Capítulo 53
Curiosa pra saber quem era, deslizei na tela pra atender.
A voz que respondeu me deixou travada. Inclinando a cabeça pro lado, Nile me olhou com os olhos semicerrados enquanto me estudava.
"Selina." Falei o nome dela firme. "O que você quer?" Eu disse com os dentes cerrados.
"Kur." Eu podia ouvir que ela tava segurando as lágrimas do outro lado da linha. A voz dela tava contida e tremendo. "Seu pai." Eu travei de novo. Ouvi ela fungando no fundo. "Seu pai tá doente, Kur. Por ele… por favor, vem aqui e visita ele." Ela falou com tristeza.
"Nossa, sério? Eu não ouço falar de você faz dez anos e agora você resolve me ligar. Vocês dois podiam apodrecer no inferno, eu não ligo." Desliguei a chamada e joguei o telefone na mesa.
"Quem era?" Nile perguntou imediatamente.
"Não é da sua conta, Nile." Levantei com um plano de sair. "Eu vou pra casa. Se você quiser ficar aqui, então eu não vou te incomodar." Saí pisando duro, com Nile na minha cola.
"Kur! Kur, espera!" Ele bloqueou meu caminho e agarrou meu braço pra me parar. "Que merda! Quem era? Quem te ligou, Kur, pra você agir assim?!"
"Eu disse que não é da sua conta!" Exclamei sem querer.
Ele ficou chocado com o tom que usei. Preocupação imediatamente substituiu a expressão dele. Eu me senti culpada por isso, então pedi desculpas.
Suspirei antes de falar. "Desculpa. Me deixa em paz, Nile. Só dessa vez." Minha voz quase implorando.
Ele ficou me encarando por alguns segundos antes de ceder ao meu pedido. Ele olhou pra baixo enquanto apertava os punhos, mas eu continuei andando e passei por ele, o deixando parado no corredor.
Eu podia sentir que ele tava magoado, mas tentei ser cega. Eu realmente não consigo lidar com isso agora. Não quero explicar pra ele por que eu tô assim. A dor só ia dobrar. Eu odeio lembrar do passado, especialmente sobre minha família.
Eu voltei pra casa e não foi na dos Veselov. Pela primeira vez desde que me pegaram, finalmente voltei pra casa, pro meu apartamento. Adormeci assim que me joguei na minha cama.
Essa noite foi de uma das mais felizes pra noite mais decepcionante em dez anos.
---
O som da campainha me acordou do sono. Eu mandei quem quer que fosse lá fora esperar, enquanto levantei da cama grogue. Ainda tava com o meu vestido de ontem. Levei um tempinho pra me trocar e lavar o rosto antes de abrir a porta. É a vingança por me fazer acordar cedo.
Fiquei chocada quando abri a porta. Era Colton. Apesar de eu não esperar quem tava lá, já que ainda tava meio zonza.
"Colton?" Ele não tava feliz quando me viu. "Como você soube que eu tava aqui?" Perguntei, enquanto ele se convidava pra entrar.
"Como eu soube? O carinha apaixonado me ligou hoje de manhã, falando pra dar uma olhada em você no seu apartamento. Eu tive que perguntar por que você tá aqui. Ele disse que você atendeu uma ligação estranha ontem à noite e depois saiu. Rose, o que aconteceu? Quem te ligou?" Ele falou um pouco bravo no começo e gradualmente se tornou preocupado quando perguntou quem me ligou ontem à noite.
Suspirei antes de levá-lo pro sofá da sala. Sentamos e conversamos. Colton sabia quase toda a minha vida, já que crescemos juntos, então não era segredo que ele sabia da minha briga com a minha família.
"Caramba. Você não tá um pouco preocupada com seu pai? E se ele estiver realmente doente?"
"Meu rancor não me deixa me preocupar com ele, Colton. Ele me abandonou e escolheu aquela vadia em vez de mim - a própria carne e sangue dele. Você acha que eu tenho coração pra sentir nem um pouquinho de preocupação por aquele babaca? Ele nunca se importou comigo, então por que eu deveria me importar com ele também?!"
Ele ficou quieto e eu sabia que ele entendia minha situação.
"Eu sei o que você sente e isso pode soar como um insulto pra você… mas acho que tá na hora de você fazer uma visita. Já faz mais de uma década e, nesse tempo, você cortou tudo com eles. Se eu fosse você, ficaria curiosa sobre como eles estão."
"Sério, Colton? Você tá certo. Isso é um insulto." Suspirei antes de compartilhar meus pensamentos. "E você tá certo. Tem vezes que eu fico me perguntando como ele tá. Afinal, mesmo que ele tenha me traído, ele ainda é meu pai."
Colton sorriu tristemente. "Você não precisa se mostrar pra eles. Você pode dar uma olhada de longe, só isso."
Olhei pra ele antes de suspirar. "Como o Nile descobriu que eu tava aqui de qualquer forma?"
"Ele te seguiu ontem à noite." Virei a cabeça pra ele em surpresa. "Fiquei bem bravo que ele não me contou logo. Eu tava preocupado com o que poderia acontecer com você de novo. Você tem tido muita azar ultimamente."
Revirei os olhos pro comentário dele. Ele tava se referindo a quase ser morta e depois ao problema com Jacob. Embora Jacob ter sido cuidado pelos homens de Nile ainda fosse desconhecido pra eles.
"A propósito, pelo jeito que ele falou quando ligou, ele não tinha dormido. Eu o encontrei lá fora a caminho pra cá. Ele tava cuidando de você até eu chegar. Você devia ter visto as olheiras dele."
"Quê?!" Meus olhos arregalaram.
"Você sabe o que acontece quando você não conta seus problemas pra ninguém. Aquele homem merecia a verdade de você. Ele pode ser muito possessivo e cheio de ciúmes avassaladores, mas eu nunca vi ninguém se importar com você mais do que a gente."
Suspirei. Ele tá certo. Ugh, odeio como ele sempre tá certo.
"Eu vou voltar hoje. Se você quiser vir, é só me falar."
"Eu vou."
"Bem, isso foi rápido." Ele brinca, o que consegue nos fazer rir. Soquei o braço dele de brincadeira.
"Não se preocupa. Vou avisar o Nile." Sorri zombeteiramente pra ele.
"Bom. Vamos sair depois do almoço. Vou ficar aqui com você até lá, pra o carinha apaixonado não ficar puto de preocupação com você."
---
Fiquei ouvindo o telefone tocar por alguns segundos antes de ouvir uma resposta. Me senti culpada sabendo que o acordei do sono.
"Nile." Respondi assim que ele disse alô. A voz dele tava rouca e suave.
Ouvi um barulho antes dele começar a falar claramente. "Kur. Você tá bem?"
Ugh. Eu sou uma babaca por ter deixado ele ontem à noite. "Sim, sim. Eu tô bem, Nile. Escuta, desculpa sobre ontem à noite. Eu tava agindo como se você não importasse. Eu sinto muito mesmo, Nile." Meu coração deu uma batida quando ele ficou em silêncio.
"Eu…" Continuei. "Eu tô… eu vou ver minha… família. Colton vai comigo. Eu… eu tô indo com Colton, na verdade, já que estamos indo mais ou menos pro mesmo lugar." Ele ainda tava quieto. "Nile… eu prometi que, quando eu voltar, eu vou te contar tudo. Não vou deixar nada pra trás."
"O que você quiser." O telefone então desligou.
Merda.
"Você tá bem?" Colton perguntou assim que entrou no carro, logo depois de carregar minha bagagem na parte de trás.
"Não." Grunhi. "Eu realmente, realmente estraguei tudo." As sobrancelhas dele se franziram em uma carranca, enquanto ele me olhava abatido.
Meu coração apertou com a ideia de que eu estraguei meu relacionamento com Nile. Eu fui burra e egoísta. Burra e egoísta!
"Sabe…" Colton falou depois de um longo silêncio. "Essa é a primeira vez que te vejo chateada por um homem. O relacionamento mais sério que você teve foi com Nixon, mas mesmo assim você não tava assim quando ele foi embora."