Capítulo 104 Duas Regras
“Quando eu era muito pequeno, me levaram pro altar, pra pegar a herança dos artefatos da galera do clã. Eu lembro meio por cima que aquela noite a lua tava brilhando e limpinha, jogando aquela luz suave, tipo água cristalina. Meu pai era o porta-voz do artefato da geração anterior. E, como o porta-voz do crime da inveja, ele serviu por duzentos anos. Durante duzentos anos, ele botou fé na força que o crime da inveja deu pra ele, fez móias de coisas pro Império Sagrado Élfico, botando pra correr os inimigos que invadiam o império, e foi ganhando mó respeito no clã, até virar tipo um ancião. Mas isso tudo não era o que a gente, os elfos noturnos, precisava. Tipo, todo mundo no mundo acha que a gente, os elfos noturnos, é tudo doido. Mas a real é que o povo não sabe. Na história antiga dos elfos, a gente, os elfos noturnos, não era bem aceito pela raça élfica. Por causa da nossa pele, dos nossos costumes de viver na noite, que era tipo um sinal ruim. Mas era só nossos costumes, não quer dizer que a gente era do mal. É claro que os outros elfos nunca nos oprimiram, porque os elfos são gente boa, não iam machucar os outros, tipo a gente, os elfos noturnos.”
“Bondade.”
A voz de Gusrabo ficou grossa. Ele manjava dos costumes dos elfos, mas os elfos noturnos eram estranhos demais, tipo, a personalidade e o jeito de ser deles eram o oposto dos outros elfos.
Mavi, com a Sagrada Ferida, olhou pro Gusrabo e continuou: “Isso tudo que eu falei foi no começo, mas a parada dos elfos noturnos mudou mesmo foi com o crime da inveja. Na época em que o mundo tava uma bagunça, os elfos gente boa tavam sendo escravizados e forçados por um monte de raças. Era foda, porque os elfos confiavam muito nos outros. Mas nesse mundo cruel, a bondade foi pro espaço. Então os elfos tiveram que se ligar, seguir o exemplo das outras raças, e proteger o lar deles no meio da bagunça. Foi aí que um tal de Ordem apareceu pra ajudar os elfos. Ele queria que os elfos não fossem escravizados por outras raças e deu a força pra eles reagirem com as outras raças. Na real, isso tudo era uma armação, uma enganação. Os elfos já tinham uma força braba, só que não queriam machucar ninguém. O que esse cara chamado Ordem tava dando não era força, era uma mudança na mente!
No clã dos elfos, tinha doze raças, grandes e pequenas. Os elfos noturnos, tipo, eram os que menos falavam e tinham vez. Quando esse tal de Ordem apareceu, ele falou com os anciãos das outras raças que os elfos noturnos podiam proteger as outras raças. Pela história dos elfos, eu vi que, naquela época, por causa das palavras desse cara chamado Ordem, a galera dos elfos noturnos ficou toda animada, eufórica, tipo, não iam mais ser menosprezados pelos outros, e até iam se dar bem com eles e serem reconhecidos! Dá pra imaginar como a gente, os elfos, é simples, como a gente é infantil e bonzinho. Só que tudo isso não foi uma parada que a gente quis mudar, foi tipo uma imposição. Depois, o cara chamado Ordem deu pros elfos noturnos o artefato maligno da inveja. E, como o cara da Ordem disse, a personalidade do chefe dos elfos noturnos que tava com a inveja mudou, e ele ficou frio, fechado e com raiva das outras raças, fora os elfos, tipo, pra ser sincero, invejoso, não com raiva.”
“Como porta-voz do crime da inveja, ele tem a capacidade de dar duas regras.”
“A capacidade de dar duas regras? O que significa isso?”
Perguntou Gusrabo, curioso, mas em troca ganhou só desprezo de Mavi, com a Sagrada Ferida.
“Como você falou agora, cada artefato tem suas características. Eu não sei quais são as suas características, mas essa é uma característica do crime da inveja.”
Gusrabo concordou com a cabeça.
“E depois? Que tipo de existência tem a capacidade dessas duas regras?”
Mavi, com a Sagrada Ferida, ficou com uma cara sombria, e aquela voz animada sumiu. Ele falou num tom baixo: “Duas habilidades pra dar regras, uma pra si mesmo e outra pros outros.”
“Por exemplo, alguns estudiosos humanos falaram de uns temas filosóficos, tipo, qual é a personalidade de uma pessoa, e qual a pessoa tá destinada a ser nessa vida, é claro, não é tudo uma certeza absoluta. A habilidade dessas duas regras é mudar a personalidade, no fim das contas, não é pra te dar uma força braba, mas pra mudar sua cabeça.”
“O primeiro chefe dos elfos noturnos a pegar o crime da inveja, ele usou as duas regras pra limitar, uma foi usada nele mesmo, dando mó rancor e raiva das outras raças, fora os elfos, e a segunda regra foi igual a primeira, mas dando pra toda a raça dos elfos noturnos.”
“Então, depois, todas as raças do mundo ficaram cheias de mó medo e pavor com a existência dos elfos noturnos, e essa é a razão.”
“Mas eu tenho que dizer que, por causa da ajuda do crime da inveja, o Império Sagrado Élfico pode ser estabelecido, e os elfos não podem ser oprimidos por outras raças, mas também têm a parada de reagir com as outras raças.”
Falando nisso, Mavi, com a Sagrada Ferida, ficou cada vez mais triste.
“O artefato maligno não é uma parada boa, no fim das contas. Dá pra ver pela palavra 'maligno'. Eu acho que você também sabe que não é uma parada boa.”
Gusrabo concordou com a cabeça.
“Então, quando você virou o chefe dos elfos noturnos, você usou as duas habilidades das regras direto, tipo os outros chefes?”
Depois de ouvir um monte de coisa, Gusrabo também sacou uns problemas. Essas duas regras podiam não ser usadas direto pelos elfos na frente dele.
Mavi, com a Sagrada Ferida, olhou pro Gusrabo com os olhos, e um sorriso cruel apareceu ao mesmo tempo.
“Parece que essa geração de porta-vozes da inveja, você vai deixar a Ordem bem chateada.”
“Sim, eu não usei as duas regras direto mesmo. Porque na minha cerimônia pra pegar o pecado da inveja, eu vi meu pai no dia anterior à cerimônia. Eu também achei essa situação na história. Cada geração de porta-vozes que herda o crime da inveja vai ter esse sintoma quando der o crime da inveja pra próxima geração de porta-vozes.”
“Na real, meu pai me ama muito. Eu não consigo ver meu pai daquele jeito. Eu não espero nenhuma inveja. Naquela época, eu era pequeno e achava que era aquele anel odioso que machucava meu pai. Então, depois de fazer a cerimônia da inveja, eu encontrei Leviatã.”
“Leviatã, o Deus da Inveja!”
A respiração de Gusrabo ficou pesada. Ele também era um deus brabo, tipo, do mesmo nível que Mamon, o deus da ganância.
“Leviatã me falou umas paradas sobre o pecado da inveja, e pediu pra eu usar as duas regras ao mesmo tempo. Eu escutei, mas só usei uma, dando pro povo o dever de proteger o império sagrado élfico e jurando lealdade até a morte.”
Tchá!
“Se não tiver nada errado, os chefes dos elfos noturnos no passado seguiram as duas regras que o chefe da geração anterior usou direto. Seu pai não te culpou por isso?” Gusrabo se perguntou.
É importante saber que os elfos dão mó importância pra tradição. Se a herança da inveja vira tradição, cada geração de chefes dos elfos noturnos tem que seguir.
Mavi, com a Sagrada Ferida, balançou a cabeça.
“Meu pai morreu depois que eu peguei a cerimônia. Tudo o que eu sei é o que Leviatã me falou. Uma parada que você pode não saber é que eu sou diferente dos outros chefes das gerações passadas. Os chefes das gerações passadas aceitavam a herança quando eram adultos, mas eu tinha só uns trinta e poucos anos quando aceitei a cerimônia, que é tipo seus sete ou oito anos de idade humanos. Minha cabeça não tava madura ainda, e meu coração queria paz, e eu não gostava de brigar e matar.”
“Infelizmente, nada escapa dos olhos da Ordem. Minhas diferenças e mudanças foram sentidas rápido por ele. Ele veio pra tribo dos elfos noturnos me procurar e pegar de volta o crime da inveja, mas tava rolando uma parada de sacrifício élfico a cada dez anos naquela época. O clã tava fazendo uma dança pra louvar Deus, pedindo a graça de Deus e se banhando na graça de Deus.”
Nessa hora, a cara de Gusrabo tava meio estranha, e Mavi, com a Sagrada Ferida, também viu, mas não quebrou de novo.
“Ele queria pegar de volta o crime da inveja, mas eu fui contra, porque no momento em que ele apareceu, Leviatã me falou que eu nunca devia dar o crime da inveja pra ele!”
“Eu obedeci às palavras de Leviatã, me levantei na cerimônia de louvor a Deus e pedi pros homens fortes lendários do clã me protegerem. Eu sabia que eu era fraco e não ia ser páreo pra Ordem de jeito nenhum, então eu menti na frente dos homens fortes lendários do meu clã. Obviamente, os anciãos se importavam muito com as crianças elfos menores. Quando eu ouvi que alguém ia me machucar, eu despachei dez homens fortes lendários de uma vez! Mas a Ordem foi embora, e não teve mais aquela de roubar o crime da inveja.”
“Não foi bom isso?”
Mavi, com a Sagrada Ferida, olhou pro Gusrabo com uma nova ferida.
“Bem, muito bom mesmo! Botar a Ordem pra correr, mas trazer mais problema pro Império Sagrado Élfico! A Ordem tem poder e força que você nem imagina. Ele não pode usar a força dele pra pegar de volta o crime da inveja, então ele usa o poder dele pra lidar com todo o Império Sagrado Élfico!”
“Você já deve ter ouvido falar da Guerra Pré-Histórica Polosa.”
O cérebro de Gusrabo sacudiu.
“Aquela guerra pré-histórica em que os três impérios, dos orcs, do inferno e dos anjos, atacaram juntos o império sagrado élfico!”
“Sim, essa é a guerra! Pra pegar de volta o crime da inveja, a Ordem usou o poder dele pra juntar os três impérios pra atacar o Império Sagrado Élfico!”