Capítulo 3
Depois daquele almoço sinistro que tivemos, Quinn se juntou a mim para a minha caminhada de sempre. Como vocês provavelmente já sacaram, meu meio de transporte são meus próprios pés. Eu não tenho carro. Vendi faz uns dois anos. Eu acho tranquilidade em andar por aí.
'Você podia ter segurado a onda, Kur. Se o Nile não fosse meu amigo, a gente ia ferrar o negócio. Isso é um evento de bilhões.'
E essa é, obviamente, a razão pela qual Quinn me agraciou com sua companhia. Pra me dar uma bronca de novo.
'Você tá exagerando.' Eu falei com um revirar de olhos.
'Multimilionário. Quer dizer, qual a diferença, a família faz bilhões por ano.'
Eu parei, fazendo ela parar bruscamente também. Me virei pra ela, meio que perguntando. 'Você só me seguiu pra me dar uma bronca? Porque se for, eu vou chamar um táxi pra você ir pro seu noivo e talvez continuar planejando o seu casamento.' Ela fez biquinho. 'Ah, não. Não faz essa cara pra mim. A culpa foi sua por ter me mandado pra aquele filho da puta.'
'Kur.' Ela me avisou.
'Olha, eu já fiz o que você pediu. Pedi desculpas, ele pediu desculpas e estamos de boa.'
'Depois de você ter dado um soco na cara dele!' Ela exclamou.
'Ele mereceu muito.' Ela suspira. 'Vai pra casa, Quinn. Seus saltos não vão sobreviver a essa caminhada.' Eu apontei pros saltos dela de uns dez centímetros, que mal faziam ela chegar na minha altura. Eu tinha um e setenta e cinco. Ela tinha um e sessenta e poucos.
Ela soltou um suspiro pesado. 'Tá bom. Lembra, seja legal com ele.'
'O mesmo vale pra boca dele.' Eu retruquei.
Isso fez Quinn rir, me abraçando logo em seguida. 'Por favor, não se atrase amanhã.' Ela disse antes de tirar os braços de mim. 'Não provoque ele, Kur. Ele é pior que o pai com as manias dele.'
Eu dei um sorrisinho. 'Veremos.'
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Surpreendentemente, a primeira semana passou sem problemas. Eu e o Nile só nos cruzamos algumas vezes. É quando temos reuniões pra planejar e finalizar a aparência geral, cronogramas, fornecedores e outros detalhes, tanto menores quanto maiores. Isso vai ser um evento internacional, atraindo investidores e clientes globalmente, como um de seus propósitos. Eu descobri que essa é a primeira vez que eles organizam esse tipo de evento gigante. Acontece que o Nile estava muito investido nisso. Essa era a plataforma pra visão dele pro futuro da Veselov Industries.
Devo admitir que essa informação me deixou nervosa. A Veselov é nossa maior cliente até o momento. Já lidamos com muitos clientes grandes – de pequenas a famosas produções de filmes, eventos, casamentos, festas de elite, campanhas publicitárias. Eu sempre meti a mão em tudo. Se o CEO e eu não tivéssemos treta, eu acho que esse projeto ia me fazer duvidar de mim mesma e, provavelmente, pela primeira vez no meu trabalho, questionar minha confiança. Mas nossa briga me fez querer provar meu valor pra ele, independentemente da minha aparência ou do meu jeito de falar.
Pôr um momento, eu me perguntei por que ele ainda nos escolheu depois da minha má impressão sobre ele. Eu duvido que seja porque somos uma empresa de boa reputação. Fizemos muitos projetos grandes e de sucesso, sim. Mas eu acho que esse cara é muito cuzão, muito arrogante pra ainda trabalhar com alguém como eu. De qualquer forma, quem se importa? O negócio tava rolando e é isso que importa.
Ele nos deu um escritório temporário pra trabalharmos. Caso ele precisasse de alguma coisa, ele podia nos contatar facilmente. Também era mais fácil pra ele nos monitorar. Ele também escolheu uma equipe de um dos seus funcionários pra trabalhar com a gente, o que foi uma vantagem. Já que eventos geralmente precisam de um grande número de pessoas pra trabalhar.
Eu ficava sozinha no escritório quase sempre, ainda matutando ideias e estratégias. Meu povo começou a sair pra procurar suprimentos e fazer outras tarefas que eu precisava que eles fizessem. O babaca só nos deu quatro meses. Eventos como esse levam um ano pra planejar. Ele tava pirado. Se não fosse pelo cheque gordo que ele assinou pra gente, eu ia cair fora disso. Porque ele me irrita, eu planejo retribuir o favor.
Toda vez que eu sinto que ele tá por perto, eu ajo como se não estivesse preocupada e não tivesse nada a ver com isso. E sempre que eu via a carranca feia dele, eu sabia que tava funcionando. Ele notou minha indiferença.
Então aqui estou, batendo um papo com uma das funcionárias dele na cabine dela, como se tivéssemos todo o tempo do mundo. O nome dela era Emma. Estávamos falando sobre os hobbies dela, a vida dela, os bicos dela sempre que ela tá entediada. Ela era tagarela e eu conseguia ver como ela gostava de falar sobre a vida dela pra mim.
Isso tudo foi arruinado quando uma sombra dominante caiu sobre nós. Emma imediatamente se endireitou e continuou digitando no computador com uma expressão preocupada no rosto. Claro, eu esperava que isso acontecesse.
Eu virei minha cadeira giratória pra ele, levantando a cabeça pra ver sua gloriosa presença. A carranca não foi surpresa, mas parecia ficar cada vez mais escura sempre que ele me via. Eu fico feliz por afetá-lo tanto. Mas tô impressionada, a contusão no rosto bonito dele que eu pintei dias atrás quase não existia. Uau. Gente rica.
Ele estava carrancudo, com os braços cruzados, sobrancelhas franzidas, boca em linha firme. 'É isso que você está fazendo com meus funcionários? Desperdiçando tempo como se não tivesse prazo.'
Meus lábios se levantaram em um sorriso. Ele rosnou, irritado com minha resposta sutil. 'Precisamos conversar.'
Ele é uma criatura tão dominante. Eu pensei, enquanto sacudia a cabeça, um sorriso saindo do meu rosto.
Depois de dizer adeus e agradecer à Emma, eu segui o Nile em direção ao escritório dele e talvez me preparei pra uma discussão intensa. Assim que eu fechei a porta, a voz dele explodiu sem hesitação.
'Me responda, Senhorita Kur. Claramente, você não está levando este trabalho a sério.' Ele se encostou na mesa e cruzou os braços mais uma vez.
Ele era alto, com um corpo que tinha a quantidade certa de músculos, o que aumentava seu charme. Apesar de estar encostado na mesa, ele ainda era mais alto que eu. Eu provavelmente alcançava o queixo dele agora e, quando ele se levantasse, eu estaria mais ou menos na altura dos ombros ou do peito dele. É o quão gigante ele era.
Eu revirei os olhos. 'Por favor.'
'Não me provoque. Você está trabalhando pra mim, Senhorita Kur. Por mais que eu despreze sua presença aqui, a Quinn te indicou. Ela disse que você é a melhor das melhores no seu trabalho.'
Tá aí a minha resposta.
Eu andei em direção a ele. Quando eu estava a um pé de distância dele, eu joguei a pasta contra o peito dele. As sobrancelhas dele se levantaram em surpresa.
'Isso contém as listas de pessoas em quem confiar no planejamento e organização do evento. De funcionários importantes a menos importantes, suas tarefas e afins - até mesmo a gestão de catering. Eu sabia o quanto você confia nos seus funcionários, então, em vez de me dar aleatoriamente pessoas com quem eu posso trabalhar, eu perguntei a eles um por um para que eu soubesse suas capacidades e onde colocá-los. Isso torna nosso trabalho muito mais fácil e menos demorado. Em suma, tudo está detalhado lá.'
Quando me deram os nomes de quem poderia entrar na minha equipe, eu tentei procurar os tais nomes. As pessoas na lista têm o trabalho mais leve da empresa. A Emma era uma delas. E, aparentemente, a Emma era designer. Apesar do trabalho de digitação dela aqui. Ela também era muito talentosa e me mostrou alguns de seus trabalhos. De flores a interiores, jardins e mini eventos como aniversários de suas famílias e parentes. Eu consegui ver o amor e as habilidades dela em decoração. Eu precisava de alguém como ela. Eu precisava do talento dela.
Eu queria encontrar diamantes, não pedras. Acontece que ele possui muitos deles.