Capítulo 18
Eu acordo com um peso enorme nas minhas costas, o que me faz surtar um pouco.
Que merda é essa em cima de mim?!
Eu tento o meu melhor pra virar a cabeça na direção do peso, só pra suspirar quando percebo que é só uma diaba.
Oops, quis dizer Aurélia.
De alguma forma, consigo me virar pra ficar deitada de costas, embaixo do corpo quente dela.
Eu aproveito esse momento de silêncio pra observar as feições dela.
O cabelo longo, preto como um corvo, tá preso num coque bagunçado, com os baby hairs encostando no rosto dela dormindo.
Deixa ela com uma cara de confortável.
Eu desvio o olhar pro dela, que tá fechado e relaxado.
Uau.
Ela tem cílios longos.
Eu instantaneamente desvio o olhar pro nariz dela, depois de admirar os cílios. Ela tem um nariz pequeno, arrebitado, com sardas claras no meio.
Nunca tinha reparado que ela tinha sardas antes.
Meu olhar desce devagar pros lábios dela, fazendo meu estômago revirar de alegria.
Os mesmos lábios que eu beijei várias e várias vezes.
Eles são perfeitos.
Porra.
Eu realmente preciso parar com isso.
Os lábios dela são rosados e carnudos.
São mais macios do que parecem, e têm um arco do cupido adorável.
Eu levo minha mão pra cima pra passar a ponta dos dedos na bochecha lisa dela, antes de descer pros lábios.
Os lábios que eu sempre pareço desejar.
O que você tá fazendo comigo, Kingsbury?
Eu tiro a mão do rosto dela, a contragosto, só pra ela abrir os olhos, revelando as íris cinza claro.
Eu engasgo de leve com o movimento repentino.
"Acho que gosto mais de você de manhã", ela diz, com o hálito mentolado batendo no meu rosto.
Ela leva a mão pra ajeitar uma mecha do meu cabelo loiro atrás da minha orelha, me fazendo perceber o que tava acontecendo.
"Sai de cima de mim, babuíno", eu digo, batendo na mão dela.
"Ah, eu não tô em cima de você", ela responde calmamente, com uma expressão obviamente confusa.
Quê?
Eu olho pros nossos corpos grudados, só pra perceber que ela tá certa. Ela tá deitada do meu lado, em vez de em cima de mim, como tava antes.
"Eu sabia", eu resmungo, saindo correndo do sofá e indo pro banheiro da Fé pra escovar os dentes.
Já dá pra ver que hoje vai ser um dia longo.
-
"Você sabia que a porta tava destrancada?", eu pergunto pra ela, girando a maçaneta do quarto da Fé.
Eu sei que tava trancada ontem à noite, porque eu fiquei tentando girar, mas não deu em nada.
Elas devem ter aberto hoje de manhã.
"Como eu ia saber disso, princesa?", ela pergunta, saindo do banheiro.
Eu reviro os olhos pra ela antes de abrir a porta e sair.
Sou atingida na cara pelo cheiro maravilhoso de panquecas de mirtilo, me dando água na boca.
Minha favorita.
"Boa, vocês duas finalmente acordaram", a Bailey diz animada.
Pelo menos ela voltou ao normal.
"Muito engraçado", eu respondo sarcasticamente.
"Hanna, sua avó te mandou mensagem", a Fé me informa, apontando pro meu celular.
Por que minha avó ia me mandar mensagem?
"Obrigada", eu respondo com um sorriso, indo em direção ao celular. Quando pego ele na mão e levanto pra ver todas as notificações que perdi, levo o choque da minha vida.
Essas filhas da puta.
"Que porra é essa?!", eu exclamo, entrando na cozinha e mostrando pra elas a tela do meu celular.
É uma foto minha e da Aurélia dormindo no sofá da Fé. Eu tô deitada de bruços embaixo dela, usando os braços como travesseiro, enquanto a Aurélia tá deitada um pouco em cima de mim, com a mão na minha cintura.
(Imaginem que essa sou eu e a Aurélia kkk)
"Quê?! A gente achou vocês assim de manhã", a Fé responde, dando de ombros.
Então foi por isso que a porta tava destrancada.
"Então vocês tiraram uma foto?!", eu exclamo, fazendo a Bailey revirar os olhos.
Não acho que elas percebem o quão sério isso é.
"Hanna, você tá sendo dramática demais", ela responde, dando uma mordida na torre de bacon e panqueca.
Ela vai se arrepender de comer isso depois.
"É, princesa", a Aurélia concorda, pegando um prato e enchendo de comida do café da manhã.
"Bom, desculpa se eu não gosto de ser fotografada abraçada com alguém com quem eu brigo o tempo todo", eu digo.
"Você sabe que ia ser mais rápido se só dissesse 'amigas com benefícios'?", a Fé pergunta, me fazendo gemer.
Nós não somos amigas!
Muito menos amigas com benefícios!
Esse dia já é um desastre completo.
-
A manhã consistiu na Bailey e na Fé relaxando na sala da Fé, sendo preguiçosas e improdutivas, a Aurélia encontrando todas as chances que conseguia pra jogar cantadas e cantadas imundas em mim, enquanto eu limpava a bagunça da noite passada.
Todas nós esperamos até meio-dia pra trocar de roupa, querendo ficar de pijama o máximo possível.
Eu tô no meio de mandar uma mensagem pra minha mãe vir me buscar, quando um par de braços fortes de repente me envolve na cintura e me levanta com facilidade.
"Meu Deus, me coloca no chão!", eu grito, com uma expressão aterrorizada.
Eu posso ou não ter medo de altura.
Quando a figura não se mexe pra me colocar no chão, eu começo a dar cotoveladas, fazendo ela gemer e me colocar de volta no chão. Assim que eu tô segura no chão, agradeço silenciosamente a Deus antes de me virar e encarar a culpada.
"Vou lembrar que você gosta disso", ela provoca.
Aff.
"Isso não foi engraçado, Kingsbury", eu digo, com um tom azedo, mandando rapidamente minha mensagem e jogando o celular na cama da Fé.
"Então por que eu tô rindo?", ela pergunta, tentando recuperar o fôlego.
Porque você tem um senso de humor doentio.
Eu vou pra cima dela e tento empurrá-la de volta no sofá, na esperança de que ela bata a cabeça e fique quieta por alguns segundos, só pra meu plano dar completamente errado.
Quando minha mão tá no ar, ela pega e me puxa pra perto dela, nossos peitos agora a centímetros um do outro.
"Quer tentar de novo, princesa?", ela diz baixo, fazendo meu corpo congelar.
Que merda?
Eu sinto uma leve agitação na parte de baixo da barriga.
Diz alguma coisa, Hanna!
"Foi o que eu pensei", ela diz rouca, com os olhos piscando pros meus lábios ligeiramente abertos.
Ela solta meu pulso antes de atender o telefone e sair do quarto da Fé.
Quando o telefone dela tocou?
Espera um minuto...
Eu não devia estar preocupada com isso.
Eu tô furiosa.
Quem ela pensa que é?!
Relaxa, Hanna.
Você só vai ter que lidar com ela por mais alguns minutos, aí você vai estar livre da Aurélia.
"Hanna, você tá bem?", a Fé pergunta, entrando no quarto com uma expressão confusa.
Eu suspiro e me jogo no sofá dela.
"Não sei", decido revelar.
Isso chama a atenção dela, fazendo ela parar o que tá fazendo e vir pra mim, sentando do meu lado no sofá.
"Quer conversar sobre isso?", ela pergunta com um tom gentil, não querendo forçar muito.
"Eu tenho me sentido diferente nas últimas semanas", eu começo, virando pra encarar ela.
"Eu perguntei pra minha mãe sobre isso, mas elas não ajudaram muito, se é que ajudaram, me deixaram mais confusa", eu revelo, fazendo ela assentir interessada.
"O quão diferente você tem se sentido?", ela pergunta.
Eu penso em como posso formular minha declaração.
"Sempre que eu tô perto de você ou da Bailey, eu sou a minha eu normal", eu suspiro.
"Mas sempre que eu tô perto daquela diaba, eu me sinto estranha, diferente", eu digo, fazendo a Fé rir um pouco.
"O nome dela é Aurélia", a Fé brinca, me fazendo revirar os olhos.
"Isso importa?!", eu expresso, frustrada.
"Só quero minha vida antiga de volta, meus sentimentos eram estáveis naquela época", eu digo com um tom de voz triste.
Ela se encolhe um pouco com a minha declaração.
"Hanna, você sente falta do Chadley?", ela pergunta, me fazendo fazer uma expressão estranha.
"Não", eu respondo.
"Você sente falta da Ava?", ela pergunta em seguida.
"De jeito nenhum", eu respondo com uma expressão de nojo.
"Então você não sente falta da sua 'vida antiga'", ela responde com um sorriso de cumplicidade.
"Então por que minhas emoções estão todas bagunçadas sempre que eu tô perto da Kingsbury?", eu pergunto, me recusando a usar o primeiro nome dela.
"Bem, eu não sei, você acha que ela é bonita?", a Fé pergunta.
Eu penso na pergunta dela.
"Quer dizer, ela não é horrível de se olhar", eu respondo, olhando pra todo lugar menos pros olhos da Fé.
"Você possivelmente gostaria de beijá-la",
"De novo?", ela acrescenta, me fazendo encarar ela.
Ela não conseguiu se segurar.
Eu suspiro e penso na ideia.
"A ideia não parece tão ruim", eu decido responder.
"E finalmente, se ela estivesse em perigo, você faria o possível pra salvá-la?", ela pergunta.
"Ué, eu não quero ser repreendida pela mãe dela e pela minha mãe", eu explico, já que nossos pais parecem ser amigos de longa data.
Ela me olha antes de pegar minhas mãos gentilmente nas dela.
"Hanna, você gosta dela", ela diz com um tom gentil, me fazendo pular do sofá.
Não.
"O que você quer dizer?", eu pergunto com uma expressão aterrorizada.
"Você não se importaria com a ideia de possivelmente começar um relacionamento com ela", a Fé explica, me fazendo revirar os olhos.
"Eu sei o que 'gostar' significa, eu quis dizer como você chegou a essa conclusão?", eu pergunto enquanto ela se levanta.
"Acho que os eventos de ontem à noite provam tudo", ela diz com um sorriso, me fazendo gemer.
Nós não fizemos nada ontem à noite!
"Eu não gosto dela, eu não posso gostar dela", eu digo.
"E por que você não pode?", a Fé pergunta.
Eu literalmente mataria ela de tanto que eu brigo com ela.
"Porque eu sou hétero, meninas héteros não gostam de outras meninas!", eu surto.
"Você já parou pra pensar que talvez você não fosse, sabe, 'hétero'?", a Fé diz, me fazendo arregalar os olhos.
Ela levanta as mãos inocentemente, me fazendo revirar os olhos pra ela.
"Agradeço seus pensamentos, Fé, mas eu sou cem por cento hétero", eu respondo.
"Ou você poderia ser Aurélia-sexual", a Bailey diz na porta, me fazendo pular de susto.
Que porra é essa?!.
"Há quanto tempo você tá aí?", eu pergunto com uma expressão aterrorizada.
"Não muito", ela diz, dando de ombros.
"Onde tá a pessoa de interesse?", a Fé pergunta, referindo-se à Aurélia.
"Ela tá no telefone com alguém, parece importante", a Bailey responde, chamando minha atenção.
"Você ouviu quem era?", eu pergunto, com minha curiosidade me dominando.
"Não, sempre que eu chegava perto dela, ela ia pro outro lado", ela me responde.
"Isso é estranho", eu digo, desconfiando de tudo.
"Se vocês já terminaram de falar de mim, a avó da Hanna tá aqui pra levar a gente pra casa", eu ouço da porta, fazendo nós três pularmos e virarmos naquela direção.
"Que porra, Kingsbury?!", eu grito pra ela pela segunda vez hoje.
"Você grita muito, princesa", ela comenta, com uma expressão travessa, pegando nossas malas.
Eu vou repreendê-la pelos pensamentos sujos dela, só pra minha respiração ficar presa na garganta ao ver os músculos dela. Acho que nunca fiquei tão quieta como agora, com os músculos dela flexionando pra carregar nossas malas.
"Hanna Wilder!", a Bailey grita, me tirando do meu devaneio.
"Hã, quê?", eu pergunto, olhando em volta só pra perceber que a Aurélia não tava mais no quarto.
Eu me pergunto quando ela foi embora.
"Você tem certeza que não tem uma queda por ela?", a Fé pergunta, já sabendo a resposta.
"Ok, então talvez eu tenha uma queda por ela", eu revelo, contra a minha vontade, fazendo a Bailey gritar.
"Meu Deus, finalmente, agora eu posso planejar o seu casamento. Vai ser tradicional, com branco, ou posso ser um pouco mais ousada e usar...", a Bailey dispara, me fazendo pará-la.
"Casar com ela?! Nós estamos no segundo ano, pelo amor de Deus, Bailey!", eu digo com os olhos arregalados, fazendo a Fé gritar.
"É, dá um tempo pra ela pedir a garota em namoro primeiro", a Fé concorda com uma expressão divertida.
"Eu não vou casar com uma Kingsbury!", eu gemo frustrada, me jogando na cama da Fé pra ter um efeito dramático.
Por que minha vida é tão confusa?