melhor do que ter um desconhecido dividindo o mesmo espaço comigo?"
Boa e velha ironia. Ela pensou com um sorriso. A Virtude agora tava zunindo bem fundo nas veias dela e, enquanto ela flexionava um músculo, a Primeira respondeu de um jeito que ela uma vez tinha pensado que nunca mais ia sentir. O que tinha realmente acontecido? ela se perguntou enquanto olhava pra as vestes Triban dela. Vestes que ainda tavam escuras, mas com um bordado dourado distinto que brilhava nas bainhas e nas bordas.
"Deixa eu adivinhar?" Gabriel parou de girar o volante e se virou pra olhar pra ela com o que ela presumiu ser um olhar cético nos olhos dele. "Você também consegue controlar os ventos?"