Capítulo 56 Ela Está Crescendo
A filha dele tinha, sem saber, juntado uma força daquelas, inacreditável.
Naquele momento, o olhar dele pra **Hebe** mudou. Pela primeira vez, ele viu direitinho que a filha dele não era mais aquela deusa meia-boca da juventude, que os outros deuses achavam inútil. Ela não era mais a copeira que podia ser chamada e dispensada quando desse na telha.
Aquela que antes olhava pra ele com respeito, esperando um favorzinho e proteção, agora parecia uma águia voando, mostrando os olhos afiados e as garras sinistras.
Ela era **Hebe**, a deusa da vida e da reencarnação, a dona de um cargo de deusa principal no Monte Olimpo, uma parada que podia desafiá-lo, sutilmente.
Se ele não soubesse que a profecia dizia que um cara ia derrubar o reinado dele, **Zeus** podia até ter acreditado que **Hebe** era a criança profetizada.
"Hahahahaha! Minha filha, a linda e nobre **Hebe**, como seu pai, preciso dizer que tô muito feliz que você conseguiu a autoridade da reencarnação. Você cresceu…"
"Obrigada pelos elogios, meu grande pai, o governante supremo da montanha divina. Devo minhas conquistas de hoje à sua criação."
Quem não fala umas palavras bonitas? O olhar de **Zeus** encontrou o de **Hebe**, e os dois deuses entenderam o que tava por trás da conversa.
O rei sábio dos deuses manteve a pose, parecendo muito feliz. O sorriso dele se abriu mais, e ele levantou as mãos, a voz dele ecoando como um trovão por todo o templo, enquanto ele anunciava: "Pra comemorar sua nomeação, **Hebe** e **Hermes**, pelos dois deuses primordiais, vou fazer um banquete na montanha divina pra celebrar essa ocasião feliz!"
A atitude mais suave do rei dos deuses aliviou os outros deuses presentes. Já acostumados com uma vida estável, eles tinham medo de, sem querer, começar outra guerra divina.
Mas, como **Zeus** tinha falado, os deuses botaram sorrisos no rosto, elogiando a grandeza e a sabedoria do Rei **Zeus**, enquanto mandavam parabéns pro **Hermes** e pra **Hebe**. Sobre o que eles realmente pensavam no fundo do coração e o quanto eram sinceros, só eles sabiam.
Com o decreto do rei, as ninfas da montanha divina, claro, não ousaram ser negligentes. Elas bateram as asas transparentes, carregando vinho bom, carnes e as frutas mais frescas, indo e vindo pela praça do Olimpo, servindo seus mestres e vendo eles rindo e se jogando no prazer.
Os protagonistas do banquete, **Hebe** e **Hermes**, claro, chamaram muita atenção. Principalmente o **Hermes**; desde que nasceu, ele nunca tinha recebido esse tratamento, e a bajulação dos deuses deixou ele meio tonto, fazendo com que ele resistisse menos à sua identidade de guia dos mortos.
Quanto à **Hebe**, a posição dela na montanha divina agora era alta. Como uma deusa de alto escalão com o poder de um deus principal, ela só ia ficar mais forte depois que a reencarnação fosse estabelecida. Depois de expressar que preferia a tranquilidade, os outros deuses não ousaram perturbar a paz dela, mas mesmo assim, ela continuava sendo o centro das atenções.
**Atena** segurava uma taça de ouro cheia de vinho inebriante, mas quando tocou os lábios dela, pareceu meio sem graça, porque os pensamentos dela estavam em outro lugar. Ela olhou pro ponto principal do banquete, a deusa de olhos roxos que tinha criado mitos várias vezes, seus olhos cinza-prateados brilhando com reflexão.
Se ela pudesse me ajudar, talvez...
"Vossa Majestade **Hades**, o mestre da riqueza e das almas, eu o saúdo." **Hebe** levantou sua taça e se aproximou do seu tio misterioso, o deus do submundo, **Hades**, que estava vestido de preto.
"...A sempre viva **Hebe**, me surpreende muito que você se aproxime de um deus da morte como eu." Os olhos verdes de **Hades** olharam pra **Hebe**, parecendo surpreso com a aproximação repentina dela.
"Vida e morte são apenas dois lados da mesma moeda. A morte dá tranquilidade a todas as coisas e merece respeito em troca."
Os olhos de **Hades** brilharam com as palavras de **Hebe**. Ele levantou sua taça em um brinde à deusa de cabelos dourados.
"Sua perspectiva é bem única, mas você não veio até mim só pra discutir os mistérios do mundo, né?"
Ele tinha observado a confusão anterior e podia adivinhar o propósito da visita de **Hebe**.
**Hebe** sorriu de leve, sem enrolar, e disse direto o propósito dela pra **Hades**: "Os deuses primordiais me deram a autoridade do renascimento das almas dos mortos. Acho que preciso discutir os detalhes com o submundo e os deuses do submundo."
**Hades** levantou uma sobrancelha. Essa deusa era esperta, percebendo que tinha ofendido o rei dos deuses e procurado refúgio no submundo.
Mas não importava; os detalhes das almas renascendo precisavam ser discutidos mesmo. Além disso, enquanto os outros temiam seu irmão rei, ele não. Se alguém quisesse invadir seu submundo, primeiro teria que consultar os três deuses primordiais por trás dele pra ver se eles concordavam. Ajudar essa deusa também ia beneficiá-lo.
"Em nome do senhor do submundo, onde crescem os narcisos e os álamos, invoque silenciosamente meu nome divino em seu coração, e os portões do submundo se abrirão para você."
Ao ouvir isso, **Hebe** abriu um sorriso deslumbrante e brindou com a taça de ouro com a de **Hades**, em agradecimento pela generosidade dele.
Num canto do banquete, **Ártemis**, de cabelos cinza-prateados, linda e com um rosto puro, tomava seu vinho, com uma expressão sombria e desanimada. Ela olhou pra **Hebe**, que estava rindo e conversando com **Hades**, com sentimentos complexos.
O ciúme que ela sentia antes já tinha sumido; quando alguém a superava tanto, esse ciúme só fazia ela parecer ignorante e ridícula. Naquele momento, ela estava simplesmente desanimada com o futuro caótico e sem luz que estava por vir.
"**Ártemis**…"
O deus radiante do sol apareceu atrás dela. Como gêmeos, ele podia sentir as emoções da irmã dele, claro.
"**Apolo**." **Ártemis** levantou a cabeça, seus olhos cinza-azulados cheios de melancolia. "Você conseguiu a autoridade do sol, enquanto minha autoridade sobre a lua continua muito longe. **Selene** é muito cautelosa; ela nunca errou. Se continuar assim, o que eu vou fazer…"
"**Ártemis**." **Apolo** interrompeu as palavras dela, puxando a irmã dele pra um abraço. Ele olhou pro banquete, onde a deusa da lua cheia, **Selene**, estava falando com sua irmã **Eos**, um brilho escuro passando pelos olhos dele.
"Logo, **Ártemis**, muito em breve você vai conseguir a autoridade da lua…"
Os deuses continuaram se divertindo nas festividades deles. Essa era a natureza do divino; eles tinham energia sem limites e uma vida quase eterna. Enquanto um banquete mortal podia acabar em algumas horas, pros deuses, dois ou três dias era só o começo, dez dias ou oito dias era o auge da diversão deles, e meio mês ou um mês era quando eles já tinham se divertido o suficiente.
Mas **Hades** não tinha tanto tempo assim. Depois de dar permissão pra **Hebe** entrar no submundo, ele se levantou e saiu do Olimpo, porque tinha vários assuntos esperando por ele no Salão de **Hades**.
Depois que **Hades** foi embora, **Hebe** procurou outra deusa, uma que falava pouco, mas que apoiou sua tia e figura materna, **Héstia**, a deusa do lar e da casa, sob a pressão de **Zeus** no templo principal.
"Grande **Héstia**, que personifica o amor e a bondade altruístas, ainda não tive a chance de expressar meu respeito e gratidão a você. Obrigada pelo seu apoio e ajuda em tantas ocasiões."
Embora houvesse uma relação de sangue entre os deuses na montanha divina, todos estavam meio que relacionados. **Hebe** não era muito próxima dessa deusa, mas hoje **Héstia** estava apoiando ela incondicionalmente, e **Hebe** sentiu que era essencial retribuir essa gentileza.
"Se você tiver algum desejo, por favor, me diga, e farei o possível para realizá-lo", **Hebe** ofereceu sua promessa, expressando boa vontade. Por um lado, era uma forma de retribuir um favor; por outro, ela queria cultivar um bom relacionamento com essa deusa e trazê-la para o lado dela.
"Você não precisa me agradecer, **Hebe** da vida. Minha ajuda a você não é motivada por nenhum desejo de recompensa; sempre ajo de acordo com meu próprio coração", respondeu **Héstia**.
A deusa do lar e da casa, **Héstia**, usava um quíton simples, com o cabelo castanho escuro escondido sob um capuz. Seu rosto digno e sereno era complementado por olhos laranja quentes que pareciam uma lareira ardente, irradiando uma beleza quente, mas pura.
Ela sorriu gentilmente para **Hebe**, aparentemente indiferente aos benefícios prometidos pela deusa mais jovem. A razão pela qual **Héstia** escolheu ajudar **Hebe** foi em parte devido à sua admiração genuína por essa deusa, que tinha subido à sua posição atual por meio de seus próprios esforços.
**Hebe** era diferente de outras divindades; **Héstia** podia sentir que ela possuía um amor e respeito sinceros pela vida e pela humanidade. Essa era uma forma de boa vontade que não estava relacionada ao interesse próprio, o que era bem raro.
Quanto à outra razão… **Héstia** não pôde deixar de suspirar por dentro. Ela não queria ver seu irmão **Zeus** continuar afundando mais na lama do desejo. Como a filha mais velha do deus rei anterior, **Cronos**, ela tinha testemunhado seu pai, amaldiçoado pelo destino do deus rei, consumido por sua obsessão e loucura por poder, devorando cada um de seus irmãos, um por um.