Tropeçando na Verdade
Umas horinhas antes disso,
BETHESDA,
O Ponto de Encontro,
2420AA,
"Onde ela foi parar?" um Killion preocupado perguntou para a dupla que tava lá, de boas no sofá. Os dois, a mãe dele e a avó dele, sacudiram a cabeça, tipo, 'nem sabemos'.
"A gente não faz ideia, Killion", a mãe dele respondeu. "Mandamos ela embora só porque não queríamos que ela aprontasse mais. Mais do que ela já aprontou, saca? Então, tipo, ninguém pensou em ir atrás dela, com a situação que tá..."
"Mãe..." ele reclamou, frustrado. O que ele ia fazer? Revirou a cabeça, procurando respostas. Se ele soubesse que ia acontecer isso... Ele se lamentou pra si mesmo, mas qual era? Não levar Avila pra casa? Ele sacudiu a cabeça. Impedir a Selene de atacar ela? Porque essa era a única explicação. Avila não era do tipo que ataca as pessoas do nada. Ou era? O que ele realmente sabia sobre ela? Não. Ele sacudiu a cabeça. Agora não era hora de dúvidas. Ele tinha uma mulher machucada pra cuidar e outra que precisava ficar segura.
Por enquanto, uma situação tava sendo resolvida. Ele pensou, olhando pelas paredes de vidro do escritório dele, o lugar que eles tinham corrido pra cá depois de garantir que a Selene Barrageway tava o mais segura possível nas mãos da equipe de médicos especialistas do Ponto de Encontro. Quanto à outra mulher, o Gabriel tava rastreando ela e ele só podia torcer pra que fosse questão de tempo até encontrarem ela.
"Eu sei que eu já falei isso antes, a Avila foi quem salvou a minha vida! Eu não entendo porque vocês duas trataram ela tão mal!" ele finalmente levantou a cabeça pra encarar a família dele.
"Não brigue com a gente assim, Killion", a mãe dele gritou em resposta. "Tipo, não é totalmente nossa culpa que você fez segredo sobre o ataque e não contou os detalhes pra gente!" ela detonou os comentários dele.
"Beleza, mãe. Talvez você esteja certa", ele rosnou, irritado. "No momento eu não podia entrar em detalhes sobre o ataque, mas mesmo assim, vocês deviam ter acreditado em mim e tratado ela com mais cuidado."
"Mas Calla..." ela começou a protestar de novo, mas parou depois de ver a expressão que tava na cara dele. "Ela é tão importante pra você assim?"
Era raro ver o filho dela tão bravo e só isso já incomodava, fazendo ela reconsiderar as ações dela em relação à moça. Talvez, talvez... A testa dela franziu, pensando nas várias maneiras que ela podia ter lidado com a situação de forma diferente.
"Ela me curou, mãe", ele olhou pra cima quando continuou a falar. "Ela pode ser um pouco diferente. Mas ser diferente nem sempre é ruim, quando você usa seus poderes pra fazer um monte de coisas boas e incríveis. Esses, poderes que ela chama de virtudes eram..."
"Virtudes?" As duas mulheres gritaram em uníssono.
"...o quê? Por quê?" ele levantou a cabeça, surpreso. "Vocês sabem alguma coisa sobre isso?" As emoções nos olhos do Killion eram palpáveis. A confusão dele tava em primeiro plano. Depois tinha a raiva, o medo e a vergonha. Sentimentos que ameaçavam dominar ele, mas ele conseguiu manter a calma, esperando a hora certa pra que as duas explicassem tudo pra ele.
"Mas não pode ser!" a mãe dele virou pra avó dele, explodindo de descrença. Era frustrante como elas não davam bola pra confusão dele ou pras emoções que tavam nos olhos dele. "Mas elas sumiram faz tempo! Sumiram, foi o que a vovó me contou e você sabe disso também, mãe." Ela tava parecendo uma menininha, expressando os sentimentos dela pra mãe mais velha. Mesmo assim, a mente dela tinha voltado pros contos.
As histórias que tinham passado pra ela. Histórias de lendas e heróis e de um lugar entre o céu e a terra que brilhava e resplandecia numa luz sem fim. Um lugar construído com ouro, brilhando como diamantes e rodeado por nuvens enormes que escondiam de qualquer olhar humano.
"É só uma história, né?" ela precisava que fosse verdade. Se não, ia significar que eles tinham sido realmente abandonados. "Os contos do sacerdócio."
"Nesse mundo, nada é inacreditável demais pra ser realidade. Os terrores não ensinaram isso pra gente?" a velha respondeu, com uma expressão séria e pensativa nublando as feições dela.
"Mas..."
"Neema..."
"Espera! Espera! Desculpa. Do que diabos vocês duas tão falando?" Um Killion confuso acenou com as mãos entre as duas, esperando interromper e dar uma olhada na conversa maluca delas.
"Sua amiga, Avila. Você tem certeza que foi isso que ela te falou? Foram essas as palavras exatas?"
As sobrancelhas do cara franziram enquanto ele fazia uma carranca pra expressão cética da mãe dele, e não pra incerteza que a mulher esperava que ele sentisse.
"Claro que eu sei o que eu ouvi. Ela tá sempre falando sobre as Virtudes dela. Acho que foi a primeira virtude, a segunda virtude..."
"Nesse caso, temos que encontrar ela." a mãe dele virou pra avó e disse. "Eu não acredito que não conseguimos ver isso antes!" ela gritou, cheia de angústia, se culpando por algo que agora ela sentia que tinha sido um erro estúpido da parte delas.
"Fale por você, filha." A velha repreendeu. "Eu suspeitei disso o tempo todo." ela adicionou, com uma aparência pomposa que trouxe um sorriso pro rosto preocupado do Killion. "O design e o bordado naquele tecido eram distintos demais pra pertencer a qualquer outra pessoa que não fosse do sacerdócio."
"Agora que você mencionou, eu senti que elas me lembraram de algo, mas não consegui colocar o dedo." a mãe dele respondeu, pensativa.
"Ah, vá! Os templos!" Vovó Kezzia revirou os olhos pra mulher mais nova. "Você, de todas as pessoas, devia saber, depois dos seus encontros. Os desenhos naquele templo?"
"Ok! Ok! Tudo bem! O que estamos esperando, então?" ele interrompeu a conversa delas, saindo de trás da mesa pra se aproximar das duas mulheres. "Tanto faz, já perdemos tempo demais quando devíamos estar lá fora procurando por ela! Eu vou sair." ele adicionou, dando mais alguns passos em direção às portas do escritório dele, com a mente já pensando em todos os lugares que ele ia procurar por ela. Mesmo fazendo isso, a preocupação e a agitação dele saíam dele em ondas. Tanto que ele virou pra encarar o braço que tinha ousado impedir ele de cumprir a missão dele.
"Hum... Killion, você parece estar esquecendo de alguma coisa." a mãe dele disse, com o olhar dela indo pra a soldada que podia ser vista pelas paredes de vidro, andando de um lado pro outro na sala de espera da clínica.
"O quê?" Killion latiu e a mãe dele apontou pra direção da clínica. Os olhos dele seguiram o olhar dela e pousaram na mulher. Depois de ver ela, os olhos dele suavizaram antes de endurecerem de novo, enquanto ele se enchia de determinação renovada. "Eu não ligo. Calla pode fazer o que quiser, mas ela não vai me tirar dessa missão. Eu vou atrás da Avila e vou trazer ela de volta. Só ela pode ajudar a Selene e eu queria que você tivesse deixado ela fazer isso, quando ela se ofereceu."
"Desculpa, Lionel." a avó dele tentou acalmá-lo. Ela tinha chamado ele pelo apelido de infância dele. Um que parecia combinar perfeitamente com o humor dele no momento. "Desculpa, a gente realmente sente muito, mas não podemos mudar o que aconteceu. Dito isso, o que podemos fazer pra te ajudar?"
Killion parou e pensou por um momento.
"Já que tá escurecendo, eu vou sair e procurar por ela sozinho. Vocês duas, por outro lado, deviam ficar aqui e dar apoio à família." As mulheres concordaram, mesmo enquanto ele partia pra contratar um conjunto extra de mãos e olhos pra ajudar na busca pela mulher desaparecida.
"Gabriel", ele chamou, puxando o rapaz da multidão de caras de tecnologia que tinham se reunido em volta do sistema central de rastreamento do Ponto de Encontro.
"Capitão, qual é essa de a Avila ter atacado a mãe da Sargento Barrageway?" o rapaz perguntou, com os olhos dele indo pra encarar a forma ainda andando de um lado pro outro da Calla Barrageway. "Eu não fazia ideia que era por isso que estávamos procurando por ela."
"E se for verdade. Isso muda nosso objetivo?"
"Não, senhor, mas ela tá furiosa, sabe, e, do jeito que ela tá, eu tenho medo que ela gaste o linóleo." Gabriel adicionou e Killion se viu sorrindo apesar das emoções borbulhantes dele.
"Apesar de ter sido avisada pra não fazer isso, a Selene Barrageway agarrou as vestes da Avila e elas deram um choque nela. Agora estou recrutando sua ajuda pra ir procurar a Avila pessoalmente. Desse jeito, temos esperança de trazer a Selene de volta também." Killion falou pra ele.
"Entendi, mas se ela fugiu, ela não vai se recusar a voltar? Melhor ainda, isso não devia ser algum tipo de confissão de culpa?" Gabriel detonou.
"Não, burro!" um Killion irritado respondeu. "Ela queria ajudar, mas minha mãe e minha avó mandaram ela ir embora!"
"Ah, ok. Agora entendi. Nesse caso, eu vou te ajudar. Não que eu tenha escolha, mas vou ficar feliz em ajudar. Ela pegou um carinho por mim e, apesar de todas as tendências irritantes dela, eu odiaria vê-la ir."
"Connors!" Killion repreendeu, mesmo enquanto um sorriso se formava com a insinuação de que a Avila tinha uma queda pelo Gabriel. Não era verdade, mas o Gabriel ia dizer qualquer coisa pra tentar animar o clima. "Coloca a roupa e vamo embora."
Enquanto os dois saíam do Ponto de Encontro, um par de olhos castanhos raivosos seguiu eles. A mulher cutucou o rapaz que tava fazendo a guarda ao lado dela e sussurrou algo no ouvido dele. O jovem soldado assentiu e, de repente, um rosnado animal saiu da boca da sargento, antes de ela sair furiosa, deixando pra trás uma trilha de soldados em pânico que estavam inclinados a impedi-la.